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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Teimosias

 


Na banca do Chiado o fora de série (nº 112), de L'OBS, dedicado a Marcel Proust (1871-1922), chamou-me a atenção e tentou-me. Eu bem sabia que os sete volumes (do Em Busca do Tempo Perdido), da Livros do Brasil, traduzidos pelo brasileiro Mário Quintana (1906-1994) me aguardavam leitura na estante, desde finais do século XX. Sei da data de aquisição, pelo valor ainda em escudos (2.800$00) e os algarismos disciplinados e elegantes, denunciando a letra de Tarcísio Trindade (1931-2011), alfarrabista memorável a quem os comprei, na rua do Alecrim. Proust está porém na boa companhia de Hermann Broch e Alfred Döblin, grandes romancistas, mas cujos livros também nunca consegui ler até ao fim...


Lá trouxe pois da banca este Hors Série, na remota esperança de que a revista (98 páginas), profusamente ilustrada e com colaborações promissoras, funcione como aperitivo e alento para, mais uma vez, reencetar a leitura desta obra-prima de Marcel Proust.

 Oxalá!

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Sonata imaginada


No primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido (Livros do Brasil), de Marcel Proust (1871-1922), consta, a páginas 212, a seguinte frase: "(...) Mas agora podia perguntar o nome da sua desconhecida (disseram-lhe que era o andante da sonata para piano e violino de Vinteuil), tinha-a segura, podia tê-la consigo quantas vezes quisesse e tentar aprender a sua linguagem e o seu segredo."



Se procurarmos, por todo o lado, não encontraremos o nome do compositor Vinteuil, porque ele não existiu. Mas o chileno Raoul Ruiz (1941-2011) fez acontecer a dita sonata, no seu filme Le Temps Retrouvé (1998), com a ajuda do seu compatriota e compositor Jorge Arriagada (1943).
É dessa composição imaginada que damos um pequeno excerto.

domingo, 7 de julho de 2019

Prémios literários


Raramente a atribuição de prémios é consensual, muito especialmente, os galardões literários. Mas também as recusas despertam polémica - estou a lembrar-me de Jean-Paul Sartre e Herberto Helder, por exemplo, que devem estar na memória de muita gente.
A imagem que encima este poste reproduz, parcialmente, a carta enviada a Marcel Proust (1871-1922), a comunicar-lhe a atribuição do Prémio Goncourt, em 10 de Dezembro de 1919, pela sua obra À l'ombre des jeunes filles en fleurs. Ora, este prémio foi dos que mais polémica causou.
O concorrente mais chegado de Proust, ao Prémio Goncourt, era Roland Dorgelès (Les croix de bois) que estivera nas trincheiras, e estava-se no rescaldo da I Grande Guerra, em que Proust não tomara parte. Este, obtivera 6 votos, enquanto Dorgelès só conseguira 4, do júri Goncourt.
Mas Proust foi muito atacado, sobretudo na imprensa e no Bulletin de l'Association générale des mutilés de la guerre. Chamaram-lhe snob e burguês. Em La Revue de Paris, a propósito da extensão do livro, Fernand Vandérem falou de "éléphantiforme". Um jornal referiu: "Proustitution"...
Hoje, a obra de Marcel Proust, no entanto, é consensual e ele pode continuar a dormir descansado.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Adorno e Proust


Recomecei pela enésima vez a leitura do À la recherche..., de Marcel Proust (1871-1922), pelo primeiro volume dos sete que conta a edição da Livros do Brasil. E reiniciei-a, porque tinha repegado numa  outra obra de Theodor Adorno (1903-1969) em que este pensador dedica algumas páginas à interpretação de uma das obras maiores da literatura francesa. A esse livro (Notes sur la littérature) também eu tinha abandonado, há 2 ou 3 anos, por o ter achado massudo e desinteressante.
Será que, de duas recusas anteriores pessoais, vai renascer uma aceitação afirmativa, futura?
É o que irei descobrir, talvez em breve.


