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terça-feira, 28 de abril de 2026

Simbolismos

 

No meio improvável de um livrinho, fui encontrar, esquecido e desencadernado um pequeno caderno de papel almaço, azulado, manuscrito, com doze folhas. Preenchido, em sequência alfabética, ilustra, simbólicamente, expressões e sentimentos, através do significado de plantas, flores, frutos, árvores, etc.
Divertimento doméstico e pueril, serviria de entretém inocente a jovens de ambos os sexos - creio. Pela sua curiosidade original, aqui vamos deixar algumas equivalências e/ou significados:

Azevinho - Providencia
Banana - Molleza
Cardo - Tormento
Casca de româ - Modestia
Cravo - Estima
Faia - Prosperidade
Favas - Demandas
Hortelã - Amor ardente
Mostarda - Furor, zanga
Nardo - Devoção
Pervinca - Recordações suaves
Rosa branca - Silencio, affeição
Silva - Inveja
Tangerina - Desdem
Verbena - Encanto
Violetas - Quero ficar solteira.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Pelo centenário de Eugénio de Andrade (1923-2005)

 

Passam hoje, precisamente, cem anos  sobre o nascimento de Eugénio de Andrade na Póvoa da Atalaia.
Poeta maior da nossa literatura, tive o gosto de o conhecer pessoalmente e com ele trocar correspondência. A ele devo o começar a ter lido Guimarães Rosa, romancista que ele me recomendou por volta de 1968. Mas também o facto de começar a ter mais confiança nos poemas que ia escrevendo.




Esta carta inédita, que publico hoje no Arpose, e que data de 2 de Maio de 1967, refere um pequeno poema de Eugénio de Andrade, que veio a ter um outro título (Nocturno da Água) quando publicado em livro (Ostinato Rigore), depois de ter saído inicialmente em revista. Aqui o reproduzimos na versão final.

Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.

Deixo este meu pequeno contributo em memória de Eugénio de Andrade, pela passagem do seu centenário.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Bibliofilia 201



Qualquer manuscrito, de índole literária, pode ser uma fonte inesgotável de investigação e descoberta. Tratando-se de um autógrafo o interesse e o valor aumentam consideravelmente. Não possuo, na minha biblioteca, muitos manuscritos, sendo que dois deles incluem poemas de Cruz e Silva (1731-1799), poeta de minha grande estima, que faleceu no Brasil. Um destes últimos, bem encadernado, é O Hyssope, numa versão provavelmente de finais do século XVIII, que terá pertencido ao estudioso F. M. de Sousa Viterbo (1845-1910). O segundo (em imagens), desencadernado, regista 22 odes de Elpino Nonacriense, pseudónimo do co-fundador da Arcádia Lusitana ou Olissiponense.
Inexplicavelmente, este manuscrito tem a página de guarda, em parte, riscada...




No que diz respeito às odes* de Cruz e Silva, este manuscrito não as abrange todas, mas tem a particularidade de incluir, ao que me parece, uma inédita (a 22ª na numeração), que está intitulada Pela aclamação dos Reis D. Maria 1ª e D. Pedro 3º.  A cerimónia terá tido lugar a 13 de Maio de 1777 e, por isso, esta ode inédita (?) terá sido escrita por essa altura para celebrar o faustoso acontecimento régio.


Vou transcrever o seu início:
1
Das virtudes guiados
Subi ao alto Trono, ó Reis augustos.
Nem sempre equivocos Fados
Se nos hão de mostrar surdos e injustos:
Abrem vasto Thezouro,
E nos mandad por vós a idade d'ouro.
...

* Para melhor esclarecimento sobre as odes do poeta Cruz e Silva, dá-se conta do seu número  nas várias edições impressas, cronologicamente:
- 1801 Imprensa da Universidade de Coimbra, inclui 34 odes pindáricas. Edição póstuma e primeira.
- 1815 Lisboa, Na Impressão Régia, contém 16 odes pindáricas (Que contém a primeira Parte das Odes Pindaricas.). Tomo V das Poesias de Antonio Diniz da Cruz e Silva...
- 1817 Lisboa, Na Impressão Régia, insere 30 odes (Que contém a segunda Parte das Odes Pindaricas.). Tomo VI das Poesias de Antonio Diniz da Cruz e Silva...
- 1820 Londres, Na Officina de T. C. Hansard, Peterboro'_Court, Fleet Street. Esta impressão, com 34 odes, segue maioritariamente a primeira edição conimbricense, de 1801, e "he conforme com um Manuscripto que não differe essencialmente da Edição de Coimbra de 1801, senão em alguns poucos versos e palavras, que..." segundo advertência dos editores, de 3 de Março de 1820.

