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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Da leitura 44



"É um segredo de polichinelo que os intelectuais em regime de clausura e os homens que passam a vida emparedados entre livros e textos podem experimentar com especial intensidade as seduções de propostas políticas violentas, sobretudo quando a violência poupa as suas próprias pessoas."

George Steiner (1929-2020), in Martin Heidegger, pg. 31.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Mote e glosa (13)


Heidegger não pensa "sobre algo", mas pensa algo.
...
... a capacidade de nos surpreendermos perante o que é simples (...) e tomar como ponto de partida este sobressalto.

Hanna Arendt (1906-1975), in Revista de Occidente (nº 84, 1970).

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O tempo desocupado por inteiro pode, nalguns casos e após um período neutro de transição (as férias não são o suficiente...), levar-nos a questionar as coisas mais simples, os factos dados como encerrados, os saberes adquiridos, as frases feitas. O tempo, dito, de reforma ou de aposentação pode, por isso, ser portador de novas curiosidades e descobertas. Criando assim um espaço de reflexão inesperado, natural.
Se a idade, necessariamente, nos faz desaprender, até pelos saberes que fomos esquecendo com o tempo, devido a não os usarmos, esse novo espaço livre pode vir a ser uma fonte fresca e seara de conhecimento, desde que o tomemos como ponto de partida para esse sobressalto.

domingo, 15 de julho de 2018

As borboletas da net (e aí vai mais um poste "elitista" e politicamente incorrecto)


É escusado fantasiar ou iludirmo-nos: muitas das anódinas visitas, ocasionais, vêm ao Arpose por causa das imagens, não por causa dos textos. O bing é pobre em iconografia, o pintrest é um plagiador pimp de imagens alheias, o Google é um conservador inato e estandardizado...
Por isso, quando um brasileiro vem ao Blogue para centrar a sua atenção no poste sobre o "Bestiário de Da Vinci", ou um americano clica num poste de parabéns, eu sei que vieram pela imagem da Senhora com um Arminho, e pelo desenho de um gato de Picasso, mas o texto que acompanha essas imagens pouco lhes interessa. A América Latina também é muito atraída pela fotografia de uma Santa com barbas (Wilgefortis) o que só demonstra o lado animista africano que subsiste nas Américas do Sul e do Norte. Mas também as botas de um quadro de Vincent van Gogh, que encimam necessariamente e a propósito uma transcrição de Heidegger, colhem a atenção dessas muitas borboletas que circulam pela net. Heidegger deve ser, para essas mariposas néscias, apenas um nome esquisito. Só o insólito e extravagante das imagens as desinquieta, da sua inércia ignorante e boçal.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uso pessoal 14


De facto, nunca virei a saber a razão exacta que torna tão popular e visitado o antigo poste, do Arpose, "Heidegger, sobre um quadro de Van Gogh" (23/1/2013). Se a reprodução da célebre tela das cansadas e camponesas botas do pintor holandês, se as sábias e humanas palavras do filósofo alemão. Inclino-me, no entanto, para a imagem, por várias razões. Que os nómadas ligeiros e aéreos, que pululam na net, não gostam de perder tempo com palavras e leituras. Creio que, muitos deles, são até analfabetos funcionais.
Estes meus velhíssimos e desgastados sapatos de pala, em imagem fotográfica, confesso à puridade que me acompanham há duas ou três décadas - nunca juntei coragem para os deitar fora. Acusam longa vida, mas ainda os uso por casa ou em brevíssimas surtidas exteriores que, por curtas, não chegam para envergonhar-me perante os meus semelhantes mais atentos e observadores...
Sinto-me bem com eles: são cómodos, dão-me bom andar, são seguros, flexíveis q. b., e nem preciso de apertar ou desatar os atacadores quando os calço ou descalço. Em suma, que poderia eu querer mais?


Nota: para os devidos efeitos, tenho a declarar que este poste não é uma geminação da sofisticada temática "Elegâncias", que a MR costuma publicar no seu Prosimetron.

domingo, 5 de outubro de 2014

Heidegger, prós e contras


A figura de Martin Heidegger (1889-1976) continua a ser polémica e a despertar paixões, sobretudo pela sua adesão e ligação ao nazismo, durante os anos 30, que o filósofo alemão nunca explicou suficientemente, bem como pelos fundamentos das suas teorias filosóficas.
Este interesse apaixonado, que se acentuou recentemente com a saída dos seus "Cadernos Negros", em França, justifica que o jornal Le Monde (26/9/14) lhe consagre duas páginas inteiras, com depoimentos de cinco colaboradores e analistas.
Independentemente de eu não tomar posição, por insuficientes conhecimentos pessoais e próprios, não quero deixar de traduzir um pequeno excerto da análise de Jean-Marc Mandosio (1963), ensaísta e tradutor, que segue:
"...O problema principal é evidentemente que a filosofia de Heidegger é feita em grande parte de jogos de linguagem e revela-se de uma extrema pobreza: por trás do jargão heideggeriano, as suas interrogações, inçadas de citações poéticas, e as suas etimologias fantasistas que fazem derivar o alemão do grego, não têm muito de sério nem de consistente. ..."