domingo, 13 de janeiro de 2019

Marcar territórios


No final dos meus anos de Liceu, eram muito populares uns cadernos em que constava um conjunto de perguntas diversas que nós propunhamos a colegas, desafiando-os (e -as) a responderem por escrito. Normalmente, esses questionários terminavam a perguntar qual a frase célebre preferida do questionado(a) condiscípulo(a). E ninguém se coibia de responder a essas inocentes questões.
Creio que nenhum de nós sabia, na altura, que eles eram os toscos sucessores de um mais bem elaborado questionário de 40 perguntas que Antoinette Faure (1871-1950) propôs, em Maio de 1886, ao seu amigo Marcel Proust (1871-1922), então adolescente. Tratava-se de uma espécie de teste de personalidade que permitia, pelas respostas, avaliar os gostos e maneira de ser dos entrevistados.
Desconheço se hoje esses cadernos ainda circulam nas escolas, com a mesma finalidade.
Mas essa tendência humana para revelar-se aos outros, creio que ainda existe, em cada um de nós, com mais ou menos parcimónia e discrição. E há muitos sinais sobreviventes desse original Questionário de Proust, que o desaparecido Jornal de Letras ressuscitou nos anos 60 para, de algum modo, entrevistar escritores portugueses, homens de teatro e outras personalidades.
E é frequente em muitos blogues que os administradores, nos seus perfis, insiram os seus livros preferidos e autores, os filmes predilectos, músicas favoritas e outras particularidades, marcando assim o seu terreno de eleição e de afectos. Mas também, algumas mais raras vezes, para exibir a sua cultura. E é curioso verificar o contágio provocado pelos postes que enumeram listas de escolhas. São daqueles que mais comentários colhem, habitualmente, dos seguidores desses blogues...

sábado, 5 de janeiro de 2019

Literatura para ouvir e literatura para ler, segundo Auden


Qualquer fanático que, porventura, tentasse decorar todo o Proust, palavra por palavra, e tentasse depois recitá-lo em público, numa sala de estar, depois do jantar, imagino eu que as probabilidades seriam grandes de que, em pouco mais de meia hora, uma boa parte da audiência começaria a dormir e o seu veredicto sobre Remembrance of Things Past concluiria que se tratava de uma história entediante e incompreensível. A dificuldade de avaliar, favoravelmente, uma edição impressa de contos folclóricos, que nunca foram pensados para serem objecto particular de leitura, é também grande. A nossa sensibilidade para a literatura transmitida oralmente é distorcida pela natureza peculiar deste tipo de narrativas, que ainda se encontram vivas. Para nós, um conto falado é um conto que não se deve imprimir...

W. H. Auden (1907-1973), in The Dyer's Hand (pg. 149).

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Doenças, hipocondria, nervosismo e pulsações


Num tempo de eternos juvenis, de hipercuidados de saúde, de laicos amadores que dominam a nomenclatura especializada ou qualquer sintoma mínimo de doença e sabem prescrever para tudo a competente mezinha, eu tenho que me considerar um ignorante, um desleixado incompetente, um não-hipocondríaco impenitente e absoluto, para mal dos meus pecados. Vou morrer, assim, na inocência e na bem-aventurança, um dia...
Enfermiços, pela literatura, temos muitos: Eça e Nobre, para não irmos mais longe. Mas considero Marcel Proust um bom exemplo de fragilidade e hipocondria, simultâneas, confirmado e bem documentado no livro Proust connu et inconnu, de Gautier-Vignal (Robert Laffont, 1976). Mas esta obra, interessante, tem um alcance mais vasto, para além de falar das manias e fobias do escritor francês.
Proust tinha a convicção arreigada de que os grandes deste mundo não poderiam ser de temperamento nervoso - assim nos diz Gautier-Vignal. Acrescentando: " De uma forma geral, no coração dos homens há 72 batimentos por minuto. Mas Napoleão tinha apenas 40 pulsações, nesse mesmo espaço de tempo, e sabe-se que podia dormir um quarto de hora, mesmo em circunstâncias desfavoráveis, em campanha."
O que se pode chamar um homem sereno e tranquilo, para que conste...

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Miscelânea, a propósito de Proust


As cartas de leitores ao Director, no TLS, têm-se multiplicado, ultimamente, a propósito da recente tradução do título, para inglês, de Du Côté de chez Swann, de Marcel Proust (1871-1922). Cada um dá a sua sentença e alvitre: de To Swann's Way até Toward's Swann's Place, passando pelo sintético Over at Swann's, entre muitos outros. Neste aspecto, tenho dificuldade em tomar partido...
Como por vezes me divido, também, perante uma obra (de arte?) extravagante, cujas qualidades estéticas se me não impõe, de imediato, ou me surpreendo perante os preços exorbitantes que algumas telas, de pintores conhecidos, atingem em leilões, e vou compreendendo inteiramente que alguém, criterioso nos seus juízos, se aconselhe com especialistas sobre assuntos que não domina, antes de tomar posição.

