Na luz coada e fresca da manhã, os telhados descem pousados, deslizantes para o rio, que mais parece uma planície metálica de gelo cinzento, espelhado para um céu nublado de gretas e sulcos luminosos. Duas pombas negras, sobre as telhas defronte, em ângulo recto, uma de Leste para Oeste, descendente, a outra, de Sul para Norte, horizontal nos seus passinhos miudos, acabam por cruzar-se. Como me vem, de longe, esse geométrico poema (Aldeia) de Manuel da Fonseca (1911-1993), que me faz lembrar um quadro agreste de Alvarez (1906-1942).
Nove casas
duas ruas
ao meio das ruas
um largo
no meio do largo
um poço de água fria. Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo que quando alguém grita para longe
um nome familiar,
se assustam pombos bravos
e acordam ecos
no descampado.