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sábado, 17 de janeiro de 2026

Amanheceu assim...



 ... de laranja raiado.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Os primeiros sinais vivos da manhã

 
Disse-o há muito, creio que em Fevereiro de 1979, que o primeiro movimento e som de fonte limpa da casa são as águas. Correntes. Agora e recentes, movem-se frenéticas uma ou duas mosquinhas (horrorosas) da fruta, sobretudo na cozinha. Vem depois o som aflautado, por volta das 6h30, do ladrar do estafermo do cãozito da vizinha, que nunca o ensinou a estar calado. Segue-se, ou não, a cãozoada em volta, em contraditório.
Mas, se assomar à varanda a leste, tenho uma consolação visual agradável, oriunda da grande colónia de melros da zona, que cedo começa a sua lida na busca de migalhas pelo chão. Nos seus passos nervosos, saltitantes e miúdos, até me podem brindar, se para aí estiverem virados, com o seu canto mavioso e lindo.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Uma fotografia, de vez em quando... (175)

 

Foi assim, ao nascer do dia.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Sinal dos tempos



Em vez do cristalino e singular cantar de galo, temos agora o rouco e antipático crocitar de múltiplas gaivotas, em volta dos contentores do lixo, para nos acordar de manhã.
Longe vai o tempo de Alexandre O'Neill (1924-1986) em que, poeticamente, uma dessas aves, hoje horrorosas, lhe "trazia o céu de Lisboa..."

domingo, 5 de setembro de 2021

Por entre as brumas,

 


hoje, ao acordar, foi assim.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Pela manhã


Começo bem a manhã - três poemas se me impõem à leitura. Gosto muito de dois, o terceiro não me toca, nem ao de leve. Também neste último a ilustração não ajuda...
E se dois poetas são do norte, o terceiro é de outro continente. Minimalista, de nome. É tudo uma questão de voz, ou de tema que me permite separar as águas, aderir ou não.
A contenção é, muitas vezes, uma questão de sabedoria, a que não falte ritmo ou essa música discreta que as palavras trazem consigo. E que só alguns pressentem.
E o António, meu amigo, bem mo disse, ontem, que ele tem música e ritmo no sangue (eu não tenho), a propósito de Echevarría. Mas pelo Eugénio, respondo eu.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Matinal


Sol e sombra, como nas arenas...
O ainda nocturno repousante das casas e a vivacidade inicial da luz, que se anuncia.
Prosaicamente, poderia dizer-se, com humor amanhecido, que um ovo estrelado se prepara, para um pequeno almoço muito british..:-)

sábado, 12 de agosto de 2017

Dispersas e matinais


Se os relvados ainda estão verdes, graças à rega matinal mecânica, já apresentam, porém, grandes peladas acastanhadas pela falta de chuva. As flores dos aloendros, mal nascem, ficam logo meladas e definham, sem crescer. E, à volta das pobres oliveiras centenárias, o solo está juncado de azeitonas ainda verdes e raquíticas. Uma dor de alma!
A falta de água provoca uma acentuada luta pela sobrevivência do mundo da natureza.
Formigas endiabradas e vorazes esburgavam a carcaça de uma carocha pequena e negra, já morta.
No Mercado, as bancas de peixe tinham clientes, mas o talho estava vazio e às moscas.
A D. Irene tinha o seu lugar cheio de fruta e como lhe esgotamos os figos lampos ainda verdes, lançou, popular e críptica, o seu provérbio: "Na minha casa há mulher, na da vizinha envergonhei-me."
Não fora eu ter lido, há dias, uma nota de Leite de Vasconcelos sobre ditados portugueses, e ficaria preocupado e curioso, com o dito da D. Irene. Dizia o linguista e etnólogo português que nem sempre os adágios têm conceitos sábios ou claros. É necessário é que tenham rima. Seja ela disparatada ou erudita...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Da repartição dos dias


À manhã convêm as coisas simples, mais lineares. A menos que os sonhos se prolonguem e impregnem as primeiras horas de imagens, teias e interrogações que não saberemos, de todo, deslindar.
Guardemos as acções para as tardes, o frenesi se o houver, a entrada pelos diversos mundos dos outros, donde nem sempre saímos lavados ou esclarecidos de realidade. É o recolher da vida.
Para a noite, a pousada tranquilidade se recomenda. O voltar a nós, classificando as experiências, deitando fora o lixo. Rearrumando bem as gavetas da memória. A música também pode ajudar.
Infância, maturidade, velhice, em suma.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recuperado de um moleskine (9)


As nuvens intercaladas mais parecem gretas milenares de um vulcão extinto e silenciado. Mas face a esta laranja afogueada, que vai nascendo, crescendo e subindo, de Leste, haveria que contrapor-lhe alguma música mais suave, para poder entrar no dia, mais devagar.
Para a direita, a Arrábida está envolta numa neblina de algodão macio, e o Seixal ribeirinho vai pelo cinzento azulado, com as águas. As aves fazem silêncio e nem se vêem. Nuvens glaucas apagam, por momentos, o incêndio solar. E um azul, lavado e claro, vai-se caldeando no pós-cénio e ataviando o dia para entrar.
É então que, surrealmente e à la Serna, me vem à voz e do fundo de mim mesmo, perante estas mudanças, no horizonte, uma definição de molusco: simbiose de gelatina e músculo, visível ao lusco-fusco.
Inexplicavelmente...

domingo, 23 de março de 2014

Divagações 63


O silêncio matinal e deserto de uma cidade, sobretudo em domingos inóspitos, é como se fora uma paisagem em aberto, semelhante ao princípio do mundo, onde apenas as casas e as ruas, de construção humana, podem destoar. Embora o silêncio seja tão poderoso, que faz esquecer esses sinais insólitos da mão humana.
Todos nós, decerto, já experimentámos, por insónia imprevista ou noitada escolhida, esse espectáculo raro e tranquilo da cidade adormecida, das ruas vazias, da luz crescente e insinuante que se vai adivinhando pelas sombras tímidas, pelo róseo ou rútilo com que a aurora vai vencendo, pouco a pouco, quase imperceptível, o escuro da noite.
Em desabono do derrame lírico do poste, ou do sentimento poético, e por associação lógica, quando penso nestas manhãs de domingo de cidades desertas, vem-me sempre à memória uma imagem do filme "A Ultrapassagem" (Il Sorpasso), de Dino Risi (1916-2008), com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, entrando em Roma, numa manhã dominical.
Já no centro de Roma, e velozmente, os dois ocupantes do carro desportivo, depois de ruas e ruas vazias, vislumbram um único passeante matinal, numa praça, levando dois cães pela trela, que quase o arrastam. Ao passarem por ele, Gassman grita-lhe: "Liberta-te, escravo! Solta os cães!..."

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Um cão, na manhã agreste


É um cão triste (parece-me) e discreto, este que vejo algumas vezes, logo pela manhã, na rua outrabandista. Não se junta à alcateia de vadios ruidosos, que já vai em três, e que deambula, pelas ruas e praças, ladrando grosso.
O pequeno cão prefere o seu passeio solitário por recantos mais quietos, farejando o chão em busca de alimento. Vê-se que já teve melhores dias, por algum pêlo, ainda encaracolado, castanho claro, pela sua marcha discreta, por não ladrar. Não olha sequer para o alto, em direcção aos humanos, naquela habitual esperança votiva e canina de o virem a adoptar. Deve já ter desistido. Até dos carros se desvia só no último momento. E muito devagar.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ante-manhã


Para chegar de novo até aqui, tenho que recuar quase cinquenta anos, até uma praia do Norte, batida pelo vento, porque o vermelho ardia e parecia contagiar o azul intensíssimo, por cima. O areal quase deserto, ainda não iluminado pelo Sol. E, pouco depois, chegaram os pescadores de sargaço, uma horda gritante, com as suas jangadas de cortiça, correndo para o mar, coberto que ele estava por um tapete de algas, imenso.
Mas não havia pássaros, na altura. Hoje, três corvos, também de intensa negrura acrescentaram essa memória longínqua. Crocitaram, pesados e grandes, sobre o largo outrabandista ainda vazio de pessoas, marcando o espaço. Depois ficaram, vigilantes, dominando, no alto de dois pinheiros altos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Descrição da manhã


Ainda não são 8 horas, quando o sol, ao longe, começa a ganhar corpo e luz, por trás das altas chaminés do Barreiro. Reflecte-se na inclinação oblíqua e húmida dos telhados, ainda molhados da chuva nocturna.
Mas, pouco depois, um véu diáfano de nuvens médias entre cor de laranja e cenoura tapam-lhe o brilho e absorvem-no de todo, num abraço de penumbra. Surgiu uma pomba solitária no terraço da casa defronte e duas gaivotas parecem patrulhar o rio, a meia altura.
Faz-se ouvir o ronronar de um avião, que vai alto e invisível. Em baixo, o sacolejar metálico do eléctrico, nos trilhos, arranha o silêncio matinal. Uma segunda pomba, arrepiada, faz a sua aparição, e o sol ressurge, em plenitude.

sábado, 16 de junho de 2012

O horário matinal do melro


As rolas começaram a arrulhar muito cedo e, pela primeira vez, que me lembre, achei-lhes o canto monótono e impertinente - porque eu tinha dormido pouco. Depois, quando estava à espera de ouvir os melros, no seu cantar melodioso, para me aquietar, vieram os pardais na sua algaraviada imparável, buliçosos dentre a folhagem frondosa de uma árvore próxima. Dos melros, já passava das oito e meia, e nada. Mas pouco antes, quando eu saíra para comprar o jornal, tinha visto um. Jovem pelo tamanho, nos seus passinhos ritmados por pausas, mas miúdos e nervosos pela estrada sem carros à hora matutina, a bicar no chão o seu sustento, mas calado e atento: primum vivere, deinde philosophari.
Faltava muito pouco para as nove, quando ouvi o primeiro trinado, próximo da varanda a leste. O melro já devia ter o papo cheio... Chegara a vez de cantar.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Paisagem na manhã, cedo


A penumbra em neblina veio vindo, devagar, desde o rio, por entre as ruas estreitas. Janelas, de quartos nocturnos, iam-se entreabrindo à manhã e, nos peitoris, almofadas informes da noite, ainda mornas, ficavam a arejar. O rio foi-se abrindo à luz, enfim liberto, cinzento leitoso, no entanto.
Foi então que a penumbra, ao chegar ao alto da colina se transformou numa chuva fina, oblíqua para Norte. Súbita, uma silhueta de cabelos desalinhados, claros, veio amarelo-limão, no seu pijama breve, recolher as almofadas orvalhadas da janela alta. E recolheu-se de novo ao quarto, imerso de escuridão interior. Enquanto duas cortinas esvoaçavam, brancas, pelo vento leve.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Manhã


No pequeno triângulo visível, o rio é um espelho afogueado. E o mármore, defronte, acaricia, já morno, os passos nervosos e saltitantes do melro matutino. A melancolia ficou-se pela bruma outrabandista, lá ao longe. Pequenos pardais, da nova geração, ainda frágeis, "cruzam os ares num assobio" rápido e contente. Subtil, a Primavera vai despertando, pouco a pouco, amena. Abrindo o seu regaço, espreguiça-se, e vai ganhando espaço.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Cedo, na manhã de Julho


Do interior da janela, abro as férias ao cinzento. Há uma incomodidade neste frio inesperado de final de Julho, e esta troca de azul pelo escuro suscita um desconforto biológico e mental. Depois, na esplanada sem mar à frente, desdobro as páginas e leio, sobre Faulkner, umas linhas de crítica avulsa e breve. Hesito se devo levar, para o interior do café donde os trouxera, a chávena com o pires e o copo da água, já vazios. Há mais chávenas vazias pelas mesas abandonadas. O empregado virá buscar, com certeza, com a bandeja (se for redonda?) ou o tabuleiro (se for rectangular?), a louça usada e suja, para a lavar, no interior.
Uma pá metálica arrasta-se pelo chão, num ruído agressivo e desagradável, levando areia grossa de um lado para outro. Levanto-me e regresso. Há que fazer qualquer coisa pelo dia...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A manhã, de Junho, por exemplo


As águas são o primeiro movimento da casa. E seu ruído inicial. Se a casa for povoada, virão decerto monossílabos, palavras breves, um pouco antes. E a luz: se for cedo, eléctrica; as mais das vezes, natural, ao abrir das janelas - forte, despudorada, sobre os olhos habituados ainda às sombras oníricas da noite. Que são, normalmente, fatais ao rumo desse dia ou, pelo menos, o influenciam. E se a Natureza estiver próxima, já os pássaros se terão feito ouvir, maviosos - os melros, os pintassilgos, algum canário doméstico...
Mas sei, com absoluta exactidão, a data em que descobri que o primeiro movimento das casas são as águas: 20 de Fevereiro de 1979. E foi a última vez que vi nascer a manhã, nessa casa longínqua da memória.