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terça-feira, 15 de março de 2022

Mercearias Finas 176



O tachinho veio em take away da Trafaria. Com um Rancho apaladado e generoso.
Quando por lá andei no Verão de 68, não havia memória de nenhum levantamento de rancho no BRT (Batalhão de Reconhecimento e Transmissões), mas eu trouxera algumas histórias da EPI (Escola Prática de Infantaria) de Mafra, onde teriam acontecido, certamente por razões sobejas que, tirando o sempre magnífico pequeno almoço, pelas boas qualidades do pão e do leite, as restantes refeições deixavam muito a desejar para os recrutas soldados cadetes.



Injustamente classificado como comida de pobres, o Rancho português agregava massa (macarrão), batata e grão-de-bico, a que uns bocadinhos de carne de porco e umas, poucas, rodelas de chouriço corrente davam sabor e substância. Cruzei-me com ele já tarde, na segunda metade dos anos 80 e fiquei fã.
Para este Rancho, feito com gosto e que trouxemos para degustar em casa, abrimos um tinto do Dão, Quinta do Cerrado 2020 (13%), da UCB, que esteve à maneira. E cumpriu.

sábado, 11 de agosto de 2018

Ser ou não ser, por


Surpreendi-me, a mim mesmo. Eu, que não tenho espírito bélico, embora tenha a dose de agressividade inerente a qualquer ser humano, depois de pensar um pouco, acabei por alinhar com Manuel Alegre e com o PCP, que defendem a reintrodução do Serviço Militar obrigatório, que existiu até 2004, creio, em Portugal. De Janeiro de 1968 até Março de 1971, também passei por ele. E se alguns momentos houve negativos, nesse cumprir cívico, o balanço que hoje faço é positivo.
Disciplinou-me, numa altura em que eu levava quase uma vida boémia, reforçou-me, grandemente, o sentido de organização, despertou-me, na prática, os sentimentos de solidariedade que eu tinha muito teóricos e robusteceu-me a consciência política. Por outro lado, criei, pelo menos, duas amizades para toda a vida. E, isto, são aspectos importantes e que contam.
Acresce, actualmente, que o ogre norte-americano fechou o guarda-chuva de protecção sobre a Europa, e alguma da nossa juventude anda muito mal habituada, além de não lhe vir a fazer mal o criar sentimentos de solidariedade para com os outros, bem como começar a usar regras de disciplina, ordem e boa educação. Mesmo que temporariamente através de rituais que parecem formais e inúteis.
Sou a favor.

sábado, 14 de abril de 2018

Mercearias Finas 129


De caça, à mesa, não me posso inteiramente queixar. Tenro em idade, pelo Outono, apareciam lá em casa, de ofertas de caçadores amigos, tordos, pombos bravos, perdizes, e, de exemplares terrestres, mas também ligeiros, vinham à mesa, lebres e coelhos silvestres, de fino sabor. Tive a minha conta.
Parcimonioso, embora, o almoço de hoje compôs-se de um afinado ragoût de veado com cantarelos, acompanhado por massas frescas e um Dão tinto Santo António (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro) de 2014, que se portou competente para a sua responsabilidade gastronómica.
Ao vivo, em Mafra e na sua Tapada, me fartei de ver veados à solta, enquanto eu andava aperreado na minha aprendizagem militar, pouco antes de Salazar ter caido da cadeira. Mas aos ditos bichos, só os provei, em bifes, por volta de 85, vindos de Massamá, de uma quinta pioneira em criação de caça que, hoje, se calhar, chamariam startup, para ganhar estatuto...
O javali veio ter ao meu currículo gustativo depois do 25 de Abril, numa ida propositado a um restaurante simpático dos subúrbios das Caldas da Rainha. Não desgostei, mas também não fiquei avezado, nem cliente. Já nos anos 90, chegaram os faisões, as galinholas e as avestruzes que, uma vez provados, posso dispensar tranquilamente e sem sacrifício.
Fiel, fiel, mantenho-me às perdizes, que o Sr. Pereira, exímio caçador lá entregava em casa e que a Maria, profissional de gabarito, preparava com afecto extremoso. Ave especiosa, se selvagem, que o Abade de Jazente  (1719-1789) celebrou. Em soneto, e para sempre.
Que aqui deixo, pelo seu tom bem humorado:

Eu bem as vi, mas foi, Rocha erudito,
arrojar tão de chofre d'entre o mato,
que o caçador um pouco estupefacto,
em lugar de atirar-lhes, deu um grito.

Passaram-se depois a tal distrito,
d'onde apenas trepar podera um gato;
sem falar no desconto de um regato,
que resiste inda aos saltos de um cabrito.

N'isto chegou a noite; e ao outro dia,
ou porque o cão levava maus narizes,
ou porque alguma velha nos benzia,

corremos sem topá-las mil paises.
Bem sei que isto ao primor me não desvia,
mas esta é toda a história das perdizes.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Geraladas


Às vezes (não tão poucas como isso...), somos envolvidos numa generalização abusiva e abastardada, em companhias pouco recomendáveis que nos diminuem de estatuto... Isso acontece com o vós indiscriminado, com as circulares a dizer nada (de que a Net anda cheia), meadas de algoritmos lorpas e  comuns, e ainda (mais raro, é certo) com o recomentário abrangente (e chapa-zero) de administradores de blogues, apressados, miopes em destrinçar a diferença entre sujeitos individualizados, numa mistura que me lembra os tempos de caserna, rancho e tropa, em que os sargentos não conseguiam ( ou não se preocupavam...) notar as diferenças de cada um. Afinal, terei de concluir que os portugueses não mudaram assim tanto, nestes últimos anos de democracia... Por  comodismo boçal, desatenção, sensibilidade grosseira, ausência de respeito pelos outros e por uma secular falta de sentido crítico, que vai sendo cada vez mais generalizada.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Da explicação em poesia


Não sei já quem disse que analisar e explicar um poema é a melhor maneira de o destruir. De alguma forma, o estudo escolar de "Os Lusíadas" fez abortar, pelo menos parcialmente, a possibilidade de fruição inteira do nosso poema maior. Por outro lado, neste nosso tempo, raríssimos serão aqueles que terão oportunidade, paciência e o prazer de virem a ler, com proveito e gosto, as estâncias camoneanas descrevendo, genialmente e por exemplo, o fogo de Santelmo, ou, com imenso humor, o episódio  (pícaro) de Veloso. Alguma coisa se vai perdendo para sempre, dos antigos cânones...
Quando releio As Aves (1969), de Gastão Cruz (1941), lembro-me sempre de Sá de Miranda e de Mafra. E dos 6 meses, que por lá passámos, com diferença de 3 meses, na recruta e especialidade. É uma realidade prosaica mas, na altura, com a guerra colonial, essa realidade era também dramática. Tudo isto pode ajudar na leitura deste pequeno (grande) livro de poemas. Sobretudo para quem viveu esses outros tempos e os sentiu na pele.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Mercearias Finas 87


Da região saloia, de positivo, o que primeiro me vem à memória, é o rústico e saboroso vinho de Cheleiros, que já não provo há mais de 30 anos. Se recuar mais uns 15, num restaurante caseiro - já desaparecido - do centro de Mafra, vêm-me à ideia uns bifes tenros de vitela que, por vezes, lá jantava às sextas-feiras. Para me compensar da semanal comida de caserna e para me dar forças para o cross matinal dos sábados. 
Mas Mafra mudou imenso. Desembarcados no largo, frente ao Convento, demos pelo "Sete Sóis" que, além dum Caril de Lulas, gulosamente e cinegético, rezava assim:
- Ensopado de veado
- Alheira de caça
- Espetada de javali e veado
- Costeletas de javali.
Ora, esta variedade, em Maio, só por milagre ou por excesso de população bravia na Tapada... Bem fomos, dois do grupo, na Espetada que estava bem grelhada e esplêndida, fazendo-se acompanhar de batatas a murro, recheadas a Rocquefort, mais uma boa salada colorida. Esgotado o vinho que eu pedira, em primeira mão, trouxeram-me um amadurecido Casa de Santar 2003, tinto, que, embora com pé grande, estava macio de aroma e sabor. Mafra reconciliou-se-me pelo estômago, passados tantos anos, depois desse semestre inóspito de 1968.
A não perder, quem lá for, este restaurante "Sete Sóis", de bom serviço, e donde se pode ver (sala de jantar, no 1º andar) o Convento e lembrar Saramago, que era um homem sério, interventivo e, quase sempre, justo.

domingo, 7 de abril de 2013

Idiotismos 15 : jargão militar


Será caso excepcionalíssimo e raro, o eu poder localizar, no tempo e lugar, a entrada de uma palavra ou expressão no universo do meu léxico pessoal. Mas sei que a palavra pinchavelho me surgiu, pela primeira vez, em Janeiro de 1968, na então vila de Mafra. Pertencia ao jargão militar de um jovem tenente, Carneiro de apelido, instrutor do meu pelotão. E "pinchavelho" servia para tudo o que fosse pequena peça metálica (de parafuso a ponto de mira, ou cão) de uma arma, fosse ela a pesada Mauser, a leve metralhadora Uzzi, ou até a G3, que tinhamos de aprender a montar e desmontar.
Também o cultivo épico de um certo estoicismo físico era palavra de ordem, perante um acidente maior ou menor, um lanho leve ou profundo, uma dor. Diziam, logo: "Incha, desincha, e passa!" Fosse grave ou não, o desastre que nos atingisse. A expressão "tropa fandanga", para definir um grupo indisciplinado e tosco, veio-me ao conhecimento muito mais tarde. E só indirectamente por via militar. Mas a arte de guerra tinha, e ainda deve ter, um jargão amplo e expressivo, muito próprio.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Outono das aves


