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segunda-feira, 14 de março de 2022

Curiosidades 91



Do rei D. Manuel I se dizia que era entroncado, mas tinha o tórax curto e os braços muito compridos, que quase lhe chegavam aos joelhos. Sobre as suas régias mãos não constam as crónicas.
Por diversas vezes, Maria João Pires referiu que o seu repertório evitava Liszt por a pianista portuguesa ter as mãos pequenas e os dedos curtos.
Em Quando os robles também se abatem diz-nos André Malraux (1901-1971) que : "Volto a descobrir, ao apertar-lhe a mão, como as mãos deste homem (Charles de Gaulle), tão grande ainda, são pequenas e finas. Também as mãos de Mao Tsé-Tung, descarnadas, parecem as mãos de um outro." (pg. 20)

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um CD por mês (14)


A projecção profissional, no estrangeiro, da violoncelista portuense Guilhermina Suggia (1885-1950) só será comparável talvez à que hoje goza a pianista Maria João Pires, internacionalmente. Casada durante 6 anos com Pablo Casals (1876-1973), que fora seu professor, Guilhermina viveu em Londres, episodicamente, onde, entre 1920 e 1923, o pintor Augustus John (1878-1961) a retratou. O quadro integra o acervo da Tate e capeia o CD da imagem acima reproduzida.


Afortunadamente e já neste século, consegui comprar na Valentim de Carvalho, a remasterização, de 2004, em  CD, de algumas das gravações primorosas da violoncelista, efectuadas em 1927, 1928 e 1946, com obras de Haydn, Lalo e Max Bruch. É deste último compositor que reproduzimos, na interpretação de Guilhermina Suggia, a composição musical Kol Nidrei, no poste seguinte.


A foto de Guilhermina Suggia, acima, creio que foi tirada nos jardins do Palácio de Queluz.

domingo, 19 de abril de 2020

Para responder a MR



Num comentário a um pequeno vídeo de música de Telemann, que muito recentemente surgiu no Arpose, MR perguntava se Eugénio de Andrade (1923-2005) gostaria da obra do compositor. Não creio que ele alguma vez o citasse, mas refere, que eu me lembre, Bach, Beethoven, Haydn e Schubert. E tem também um poema dedicado à memória de Webern. Em Obscuro Domínio (1971), no poema Envio, Eugénio de Andrade escreveu na terceira estrofe:

A Mozart
que escreveu o Alegretto do Concerto em Sol
(K. 453) à memória de um estorninho.

W. A. Mozart era por isso também uma das referências do Poeta.
É esse andamento que aqui surge interpretado, ao piano, por Maria João Pires.

Especialmente dedicado a MR, com as melhores lembranças.


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Divagações 142


Se algumas, raras, vezes um poste pode ser uma discreta vontade de diálogo com outro poste que vimos e lemos num blogue alheio, a maior parte deles resulta de uma vontade pessoal de tomar posição perante um facto, uma pessoa, um acontecimento que não nos deixou indiferentes.
Por outro lado, romper o nosso silêncio encasulado pode resultar de um irreprimível desejo de partilha com os outros (ainda que anónimos) de uma emoção ou sensação demasiado agradável que não pode só restringir-se às restritas paredes do nosso pequeno universo.
Eugénio de Andrade exprimiu isso, em verso, de uma maneira admirável e para sempre: "...De coisas que te dou/ para que tu as ames comigo..."
Não tenho grande memória para a Música. Melhor dizendo, consigo reconhecer e situar uma melodia, às vezes, quando a volto a ouvir, mas tenho enorme dificuldade em me lembrar, por exemplo, de quem a interpretou, quando e onde.
Se tenho a certeza que vi, ao vivo, execuções de Braga Santos e de Stravinsky, este último no Coliseu, já não estou seguro de ter assistido a interpretações de Maria João Pires, muito embora seja altamente provável tê-la ouvido na Gulbenkian, nos anos 60 ou 70.
Tudo isto para deixar escrito, aqui no Arpose, o nome de Sequeira Costa (1929-2019), que ontem nos deixou. E que era um homem discreto e sério, para além de ser um notável pianista português.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Divagações 141