Nota final: as iniciais (F. M. T. de A. M.), que surgem nos volumes (6) das Poesias de Cuz e Silva, editados inicialmente pela Typografia Lacerdina e depois pela Impressão Regia, referem-se a Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato (1777-1838), que dirigiu a organização e publicação dos poemas.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Arquivo morto


Nem todas as histórias infantis são para crianças. Lembro-me de, em tenros anos, ter lido algumas que me deixaram uma desagradável impressão. Creio que uma delas tinha por título A Princesa dos sapatos de ferro, ou qualquer coisa assim parecida... Não me lembro, porém, do nome do autor. Mas recordo que o conto tinha ilustrações de Augusto Gomes.
Este pequeno trecho de Ilse Losa (1913-2006) foi mandado para o extinto JL&L, em 1989, através do meu amigo A. de A. M., acompanhado de um post-it, a ele endereçado, como se pode ver na imagem. Não sei se chegou a ser publicado, ou se está inédito, mas também me parece que é uma história para adultos e menos para crianças.



com agradecimentos a A. de A. M..

terça-feira, 13 de agosto de 2019

De uma miscelânea manuscrita da B. G. U. C.


Não sendo normalmente de grande qualidade, sobra a uma boa parte da poesia portuguesa dos séculos XVII e XVIII uma certa irreverência, humor, fresca licenciosidade e até uma libertina ausência de preconceitos para tratar os mais insólitos assuntos. Nalguns aspectos a liberdade de expressão aproxima-se da dos cancioneiros medievais, em particular das cantigas de escárnio e maldizer.
Das horas proveitosas que passei na BGUC, consultei 3 ou 4 miscelâneas manuscritas do século XVIII. Tomei apontamentos, fiz algumas transcrições, embora muitas caligrafias sejam de difícil decifração. Em suma, pessoalmente, ocupei bem o tempo. E sorri, algumas vezes, do que li. Da miscelânea nº 1639 (pg. 45), intitulada "Collecção/ De/ Peças Poéticas/ De Bom Gôsto", com marca de posse manuscrita em nome de Miguel Justino de Araújo Gomes Álvares, vou transcrever (sic), de um autor anónimo, um soneto brejeiro e engraçado:

Senhor Doutor, que tem esta rapariga
Que não é como dantes? Tanto andeja,
Cóspe, vomita, mil coisas deseja,
Cresce-lhe o panno, incha-lhe a barriga:

Parou-lhe de repente a copia antiga
Do sangue, que por baixo se despeja;
Faz diligencia que ninguém a veja
Até se esconde da mayor amiga:

Será isto porventura do Demonio
Algum ardil, alguma trapalhada?
Se assim é vou leva-la a Santo Antonio.

«Não, Senhor, a Menina não tem nada,
Quiz effeitos provar do Matrimonio,
Para não estranhar sendo casada.» *


* apesar de imperfeito, creio que o soneto estava inédito.

domingo, 15 de abril de 2018

Osmose 92


Ando à volta de um manuscrito de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), que adquiri no ano passado. Não será um autógrafo, mas é com certeza um documento do século XVIII. O meu zelo e cuidado vai todo no sentido de ser exacto e essencial, no poste que fizer e, por isso, não será para amanhã que ele irá ser publicado no Arpose. Por outro lado, o Poeta-juiz é dos poucos vates portugueses de minha estimação fiel, há muito tempo. Raro eu descia as Escadinhas do Duque (Lisboa), sem me lembrar dele, que lá morou, segundo nos informa Júlio Castilho. Depois, sempre considerei que é um poeta português subavaliadíssimo. Tem, por exemplo, umas Metamorfoses, escritas no Brasil, muito interessantes, para além de 4 ou 5 sonetos, dos muitos que fez, que vale a pena ler. Da ignorância sobre a sua obra, basta falar de alguns poemas que António José Saraiva, descuidadosamente, atribuiu a Garção, na edição dos Clássicos Sá da Costa...
É um poste, se vier a sair, que - prevejo - dificilmente terá comentários de visitantes do Blogue. A inter-acção, entre nós, é o que é. Mas isso, pouco me preocupa. Interessa-me sobretudo pôr em ordem algumas ideias que tenho sobre Elpino Nonacriense, o grande dinamizador da Arcádia Lusitana. E que, na sua vertente de magistrado, no Brasil, teve de julgar alguns amigos, também poetas, implicados na Inconfidência Mineira. Importa-me, também, tentar perceber melhor o Homem, para além do poeta, que estimo.

