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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Esboço matinal sobre a paisagem


Na luz coada e fresca da manhã, os telhados descem pousados, deslizantes para o rio, que mais parece uma planície metálica de gelo cinzento, espelhado para um céu nublado de gretas e sulcos luminosos. Duas pombas negras, sobre as telhas defronte, em ângulo recto, uma de Leste para Oeste, descendente, a outra, de Sul para Norte, horizontal nos seus passinhos miudos, acabam por cruzar-se. Como me vem, de longe, esse geométrico poema (Aldeia) de Manuel da Fonseca (1911-1993), que me faz lembrar um quadro agreste de Alvarez (1906-1942).

Nove casas
duas ruas
ao meio das ruas
um largo
no meio do largo
um poço de água fria. Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo que quando alguém grita para longe
um nome familiar,
se assustam pombos bravos
e acordam ecos
no descampado.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

De um prefácio de Manuel da Fonseca


O prefácio de Manuel da Fonseca (1911-1993) antecede o livro de contos "O Fogo e as Cinzas", na sua 9ª edição, de 1981. O escritor refere que o livro se publicou por insistência e ajuda de Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e José Cardoso Pires. E devido à procura minuciosa de Ângela, mulher de Carlos de Oliveira, pelos jornais, onde os contos tinham sido publicados anteriormente. Mas Manuel da Fonseca refere, também, nesse prefácio o cenário, real, deles. E alguns aspectos da sua criação e escrita. Segue:
"...As pessoas de quem escrevo são as que houve na minha vida. Gente de família ou conhecida. Nelas me fui descobrindo e sendo eu próprio as vidas que contei. É isso, eu. Até quando escutava a vida de algum desconhecido, logo descobria que esse desconhecido era dois ou três indivíduos que eu já conhecia um dos quais, com o tempo, começava a ser eu. Contar a vida dos outros é interrogar a nossa própria vida. Só o tempo depura. Ficção constrói-se com o que fica do passado. Revive-o. (...) No que diz respeito à acção, creio que, tal como todos os autores, tenho acumulado valioso material. Que só por si não chega. O que conheço é apenas um ponto de partida para a imaginação criar. Apenas a imaginação conforma e desenvolve e completa coerentemente os incríveis factos acontecidos na vida. Apenas ela lhes dá realidade. Creio ter lido, não recordo onde, que se é certo que a imaginação do autor é a vida da ficção, não é menos certo que a vida é o mais imaginoso dos autores. ..." 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não dá a bota com a perdigota, ou o irrealismo dos Altos Gabinetes


Do Plano Nacional de Leitura, pomposamente chamado, constam vários livros há muito esgotados.
Um deles, "O Fogo e as Cinzas", com contos de Manuel da Fonseca (1911-1993), é aconselhado para o Ensino Secundário. Nas livrarias, não há. A editora "está a pensar reeditá-lo..."
Como me comprometi a arranjar um exemplar para pessoa amiga, tive que "correr Seca e Meca", em Lisboa, até conseguir obter um (por sinal, em mau estado), num alfarrabista. Pelo menos, não foi caro: 4,00 euros.
Será que estes "Altos Gabinetes", que produzem bitates, não poderiam descer à terra e primeiro saber se havia livros ainda à venda? Ou, em caso negativo, não poderiam, previamente, combinar com a editora, que detém os direitos autorais, a reedição, a tempo?
Mas não, tudo isto se processa em puro autismo.