Ao que parece, assim acontecia com Proust, como nos diz Gautier-Vignal, no seu livro Proust connu et inconnu, no que à Música clássica dizia respeito. O escritor francês procurava, quase sempre, a opinião avisada de Reynaldo Hahn sobre compositores contemporâneos, sobretudo.
Não admira, por isso, que tivessem frequentes contactos pessoais e até trocassem correspondência. O que verdadeiramente me surpreende é que, num leilão recente em Paris, um bilhete-carta de Marcel Proust para Reynaldo Hahn, datado de Março de 1896, essa missiva tenha sido arrematada pela astronómica quantia de 8.125,00 euros. Será mesmo um valor justo, ou haverá pessoas que não sabem como gastar o seu dinheiro excessivo?

agradecimentos cordiais a H. N..

terça-feira, 8 de maio de 2018

História e ficção


Ainda não consegui reconciliar-me com a ficção. Tenho andado pelo ensaio, pelos livros de crónicas,  história, poesia. E ando a ganhar balanço para tentar, pela enésima vez, ler o À la recherche..., de Proust, na tradução de Mário Quintana, da Livros do Brasil, em sete volumes. Chegarei lá?
Entretanto, e de empréstimo, vou a meio de Um herói português - Henrique Paiva Couceiro (2006), de Vasco Pulido Valente. O autor, seria escusado dizê-lo, tem uma prosa apetecível. De bom ritmo, frase curta e sugestiva, português escorreito. Pena o livro não ter um glossário sobre termos africanos.
Convém lembrar que VPV colaborou no guião ou argumento de vários filmes portugueses: O Cerco (1970), Aqui d'El Rei (1992) e O Delfim (2002). O que talvez explique a sua tentação de ficcionista.
Daí, possivelmente, um episódio (pg. 14) picaresco, narrado por Pulido Valente, em que Paiva Couceiro terá disparado 5 tiros, no Chiado, contra um tal Luis León de la Torre Faria, só porque esse indivíduo o tivera roçado no ombro e lhe dirigira uma frase injuriosa.
Ao que parece, no entanto, a história real teria sido ligeiramente diferente. O Luís León dera um ligeiro encontrão na irmã, Carolina, de Paiva Couceiro e este, então com 19 anos, dera 2 ou 3 murros no atrevido, e não 5 tiros... Por isto foi julgado em conselho guerra e condenado a 2 anos de prisão.
Que lhe foram comutados e abreviados, pouco depois, por decisão superior.
De qualquer forma, não convém baralhar história com ficção.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Curiosidades 57


É sabido que Fernando Pessoa gostava de escrever de pé, preferencialmente, sobre uma escrivaninha alta. O que eu não sabia é que Balzac preferia escrever deitado, na sua cama; aliás, como Proust.
Entretanto, Edmond Rostand optava por reclinar-se na sua banheira, para dedicar-se à escrita. E Colette não dispensava o papel azul para melhor efabular. Mas, pela fotografia, devia escrever sentada, prosaicamente...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Curiosidades 40


Já aqui falámos, em tempos (Pinacoteca Pessoal 51, de 25/5/2013), do pintor veneziano Vittore Carpaccio (1460?-1525?). Mal amado, por uns, omitido por outros dos índices das histórias de Arte, tal como o divino poeta Francisco de Aldana é esquecido, por vezes, nas histórias da literatura espanhola, Carpaccio tem, no entanto, um pequeno grupo de grandes e fiéis admiradores, onde se contava, entre outros, o nome de Marcel Proust, um incondicional das suas pinturas.
Quis o destino, porém, que o seu apelido (Carpaccio) mais se difundisse para denominar, gastronomicamente, as finas fatias de carne que, assim são cortadas, para serem servidas frias, normalmente. O prato, em si, terá tido origem, em 1950, no Harry's Bar, de Veneza, para servir de dieta à condessa Amalia Mocenigo. E, porque, sendo a carne mal passada, o seu tom rubro lembrava o vermelho veneziano tão característico da pintura de Vittore Carpaccio.
E porque saiu, há pouco tempo, um livro intitulado Ciao, Carpaccio, de Jan Morris, sobre a arte do Pintor veneziano, acrescente-se mais uma curiosidade, referida por Christopher Stace, no penúltimo TLS (nº 5840). Ciao, fórmula italiana globalizada, hoje, de despedida, tem origem na expressão veneziana de cortesia: Sciao vostro! Que significa - Vosso servo! - em português.
E aqui deixo, para remate do poste, a imagem de uma pintura de Vittore Carpaccio, de que gosto muito, e que se intitula: "Pesca na Laguna".


