Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Calma!


Tenho-me lembrado muito, últimamente, do primeiro livro do cronista e poeta Manuel António Pina (1943-2012), publicado no ano emblemático de 1974. Sobretudo, pelo título. Há algumas pessoas, poucas é certo, que andam muito nervosas. Por exemplo, o meu vizinho do andar direito que, pelo menos em tempos, fez uns trabalhitos de assessoria para um dos ministérios deste governo. Lá por casa, parecem andar em convulsão permanente, tantos são os gritos... Por outro lado, algumas eminências pardas da circunferência (fechada) da governação, desdobram-se em declarações televisivas e radiofónicas ameaçadoras quanto ao futuro. Parecem daquelas pitonisas, feias, das tragédias gregas. A todos esses, à beira de um ataque de nervos, lembro o título tranquilo de M. A. Pina: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde.
Serenem, almas sensíveis e mimosas!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A gula pelos "best-sellers"


A cândida alma de muitos leitores, um pouco acríticos, é sempre atraída pelas tabelas de best-sellers que jornais e revistas publicam, para melhor vender o seu produto. Assim se faz a fama (efémera) de um escritor e o sucesso (breve) de um livro. Um ano depois, na maioria dos casos, já ninguém se lembra deles, e os livros são  vendidos, em feiras de ocasião nas estações de Metro, com descontos substanciais, guilhotinados pelas Editoras, ou até vendidos a peso para comerciantes de papel velho. É a voragem deste nosso tempo.
Sobre o assunto, Manuel António Pina (1943-2012), numa entrevista, incluída em "Dito em Voz Alta" (Presença, 2007), tem palavras muito certeiras e irónicas. Seguem:
"O que hoje acontece é que também a literatura foi alcançada (e como poderia não ser?) pela gritaria mediática e mercantil, que permanentemente exige «produtos novos», o que, no caso da literatura, significa encontrar um génio novo ao virar da esquina. Daí não vem mal (nem bem) nenhum ao mundo. Os media usam e deitam rapidamente fora. Do mesmo modo os «fenómenos» de vendas. Não vejo mal nenhum em que um mau livro (o que quer que seja um mau livro) venda milhões. Vender livros é hoje um negócio como outro qualquer. A literatura é, porém, outra coisa. Os livros de mortalhas Zig-Zag são best-sellers há anos e não passam a ser literatura por causa disso..."

para H. N., por razões de princípio.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Quand il est mort le poète


Não é um Requiem, mas apenas uma nota para referir a morte do cronista e poeta Manuel António Pina (1943-2012), hoje. Assim, este Quand il est mort le poète, de Gilbert Bécaud.
Mas não posso deixar de referir que o mundo virtual do ciberespaço, às vezes, me parece um campo largo de necrofagia. Eu explico: embora a obra poética de Manuel António Pina não fosse das minhas preferidas, quando ele recebeu o Prémio Camões, em 2011, dediquei-lhe um poste ("Se não fossem os gostos, que seria do amarelo?", em 14/5/2011). Este poste esteve adormecido e raramente alguém o visitava. Pois, hoje, desde o início da tarde, 1 em cada 3 visitas (73 visitantes até agora, para ser exacto) veio ler esse poste, num voyeurisme frenético. Provavelmente, durante uma ou duas semanas vender-se-ão muitos livros do Poeta. Dentro de um mês, o mais certo, é que já quase ninguém fale dele. Os necrófagos terão ido para outro lado, em busca de outras novas emoções. Sic transit gloria mundi...

sábado, 14 de maio de 2011

Se não fossem os gostos, que seria do amarelo?


Os prémios habituam-nos, também, cada um por si, a um determinado perfil. Na galeria do Prémio Camões, couberam Torga, Eugénio, Sophia. E ainda: Melo Neto e Craveirinha - obras feitas, idades provectas. Não sendo um jovem, Manuel António Pina vai a caminho dos 68 anos, foi uma escolha inesperada, e ousada por parte do juri que atribuiu o prémio de 2011. Eu teria preferido Fernandes Jorge ou Gastão Cruz. Ou António Franco Alexandre. Não esquecendo que, apesar de tudo, ainda estão vivos: Ramos Rosa e Pedro Tamen. E percebo que tenha ficado de parte o maior: Herberto Helder - que sempre recusou prémios. São todos eles, talvez, demasiado discretos e Manuel António Pina expõe-se mais: feitios... Do Poeta premiado li os 3 primeiros livros e deu para ver que era uma voz original, mas que não fazia o meu gosto. Mas saúda-se sempre um prémio à Poesia. E aqui o faço, com um poema do seu primeiro livro (Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, 1974), com o título "Literatura":

Literatura incrível esta
que a si própria se escreve
Descobri o movimento perpétuo
mas como poeta não saí do mesmo sítio

Ociosidade de modo que és minha
- Sem ser este, o silêncio que
pude durou 3 quartos de hora
num quarto cheio de homens perguntando

Nessa altura (em 1965), eu estava
metido nisto até ao infinito
Agora trabalho um pouco de fora para fora
Com de vez em quando uma palavra demasiada