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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Marianne Moore (1887-1972)


A Face


"Não sou traiçoeiro, insensível, invejoso, supersticioso,
nem arrogante, venenoso, ou realmente feio":
    fixando e estudando a sua expressão,
    irritado desespero
       embora sem real impasse
       poderia alegremente quebrar o espelho;

quando o amor à ordem, o ardor, a simplicidade desarmante
da expressão inquisitiva, é tudo quanto é necessário!
  Certas faces, poucas, uma ou duas - ou um
  rosto fotografado de memória -
      intimamente, e pelo meu olhar,
      pode ficar como um gosto infinito.


Marianne Moore, in Neverthless (1944).

domingo, 19 de outubro de 2014

De Marianne Moore


Para uma serpente

Se "compressão é a primeira graça do estilo,"
tu tens esse dom. Contracção é uma virtude
como a modéstia, também.
Não é a aquisição de qualquer coisa
para mero adorno,
ou uma qualidade acidental que, porventura, ocorra
tal como um dito apropriado,
que nós valorizamos no estilo,
mas o princípio que se esconde:
na falta dos pés, "um método conclusivo,"
"um conhecimento dos princípios,"
nesse curioso fenómeno do teu corno occipital.

Marianne Moore (1887-1972).


domingo, 9 de março de 2014

Apesar de tudo...


Poetry

Eu, também, não gosto dela.
      Mas ao lê-la, contudo, mesmo com perfeito desprezo por ela, cada um de nós descobre
      nela, e apesar de tudo, um espaço para o que há de mais genuíno.


Marianne Moore (1887-1972), in Selected Poems (1935).

terça-feira, 4 de março de 2014

Um poema de Marianne Moore


O passado é o presente

Se a acção externa está gasta
e a rima fora de moda,
eu voltarei a ti,
Habacuc, como quando na aula de religião
o professor nos falava dos versos brancos.
Dizia ele - e eu penso ser fiel na citação,
" A poesia hebraica é prosa
de consciência acrescida." O êxtase dá-lhe
a ocasião, a conveniência determina a forma.

Marianne Moore (1887-1972), in Selected Poems (1935).

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ainda um poema de Marianne Moore


Não é fácil a poesia da americana Marianne Moore (1887-1972), que tem quase sempre, semeada pelos seus versos, uma ironia seca que nos acorda para a realidade mais objectiva, e por vezes amarga do dia a dia, ou dos poderes instituídos. Já por aqui, no Blogue, lhe traduzimos dois poemas e qualquer deles não será de fácil agrado, nem de empatia imediata. Mas esta poética do agreste, algo prosaica, tem em si uma densidade pouco habitual que nos faz pensar e ir para além das suas palavras, aparentemente, simples. Aqui vai mais um poema:

Valores em uso

Eu frequentei a escola e gostei do lugar -
da relva e da sombra das folhas lacustres.

A escrita era discutida. Eles diziam, "Nós criamos
valores no processo de viver, não ousemos esperar

pelo seu processo histórico." "Sendo abstracto,
desejarás ser específico. É um facto."

O que é que eu estudava? Valores em uso
"julgados em si mesmos." Serei ainda abstrusa?

Passeando, um estudante disse, a despropósito,
"«Relevante» e «plausível» eram palavras que eu entendo.

Uma afirmação simpática, meu amigo anónimo.
Certamente que os meios não destruirão o fim.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Citações LIX : Marianne Moore


"Omissions are not accidents"
( Omissões não são acidentes)

Marianne Moore (1887-1972).

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Marianne Moore


A propósito de Elizabeth Bishop, referi (5/2/11) que tinha sido amiga de Marianne Moore (1887-1972). A poesia desta escritora americana não é simples, embora pareça. Uma ironia, por vezes quase corrosiva, diluída em palavras suaves, é uma das suas marcas de água. As palavras deixam sempre algo por dizer, ou, pelo menos, sugerem-no. Há quem diga que a sua poesia tem como privilegiados destinatários, apenas, outros poetas de vocação. Não concordo, inteiramente, com esta afirmação. Alguns versos de Marianne Moore fazem-se-me eco, na memória, com o tom de alguns poemas de Fernando Assis Pacheco que não tem, de maneira nenhuma, uma poesia hermética ou ininteligível - bem pelo contrário.
Esta mulher singular que tinha uma forma de vestir muito própria e que usava, com frequência, um exótico chapéu tricórnio era, em quase tudo o mais, relativamente discreta. Gostava muito de desporto e frequentava espectáculos desportivos, com gosto. Agregou tertúlias literárias ao longo da sua vida, e era amiga de Ezra Pound. T. S. Eliot apreciava muito a poesia de Marianne Moore. Para que se faça uma ideia, vamos traduzir-lhe um poema:

Silêncio

Meu pai costumava dizer,
"As pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
e devem ser vistas junto ao túmulo de Longfellow
ou nos canteiros floridos de Harvard.
Auto-confiantes como um gato -
que leva a sua presa para um lugar privado,
a cauda flácida oscilante do rato, suspensa da boca,
como um cordão de sapatos - às vezes
essas pessoas gostam da solidão,
e podem até perder a fala
diante de um discurso que lhes dê prazer.
O sentimento íntimo e profundo deve sempre manter-se
silencioso; não em silêncio, mas discreto".
Ele nem sequer era insincero quando dizia, "Faz da minha casa
a tua hospedaria". As hospedarias não são moradas.