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O regresso da "madalena" de Proust


Quando saí do restaurante à beira da estrada, seriam aí umas 13h50, lembrei-me de contar tudo isto mas, na altura e para melhor me situar, teria de citar a "Toada de Portalegre", de José Régio, pareceu-me pseudo-erudito demais, e desisti da ideia de o narrar, aqui no Arpose. Até que, ao entrar em casa, disse para comigo: tens toda a tarde, para pôr isto por escrito, ó Alberto! Não te chega?!

Das memórias sensoriais, talvez a das imagens e do olhar seja a mais fiel e longeva. Da táctil, alguma coisa nos fica, de áspero ou macio, ao menos, bem como da auditiva, embora se torne bem difícil trazer à recordação uma voz de alguém que já não ouvimos há muito, porque desaparecida. Mas eu diria que a memória dos cheiros e sabores é ainda mais caprichosa, por ser imaterial e evanescente.

Quando a travessa do entrecosto grelhado me chegou à mesa, estava eu a acabar de ler, no TLS, um artigo em que se falava do "mercantilismo", palavra que, criada no século XIX por um historiador, é das poucas que a linguagem corrente, os economistas e os políticos adoptaram; até porque estes dois profissionais raramente aproveitam as lições da História - e têm-se visto os resultados...

Pois do lado direito da travessa, que me trouxeram nesse restaurante à beira da estrada, brilhavam e distinguiam-se, amarelinhas de dourado e apetitosas, as batatas fritas do acompanhamento. Assim irresistíveis, peguei em duas delas com os dedos, antes de me servir, e levei-as à boca. Crocantes e muito bem fritas, o seu sabor fez-me recuar até ao longínquo Verão de 1963.

Nesse Agosto já distante, quase diariamente, quando eu desembarcava na estação de comboios de Bona, vindo de Witterschlick, creio que por volta das 17h30, ao sair, numa esquina e em direcção à Tillmannhaus, não deixava de comprar um pequeno pacotinho de batatas, fritas na altura e à vista de quem passava. Que traziam um minúsculo garfo de plástico e que custavam, julgo eu, meio marco alemão.

Essas batatas fritas, e as de hoje, pareceram-me gémeas, na memória do sabor. Inesperadamente, se replicaram no tempo, por um feliz acaso.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Desabafo


Como em tudo na vida, ou acompanhamos alegre, caridosa, gentil e  servilmente, ou elevamos o tom. Embora nem todos nos comprendam ou perdoem, se escolhermos esta última opção. Em desespero de causa, há sempre o questionário de Proust que, creio, ainda não foi ultrapassado e será sempre uma alternativa digna.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Memória (81)


"...Por vezes o oceano ocupava quase por completo toda a minha janela, acrescentado como era por uma tira de céu limitado unicamente por uma linha que era do mesmo azul que o do mar mas que, por isso mesmo, eu julgava ser mar ainda, e que não devia a sua tonalidade senão a um efeito de reflexão. ..."

O texto transcrito, acima, é retirado de À l'ombre des jeunes filles en fleurs, de Marcel Proust (1871-1922) cujo aniversário do nascimento passa hoje.
No mesmo dia, mas 41 anos antes, tinha nascido o pintor Camille Pissarro (1830-1903), um dos criadores do Impressionismo. E que tem a particularidade, pelo lado do pai, de ter ascendência portuguesa.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Grafologia, caligrafias e outras considerações avulsas


Há vidas que são uma única e só hesitação. Outras, que se pulverizam em fragmentos inúteis e se perdem em pequenos nadas, sem fim à vista. Outras, ainda, de uma coerência a toda a prova, que parecem uma recta perfeita, em direcção ao infinito. Numa pulsão que ignora os obstáculos e os empecilhos.
Parece que, quem tiver acesso a um poema manuscrito de Keats, poderá ter a impressão de que os versos teriam sido escritos na véspera, tal a beleza caligráfica e a linearidade fresca e limpa da escrita do poeta inglês. Sabe-se quanto a escrita (pequeníssima) de Agustina é críptica e difícil de ler - era o Marido que passava, à máquina, os manuscritos. A de Vergílio Ferreira era poupada, ocupando todo o espaço das folhas de papel. Proust (ver imagem) era muito desarrumado a escrever.
E, ao que dizem, Hitler raramente escrevia à mão (até o testamento foi dactilografado), tentando decerto evitar futuras análises grafológicas à sua caligrafia.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Óscar Lopes e o questionário de Proust