domingo, 21 de maio de 2017

Bibliofilia 153


Os manuscritos têm quase sempre o seu lado interessante e curioso, quando não de mistério insolúvel. Não sendo eu especialista na matéria, os poucos que tenho, na minha biblioteca, proporcionaram-me, no entanto, horas aprazíveis de concentração e entretenimento, depois de os adquirir. Na decifração dos textos e diferenças em relação aos eventuais originais (impressos em livro), na tentativa (por vezes, inglória) de identificação dos autores, na interpretação de pequenas notas também escritas à mão, quando existem, nas margens de páginas envelhecidas e devotadas à perpetuação no tempo, feitas por escribas dedicados e anónimos.

Este manuscrito de 36 páginas inumeradas, que ora se apresenta, tê-lo-ei comprado em finais do século XX, num alfarrabista de Lisboa, mas já não me recordo de quanto paguei por ele. Por várias circunstâncias e indícios, sou levado a crer que deve ter sido escrito na segunda metade do século XVIII, sem grande margem de erro. Desencadernado, provavelmente terá integrado uma miscelânea mais volumosa. Em mediocres condições de conservação, apesar do papel ter marca de água e ser encorpado, ao seu corpo íntegro deverão faltar, pelo menos, as duas folhas iniciais.



O conjunto manuscrito contém obras poéticas (vários sonetos, por exemplo) do vimaranense António Lobo de Carvalho (1730?-1787), poeta boémio e fescenino já referido aqui no Arpose (postes de 14/7/2010 e de 26/10/2011), conhecido pela alcunha de Lobo da Madragoa, bem como quintilhas e outros poemas de Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811). O teor das composições é, maioritariamente, satírico. De algumas outras poesias não consegui identificar os seus autores, e é possível que se trate de escritores menores e/ou ignorados, que não chegaram a ter as suas poesias publicadas. Dá-se, finalmente, a transcrição de um soneto (talvez inédito) dirigido a Alexo Botelho, cujo autor desconheço (A. Lobo de Carvalho?), actualizando a sua ortografia:

Ginja peralta falador Botelho
Potro infeliz que segues as belezas
Não te embasbaquem ainda as gentilezas
Porque amor não faz ninho em tronco velho.

Não de escritos dá-lhe um bom conselho
Não têm preço com rugas as finezas
E se este que te dou néscio dispensas
Tira a peruca, vê-te a um espelho.

Verás polvilhada uma caveira
Em que os ossos nos mostram claramente
Entre caruncho uma alma galhofeira.

Casquilho de um vestido unicamente
Ai se o Manique sabe desta asneira
Prega-te no castelo certamente.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Miscelânea bibliográfica e poético-canora


Quando, em Dezembro de 1963, a Portugália fez sair, na sua prestigiada colecção Poetas de Hoje, os Poemas de Edmundo de Bettencourt (1889-1973), o poeta madeirense não seria conhecido de muitos leitores portugueses. O seu nome, um pouco a exemplo recente de Bob Dylan, era mais reconhecido como cantor, nesse particular, de fados de Coimbra. As Saudades de Coimbra, de sua autoria, e Samaritana eram gravações de êxitos que lhe estavam associados.
Mas o elogioso prefácio (Relance sobre a poesia de Edmundo de Bettencourt), de Herberto Helder, com um apologético apoio e explicação dos singulares Poemas Surdos, contribuiram para que o livro fosse procurado e se esgotasse. A insularidade de ambos os poetas talvez explique esta aproximação, à partida, pouco provável.


Afora poesias avulsas, esparsas e intermédias publicadas em revistas, Edmundo de Bettencourt fora colaborador (e, depois dissidente, com Torga e Branquinho da Fonseca) da revista Presença e publicara apenas e sob a  chancela deste movimento, 33 anos antes, um único livro de poemas intitulado O Momento e a Legenda (1930). O meu exemplar, adquirido não há muito tempo num alfarrabista de Lisboa, fora dedicado a Mário Coutinho (1899?-1984) e incluia, solto, também um poema passado à máquina, assinado, que teria sido publicado na Revista de Portugal, segundo indicação manuscrita de Edmundo de Bettencourt.


