Desta vez, o retrato é dúplice, porque os Mascarenhas eram gémeos. Foram meus colegas de proximidade e carteira, no 1º e 2º anos do liceu. Vinham de fora, de uma pequena vila na proximidade da cidade. Vestiam de igual, um pouco à campesina nos tecidos grosseiros, mas sempre de fato e gravata, excepto no Verão. E cercavam-me na numeração escolar, a mim, que era o nº 2. Antecedia-me o Abel Artur, e o Artur Abel detinha o número 3. Eram ambos muito bons alunos, mas o Artur levava a palma ao Abel em quase todas as disciplinas.
A partir do primeiro mês de camaradagem, na turma C, nunca mais tive dificuldade em os distinguir, embora grande parte dos colegas liceais os confundissem, com frequência. Em traços, natureza e feitio, era possível identificar cada um deles. Mas até os próprios professores, às vezes, lhes trocavam os nomes, para gaúdio e galhofa discretos de alguns de nós. Que me lembre, só o dr. Carvalho (de Francês) e a Dra. Maria Estrela, professora de Matemática, atinavam sempre com os seus nomes correctos, para nossa admiração.
Analisando, hoje, a questão de eu os distinguir bem, chego à conclusão que o Artur era mais masculino de aspecto e mais agressivo no trato. O Abel mais compassivo e feminino, pelo rosto glabro mais suave das expressões e pela voz.
Lembrei-me deles, recentemente, ao ver na televisão as duas gémeas Mortágua - a Joana e a Mariana, ambas deputadas do BE.