No já recuado, por várias razões, ano de 1975, Óscar Lopes (1917) prontificou-se a responder ao chamado Questionário de Proust. Das perguntas e respostas escritas, escolhi algumas de que particularmente gostei.
Aqui vão:
Que cor prefere?
Não posso isolar as cores das coisas. Só em olhos, há três ou quatro matrizes, ou mesclas, pelo menos, que me encantam. Apenas consigo dizer, em poucas palavras, que o azul-celeste me pacifica.
Poetas preferidos?
O da Odisseia, Horácio, Villon, Verlaine, Éluard; em português, Pessanha, Pessoa, Drummond de Andrade, Melo Neto, Eugénio de Andrade.
O dom natural que mais gostaria de possuir?
Aquele agudo senso do real (talvez se possa dizer, simplesmente, inteligência) sem o qual a virtude e a sensibilidade nada são, porque por nada respondem.

domingo, 9 de setembro de 2012

As escolhas de Proust


Na página 73 de "Como Proust pode mudar a sua vida" (livro de que falei recentemente), de Alain de Botton, vem referida uma resposta do romancista francês, a um inquérito que lhe fizeram, sobre as suas 8 pinturas preferidas, no Museu do Louvre. Para a época, parece-me uma escolha que denota um gosto de cariz conservador.
A resposta é, também, hesitante e, muito embora haja uma opção por 6 pintores, já a escolha das obras é algo vacilante. Mas aqui vão as escolhas de Marcel Proust:
1.  De Watteau, "L'Indifferant" ou "L'Embarquement";
2. Três quadros de Chardin: um auto-retrato, o retrato de sua mulher e "Nature Morte";
3. "Olympia" de Manet;
4. Um Renoir, ou talvez "La Barque du Dante" ou "La Cathédrale de Chartres", de Corot;
5. "Le Printemps" de Millet.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Recomendado (sob condições) : trinta - Alain de Botton


É um livro leve, mas não ligeiro - no sentido de literatura light -, este "Como Proust pode mudar a sua vida", de Alain de Botton (1969). Comparável ao que eu chamo um "vinho de varanda", um rosé agradável para beberricar no Verão. Mas que não levaríamos para o solene interior de uma mesa, com convidados, mesmo que fossem amigos. E a refeição fosse ligeira.
É um livro para ler em férias, na praia, porque não obriga a grande concentração, embora esteja juncado de citações proustianas e, desagradavelmente, as não destaque (faltam as aspas, ou o itálico) nem as localize, como seria devido e de norma. A Dom Quixote teve também o mau gosto de imprimir, logo na capa (canto superior esquerdo): "«Deslumbrante» John Updike", como a recomendar - fez mal, e é saloio. Por outro lado, há ilustrações, no interior da obra, perfeitamente inúteis e despropositadas. Apelidam Alain Botton de filósofo, o que me parece uma enorme falta de rigor. É por isso um livro tocado por imperfeições várias.
Dito isto, com intuitos de advertência e recomendação condicionada, para ser justo, terei também de dizer que é um livro que se lê com muito agrado, e sem sacrifício, pelo gosto de ler. Desliza fluidamente a nossos olhos, provoca associações interessantes. E, além disso, para quem não consegue (como eu) ler "À la recherche du temps perdu", familiariza-nos com a obra de Marcel Proust. Publicado em 2009, "Como Proust pode mudar a sua vida", de Alain de Botton, é um livro de férias, para ler na praia.
Não lhe devemos pedir muito, mas dá-nos alguma coisa: pelo menos, o prazer de uma leitura leve. Também pode acompanhar um "rosé", num fim de dia calmoso, numa esplanada visitada pela ligeira brisa marítima. Livro e "rosé" estão bem, um para o outro...