Escolhi, para cenário de fundo da leitura de um pequeno ensaio de Saul Bellow (1915), um vídeo-gravação do 4º Concerto para piano de Beethoven. Embora qualquer dos sentidos (olhar e audição) obrigue a uma concentrada atenção, desvio, de vez em quando, o olhar da leitura para o dirigir para a primorosa execução de Wilhelm Backhaus (1884-1969), que foi dirigido pelo maestro Karl Böhm (1894-1981), em 1967. O vídeo é excelente, quer em imagem, quer na sonoridade. A orquestra era a Sinfónica de Viena.
Fico surpreendido pela impassibilidade facial do pianista e do maestro. Apenas se nota, por vezes, uma ligeira contracção muscular na face de Backhaus, quando alguma passagem da partitura obriga a uma maior energia de execução. Menos ainda alterado, o porte e expressão do maestro Böhm.
E dou-me a pensar, por comparação, em interpretações de Alfred Brendel e Maria João Pires cujos jogos fisionómicos se expressam, variada e profundamente. Por entre o que parece ser dor, prazer, dramatismo...
Não sei o que hei-de concluir.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Uma dupla de Classe, para o fim-de-semana



Nota: cerca de 40 segundos, no final do vídeo, são de aplausos. Quem o lançou, bem poderia ser mais poupado nas redundâncias inúteis...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Pinacoteca Pessoal 44 : Nikias Skapinakis


Pintor discreto mas interveniente, Nikias Skapinakis (1931), português de ascendência grega, autodidacta, com curta frequência da Escola de Belas Artes, tem um lugar cativo e seguro na história de arte portuguesa do século XX.
Retratista notável, nas suas telas de cores alacres, há também lugar para um espaço de temperada melancolia. Mas dêmos-lhe a palavra:
"...Não se trata de um estudo de intenção sociológica mas de um discurso, utilizando a linguagem não discursiva da pintura, sobre alguns aspectos da sociedade portuguesa contemporânea e, mais ambiciosamente, sobre alguns aspectos da situação da mulher no mundo, num espaço e tempo cujas coordenadas reais não são só daqui.
E se um olhar irónico envolve esse tal discurso, convém não esquecer que ironia significa, na sua origem grega, interrogação. Se, todavia, a pintura resulta convincente e disponível para uma comunicação de acordo com a exigência de um público que, em toda a parte, tende a alargar-se, não cabe ao pintor afirmar. ..."

Nota: o quadro, em imagem, retrata as escritoras Natália Correia, Fernanda Botelho e a pianista Maria João Pires. Foi pintado em 1974.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Gottfried Benn e Chopin




Mão amiga me trouxe, ontem, uma voz desconhecida para mim: Gottfried Benn (1886-1956), poeta alemão. Os poemas são traduzidos por Vasco da Graça Moura e, embora não cotejados com os originais, as versões parecem-me de grande qualidade. Escolhi "Chopin".
Não muito fecundo na conversa,
as ideias não eram o seu forte,
as ideias vão de roda,
quando Delacroix desenvolvia teorias
ele ficava inquieto, por seu lado
não podia dar razões para os Nocturnos.
Fraco amante:
sombra em Nohant
onde os filhos de George Sand
nenhum conselho proveitoso
lhe aceitavam.

Doente dos pulmões,
com hemorragias e formação de cicatrizes
naquele modo que se arrasta;
morte tranquila
ao contrário de uma
com paroxismos de dor
ou com salvas de tiros:
encostaram o piano (Erard) à porta
e Delphine Potocka
na hora extrema
cantou-lhe um Veilchenlied.
Viajou para Inglaterra com três pianos:
Pleyel, Erard, Broadwood,
tocava a vinte guinéus por noite
um quarto de hora
nos Rothschilds, Wellington, em Strafford House
e perante inúmeras jarreteiras;
sombrio de fadiga e do acercar da morte
voltava para casa
no Square d'Orléans.
Depois queimou os seus esboços
e manuscritos,
sobretudo nenhuns restos, fragmentos, notas,
esses indícios traiçoeiros -
e disse no fim:
«As minhas tentativas consumaram-se à medida
do que me era possível alcançar».
Cada dedo devia tocar
com a força correspondente à sua estrutura,
o quarto é o mais fraco
(só irmão siamês do dedo médio).
Quando começava, pousava-os
em mi, fá sustenido, lá sustenido, dó.
Quem dele já ouviu
certos Prelúdios,
seja em casas de campo ou
em colinas
ou por portas abertas de terraços,
por exemplo, de um sanatório,
dificilmente o esquecerá.
Nunca compôs uma ópera,
nenhuma sinfonia,
só estas progressões trágicas
de convicção artística
e com uma mão pequena.

Nota breve: G. Benn exerceu durante a sua vida a profissão de médico. Enquanto lia este poema não pude deixar de pensar na "Arte de Música" de Jorge de Sena.