domingo, 6 de julho de 2014

Da dificuldade de algumas leituras, ou o princípio de Peter


A verdade será, também, por entre as nossas dúvidas, confessar as nossas próprias deficiências. Ou perceber os nossos limites.
Nunca fui familiar próximo  da Filosofia e, aí, estou - creio - em consonância com a maioria dos portugueses. Porque também só com  extrema boa vontade poderemos assinalar dois ou três nomes de "verdadeiros" filósofos, ao longo de toda a história portuguesa.
Li, e creio que compreendi, G. Berkeley, Pascal, Descartes, Kierkeegaard, Schopenauer, Nietzsche, Bergson, e alguma coisa dos Pré-socráticos. Por aí me fiquei, de algum modo. Spinoza já me criou dificuldades ou, se quisesse justificar-me airosamente, diria: aborreceu-me...
Mas também em poesia, às vezes, me acontecem dificuldades de leitura: nunca consegui entrar nos poemas de Paul Celan, mesmo através de traduções francesas. A espessura - para falar de prosa - de Maria Gabriela Llansol, nunca se me desvendou em claridade de entendimento. E, voltando à Filosofia, também tenho extrema dificuldade em ler Heidegger, mas insisto. E se penso que os seus postulados e proposições são minuciosos e lentos no avançar, caminhando a passo de caracol, mas exaustivos, como se fossem explicados para crianças, também me acontece perder-me, algumas vezes, nesse labirinto de reflexão.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Citações CLXXVI


A libertação da linguagem das leis da gramática, em direcção a um reordenamento mais original e essencial, está reservada ao pensamento e à criação poética.

Martin Heidegger (1889-1976), in Pathmarks (Wegmarken), Cambridge University Press (1998).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Heidegger, sobre um quadro de Van Gogh


É um dos quadros mais impressivos e conhecidos de Vincent van Gogh (1853-1890), e terá sido pintado por volta de 1886. É uma pintura pequena (37,5 por 45 cm.) e pertence ao acervo do Museu van Gogh, de Amesterdão. O par de sapatos, ou botas de camponês, que serviram de modelo para a obra, terão sido comprados pelo Pintor numa Feira da Ladra, já usados, mas ele ainda os calçou e utilizou. É comum interpretar-se esta Natureza Morta como representando a dificuldade de viver ou a difícil profissão dos agricultores holandeses de então. Na sua obra Der Ursprung des Kunstwerkes, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) aborda o quadro de uma forma muito própria. Passo a transcrever e traduzir um pequeno excerto, mais significativo:
"... Na boca escura do desgaste interior respira fundo a fadiga dos passos laboriosos. Na rude gravidade dos sapatos está representada a tenacidade da lenta marcha através dos largos e monótonos sulcos da terra lavrada, por onde sopra um vento rouco. No couro está tudo o que há, de húmido e gorduroso, no solo. Por baixo das solas desliza a solidão do caminho que atravessa a tarde que cai. E nos sapatos vibra o tácito chamamento da terra, a sua repousada oferenda do trigo que amadurece e a sua enigmática recusa em abandonar-se ao ermo campo baldio do inverno. Por essa utilidade ele afronta o mudo medo pela certeza do pão, a calada alegria de voltar a sair da miséria, o palpitar diante da chegada do filho e o trémulo receio pela morte em volta. Propriedade da terra é este o lado útil e o resguardo do mundo do camponês. Desta recatada propriedade emerge o concreto mais útil do seu repousar em si. ..."

Nota: a tradução do texto foi feita sobre a versão espanhola de Samuel Ramos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sinceridade e delicadeza


É uma esplanada sobre a praia fluvial e sobre o rio. Quatro quarentões, por entre a sobremesa e os cafés, todos, mais ou menos amigos: o filósofo, o poeta, o editor e eu. Final de Agosto, temperatura a rodar os 30º. Folhas manuscritas, numa 5ª cadeira vazia. Diz o editor: "...os analfabetos falam por frases completas, não se expressam por monossílabos, ou palavras únicas, isoladas..." - e contou duas histórias exemplares, a seguir. Mas o filósofo quer elevar o nível da conversa e cita, a despropósito Heidegger, segundo o qual o conhecimento antecipado da morte, propiciava autenticidade (referiu, no entanto: sinceridade). O poeta não concorda, nem aconselha: "Há que ser delicado para com os outros! A sinceridade ou a verdade não são as virtudes principais do ser humano." Eu fico-me na dúvida e não me pronuncio. Dividimos a conta, pagamos, e o filósofo pede o segundo café.
O editor, que está com pressa, pegou então nas folhas manuscritas, metendo-as debaixo do braço. Ao despedir-se dos 3 amigos sentados e restantes, disparou para o nosso amigo vate: "Como queres a minha opinião crítica sobre os teus poemas?, sincera ou delicada?" E antes que o poeta respondesse, prosseguiu: "Vou ser delicado, podes crer!..." E saíu do restaurante, a sorrir, e acenando para trás. Nós ficamos em silêncio uns bons cinco minutos. E puxamos de cigarros, que fomos acendendo lentamente, para ganhar tempo e coragem para preparar as palavras seguintes...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poeta e Criação, segundo E. de A.


Em Rosto Precário (6ª edição, 1995), no texto intitulado "O sacrifício de Ifigénia", Eugénio de Andrade escreve:
"O acto de criação é de natureza obscura; nele é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse «pastor do Ser», na tão bela expressão de Heidegger, é, como nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, tão escolarmente elaboradas, quando não pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que é todo um homem. Não há vitória definitiva sem a reconciliação dos contrários. (...) Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis - a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens."