De um dos nossos grandes prosadores, Francisco Manuel de Melo (1608-1666), sobre imaginação e solidão, vale a pena lembrar uma pequena parte, no início, do Prólogo de "Os Relógios Falantes", na lição de Maria Judite F. de Miranda (Edição Crítica, Coimbra, 1968) que, com pequenas actualizações ortográficas minhas, segue assim-
"Senhor: Já ouviríeis a graciosa indecência com que disse um dos nossos discretos que a imaginação era curral do concelho donde, por não ter portas, todo o animal tinha entrada. Se isto alguma vez foi verdade, na imaginação dos solitários se verifica. Persuado-me que, do próprio modo que ao homem só o investem seus inimigos, ao homem só o assaltam seus pensamentos, entre os quais não há nenhum tão cobarde que deixe de fazer sorte naquele a quem ninguém defende. Todavia não sei que feitiços nos dá a solidão que, apesar desses inconvenientes, quem uma vez a experimentou sempre a procura. Será porque, nela, entre o entendimento e o céu há pequeno intervalo, larga distância entre a vida e o perigo, quando racionalmente se busca e sabiamente se dispende..."