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domingo, 23 de abril de 2023

Bibliofilia 204



Nem sempre se guardam estes encartes, muitas vezes, e é pena. Servem, com textos apropriados, para apresentar exposições temporárias e, por isso, nem sempre se conservam, apesar da qualidade estética, gráfica, mas também, por vezes, lírica dos textos. Tenho mais dois, para além destes, com textos de Eugénio de Andrade (1923-2005), que era amigo de Júlio Resende (1917-2011). Sobre mostras do Pintor.



Este último, em imagem, era um livrinho da Fundação do Mestre, com vários desenhos a esferográfica do Pintor, e dedicatória datada de Novembro de 2007.

P. S.: De Resende entre a Angústia e a Esperança, de Eugénio de Andrade, passo a citar:

Em páginas de extrema juventude, Paul Klee recusava-se a acreditar na expulsão do paraíso. Vários anos depois ainda se interrogava: "Posso então morrer, eu, cristal?" Recentemente outro pintor, Manolo Millares, afirmou: "El quadro se parió así porque está hecho en un tiempo feo... Aqui no hay nada más que basura..." Entre o tempo adolescente de Klee e o tempo apodrecido de Millares, muita água correu. Klee ainda viveu o suficiente para conhecer a expulsão do paraíso: a bestialidade nazi se encarregaria disso; quanto à certeza de que também ele, cristal, era mortal, as suas últimas obras a ninguém deixam  dúvidas de a ter adquirido. O que Klee já não viu, viu-o Millares: um tempo em que a confiança dos homens foi reduzida a lixo.
Todos os paraísos tiveram sempre a dimensão do homem, e os deuses que lá habitaram nunca foram mais que o reflexo da sua face branca, da sua face negra. A história dos deuses é o espelho da nossa aflição, da nossa esperança. ...
(São Lázaro, Outono, 1965)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

À boca de um tempo feio


A Primavera, em grande parte do Brasil, deve estar visível e pujante, porque os migrantes jacarandás, no Rossio, já começaram a florir, timidamente, por entre a filigrana verde da intensa ramaria - não perderam a memória, que os faz florir por duas vezes, todos os anos, em Portugal. Abençoados sejam, na sua alegria!
Foi esta a minha visão mais feliz do dia, hoje. Que o resto é usura, sujeição, mediocridade, secura de pele e alma, pequenez, horizontes cerrados. Um "tempo feo", de que falava, a propósito de um quadro seu, o pintor espanhol Manolo Millares.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Herbert Read, sobre Arte


No seu livro Contemporary British Art (Penguin Books, 1951), Herbert Read refere: "Toda a história de arte demonstra com notável clareza, que as emoções particulares e a expressão própria de um período procuram sempre encontrar as suas formas específicas. Parecenças existem entre as formas de fases semelhantes da história, mas a história nunca se repete exactamente, assim como as formas de expressão artística embora retenham afinidades, nunca são idênticas. ..."
No mesmo sentido, o pintor espanhol Manolo Millares (1926-1972) comentava assim, um seu quadro, feito durante o franquismo: "O quadro foi parido assim, porque foi feito num tempo feio."

sábado, 23 de outubro de 2010

Sobre a obscuridade da poesia (moderna) : 2 achegas


1. No verbete sobre Obscuridade da poesia moderna em contraponto à clareza da poesia neo-clássica, William Van O'Connor refere o crítico F. W. Duppee: "...Duppee acrescenta que este estilo é a forma que o poeta tem de exprimir um julgamento negativo sobre as complexidades da vida moderna, sobre a relativa inacessibilidade das ciências, sobre as múltiplas crenças que somos obrigados a descriminar, sobre a separação da arte da vida do dia-a-dia, e assim por diante. Os mitos privados do poeta, a alegoria e a ambiguidade são o modo de dizer não a um mundo que ele não aprova. ..."
Princenton Encyclopedia of Poetry and Poetics (1975), pg. 582.

2. No capítulo Reflexões sobre Sá de Miranda ou a arte de ser moderno em Portugal, Jorge de Sena escreve o seguinte: "...Tudo isto se reflecte, por vezes em dramáticas elipses de concisa síntese, em Sá de Miranda, que é mais uma das ilustres vítimas - típicas da história da cultura portuguesa - dessa divisão contraditória da personalidade entre o passado e o futuro, a tradição e a revolução, o pensamento e a acção, o homem social e o homem moral, que, do Rei D. Duarte a Antero, com o seu ácume em Camões, vem explodir definitivamente em Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, (...) Sá de Miranda participa, porém, dentro do carácter contraditório peculiar à cultura em Portugal, e nos aspectos específicos da sua época e da sua personalidade, de uma e outra forma de tortura. A comparação de versões, a observação de como há saltos lógicos que ele não emendou nunca e passagens discursivas que ele retocou deliciadamente, eis o que, efectivamente, revelará que antigo e que moderno coabitavam nele, não menos e não mais que em todos os estrangeirados torturadamente patriotas, espelho de portugueses, desde o Infante D. Pedro, o das Sete Partidas, ao «divino» Garrett. ..."
Da Poesia Portuguesa (Ática, 1959), pgs. 24 e 26.

P. S.: para c.a., na sua "Casa Improvável".