Não ficaria de bem comigo se não juntasse, a este poste, uma das gravações, antigas, do poeta-cantor de Coimbra, pese embora a deficiente gravação do fado conimbricense que, para mim, é um dos mais bonitos que conheço. Talvez valha a pena informar que o fado "Samaritana", em causa, no período do Estado Novo, era proibido, pelo tema provavelmente beliscar a moral católica. Pude, no entanto, ouvi-lo, na República Baco, clandestinamente e entre amigos, no início dos anos 60, em Coimbra. E aqui fica ele, pela voz de Edmundo de Bettencourt. Que era também poeta. Como o Bob Dylan.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Manuscrito de Marcello Caetano


Cerca de um ano e meio (13/2/1967) antes de suceder a Salazar, como Presidente do Conselho, Marcello Caetano (1906-1980) agradeceu a Franz-Paul de Almeida Langhans (1908-1973?) - de quem já aqui falámos (4/12/2015), a propósito do seu ex-libris - a oferta do 1º fascículo da obra "Armorial do Ultramar Português". É este cartão manuscrito que se mostra em imagens.


domingo, 22 de novembro de 2015

Herberto / Eugénio


É timbre das corporações, sejam elas profissionais ou de interesses, uma certa omertà que, tacitamente, inibe os seus membros de revelar métodos, de criticar outros membros dessa mesma sociedade, denunciando-os ou referindo as suas fraquezas. Protegendo-os assim de perigos exteriores.
Herberto Helder completaria amanhã (23/11) 85 anos, não fosse ter falecido a 23 de Março passado. Não é demais lembrar a notável evolução ( na minha opinião, positiva ) que se processou nos seus últimos livros publicados, e que engrandeceu muito a sua obra poética. Coisa rara, na velhice dos poetas.
Mas além de notável artífice, nesta carta manuscrita que dirigiu a Eugénio de Andrade, pelo Natal do ano 2000, revela um apurado sentido crítico, sem papas na língua, ao abordar a obra poética de alguns confrades, de forma desapiedada, mas muito certeira. Coisa, também, muito rara nos tempos que correm.

Nota: a carta manuscrita de Herberto Helder, para Eugénio de Andrade, não é inédita. Foi publicada no "Jornal do Fundão" em 17 de Junho de 2005. Reproduzimo-la, em memória dos 2 grandes poetas do século XX português. E para os relembrar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Hemingway, adolescente


Este pequeno bilhete de um Ernest Hemingway (1899-1961) adolescente, tem cem anos.
As mães guardam tudo, quase sempre, quase todas, daquilo que aos seus filhos se refere.
O pequeno manuscrito, conservado pela mãe (Grace) do escritor americano, é uma espécie de admissão de culpa e, também, um compromisso de se vir a portar melhor, no futuro. Foi escrito pouco antes de Hemingway completar 14 anos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Carta manuscrita de Carlos Malheiro Dias


Por amável deferência amiga de H. N., o Arpose tem oportunidade de publicar uma carta manuscrita do romancista português Carlos Malheiro Dias (1875-1941). Muito embora o teor da missiva não seja literário, mas meramente pessoal e da esfera privada, é uma curiosidade interessante que se saúda - e agradece ao possuidor.
Escrita da Granja, onde provavelmente o escritor passava as suas férias de Verão, data também do período em que Malheiro Dias foi chefe de gabinete do Ministro das Obras Públicas - daí o papel timbrado. A carta, remetida a Guilherme Correia Leite, limita-se a rechaçar, liminarmente, o facto - baseado num equívoco insólito - da existência de uma dívida antiga do escritor, para com um tio de Guilherme Leite.  
                    

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A Bíblia de Alba


Conhecida como Bíblia (da Casa) de Alba, ou também Bíblia de Arragel, tradução manuscrita com iluminuras, em castelhano, foi executada no séc. XV, pelo rabi Moisés Arragel, de Toledo, sob encomenda de D. Luis Gonzáles de Gusmán, mestre da ordem de Calatrava.
Esta obra prima vai integrar um exposição denominada "Biblias de Sefarad", que terá lugar na Biblioteca Nacional de Madrid, entre 27/2 e 13 de Maio de 2012.

À consideração e atenção, especialmente, de MR e JAD.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uso Pessoal 5

Obsv.: velhos apontamentos (1968) encontrados na mochila de um antigo ex-combatente, que o foi, à força.