domingo, 8 de abril de 2012

As surpresas da memória no domingo de Páscoa


Não foram as madalenas de Proust, que o levaram à "procura do tempo perdido", nem por ser domingo de Páscoa me veio à memória o Pão-de-ló de Margaride que, no dia de hoje, se pode comprar em qualquer confeitaria de Guimarães, que se preze de o ser. Nem sequer me lembrei dos pequenos bolos arredondados recobertos a linhas curvas sinuosas de calda de açúcar, esbranquiçados por fora, amarelinhos e tenros por dentro. Não. Ao pequeno almoço, o que me veio à lembrança foi o paladar das cavacas duras e escuras por dentro, que eu detestava, mas que havia sempre na mesa pascal. Mas pelo lado mais simpático, porque eram feitas com imensas raspas de casca de limão. E foi esse o sabor que me veio à boca da memória, ao tomar o pequeno almoço. Como essa memória atravessou tantos anos e quilómetros, não o sei dizer.
Eu tinha, durante a noite, sonhado com a casa de Eça, em França. Acompanhava-me, logicamente, o meu amigo A. G. de S., estudioso da sua obra. Mas a tudo se acrescentou uma sardanisca (lagartixa) minhota que mais parecia o sapo de Lucas Cranach, que postei há dias no Arpose - foi uma transposição, decerto. Depois, no sonho, aparecia também alguém (feminino) que lavava louça na cozinha da casa francesa de Eça de Queiroz. Mas quanto a cavacas, nada. Por isso não havia antecedentes, para esse sabor que me veio à boca. Talvez a geleia de limão sobre a mesa, que HMJ fez, magnífica... Ou, então, o cesto de vime repleto de limões, que nos ofereceram, e que estava em cima do aparador. Talvez, por aí, me tivessem chegado as detestadas e duras cavacas pascais e vimaranenses, à memória, nesta manhã de Páscoa. Devo estar na pista certa...
Para o almoço, o tradicional anho, que já rescende no forno. Mas ainda tenho de escolher o vinho, porque ontem estava indeciso. Sinto-me inclinado para um Douro, talvez o "Quinta de la Rosa", sempre garantido como boa escolha para assados. E, para sobremesa, à falta do Pão-de-ló de Margaride, ainda há um resto do de Alfeizerão, gentilmente trazido e oferecido pelo H. N., sempre generoso. Só falta o compasso e o vinho fino para o dia ser completo. As cavacas de Guimarães, dispenso-as perfeitamente.

domingo, 13 de novembro de 2011

Proust e o prazer da leitura


Gostando eu muito de ler, houve por vezes, em mim, o sentimento de culpa por não ter conseguido acabar algumas obras que tinha, e tenho na minha biblioteca. Estão neste caso "A Guerra e Paz" de Tostoi, "A Morte de Vergílio" de Herman Broch, e "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust (1871-1922).
Repeguei, recentemente, num pequeno livro deste escritor francês, a que, em português, deram o título de "O Prazer da Leitura", muito embora, no original se intitule "Journées de Lecture", traduzido para a Teorema, por Magda Bigotte de Figueiredo.
Percebi então porque, de Proust e da sua obra-prima, só tinha sido capaz de ler "Du côté de chez Swann". As descrições são infinitas, barrocas, os detalhes milimétricos e, páginas e páginas decorrem, até que se encontre um momento de acção ou movimento vital. Em Proust quase parece que tudo está parado e imóvel para que o olhar analise cada objecto, cada móvel, cada interior e os descreva, parcimoniosamente, por palavras precisas. Através das sensações que vão despertando.
Mas este texto ("Journées de Lecture") merece ser lido ou, pelo menos, reter dele alguns excertos que nos dão uma exacta descrição pessoal do gosto pela leitura. Aqui vão:
"...E por vezes em casa, na minha cama, muito depois do jantar, as últimas horas do serão abrigavam também a minha leitura, mas isso, apenas nos dias em que tinha chegado aos últimos capítulos de um livro, em que não faltava muito para chegar ao fim. Nessas alturas, arriscando-me a ser castigado se fosse descoberto e à insónia que, terminado o livro, se iria talvez prolongar durante toda a noite, assim que meus pais se deitavam eu voltava a acender a minha vela; (...) Então, era isto? este livro, não passava disto? Aqueles seres a quem havíamos dedicado mais atenção e ternura do que às pessoas da vida, nem sempre ousando confessar a que ponto os amávamos, mesmo quando os nossos pais nos encontravam a ler e pareciam sorrir da nossa emoção, fechando o livro, com uma indiferença simulada ou um aborrecimento fingido; esses seres por quem havíamos tremido e soluçado, não voltaríamos a vê-los nunca mais, não viríamos a saber mais nada deles. ..."