Sempre me perguntei para onde vão as aves, nestes tempos de borrasca - que as não vejo.
Das andorinhas, sei eu que já foram para Sul. Mas o que será feito dos pardais que, ainda há uma semana, chilreavam, ao fim da tarde, a aconchegar-se no interior da árvore frondosa, ali defronte? Melros, hoje, não vi nenhum, nem mesmo as gaivotas apareceram. Apenas, o crocitar de (2?) corvos invisíveis.
Mas também eu já não páro na varanda a leste, senão alguns minutos, até os pés imóveis se harmonizarem com o frio da tijoleira. Em breve, só espreitarei do interior, para saber das rosas, dos 9 limões e do loureiro juvenil, muito rijo e direito.
Talvez os estorninhos já tenham começado a sobrevoar Lisboa, nos seus voos vertiginosos e densos. No domingo tenho que os procurar com atenção. E vem-me à memória Mafra e os versos de Outono de Gastão Cruz:

Dos castanheiros a folhagem árida
já desce no ar morto que se move
dentro da palidez do céu de outono
sobre as aves imóveis...

terça-feira, 17 de abril de 2012

O que os outros fazem por nós


Isento da fobia das alturas, na juventude, não tive a menor dificuldade, durante a tropa em Mafra, em saltar o "galho" ou passear no "pórtico", a cerca de 4 metros do chão, por uma trave estreitíssima. A idade, entretanto, alterou a situação física e, por vezes, nas alturas, as tonturas ameaçam. Por isso, hoje, quando vi 2 ou 3 operários de manutenção, na ponte 25 de Abril, encavalitados num dos tubos metálicos laterais, fiquei perplexo. Não havia rede, como nos circos, e os homens deviam estar a mais de 50 metros sobre o Tejo. Mas também sei que alguém tem que fazer aquilo, para nossa segurança.
Evito, praticamente sempre, deitar coisas para o chão. Penso que o que se deita para o chão, alguém terá que o apanhar para que as ruas se conservem limpas e asseadas, como deve ser. Mas hoje, logo pela manhã, quando fui pôr o saco de lixo doméstico no contentor vi cerca de 20 pilhas pequenas e usadas, espalhadas pelo chão, quando há um depositório próprio para as deixar... Para não falar nalgumas ruas do Bairro Alto que, manhã cedo, estão juncadas de copos de plástico, garrafas de vidro de cerveja e vinho, vazias, abandonadas pelo chão. Deixadas pelos alarves nocturnos da véspera.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uso Pessoal 5

Obsv.: velhos apontamentos (1968) encontrados na mochila de um antigo ex-combatente, que o foi, à força.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Divagações 9 (e em sequência de Guimarães Rosa)


Não será muito comum, ao lermos um texto simples em prosa, na nossa própria língua, não o entendermos. Mas já me aconteceu a mim, excepcionalmente, uma vez: em Mafra, a 19 de Janeiro de 1968. Após cinco dias de reclusão obrigatória e absoluta no Convento (recruta da tropa) e o início gradual do "massacre e lavagem ao cérebro" desses tempos militarizados, quando saí, na sexta-feira, ao fim da tarde, comprei sofregamente o DL ("Diário de Lisboa") e comecei a lê-lo, num Café mafrense. Apercebi-me, então, que não conseguia entender o sentido do que lia. Reconhecia as palavras, mas elas não se me organizavam em realidade, nem traduziam sentidos.
De uma forma já normal, isto mesmo pode acontecer, a outro nível, ao lermos poesia, na nossa própria língua. Conhecemos os vocábulos, mas escapa-nos o sentido do poema. Mais frequentemente, quando lemos poesia numa língua estranha à nossa, é possível ocorrerem equívocos de interpretação. Ou através duma compreensão errada, criarmos outra realidade para que se ordene, em nós, um sentido (outro?) que não estava no poema, ou no verso original, quando foi escrito. Aqui, no entanto, poderá ocorrer o feliz acaso de se ir ao encontro de uma nova realidade virtual, subjectivamente, objectiva.
Tudo isto se aproxima, perigosamente, da simbologia de Babel e das línguas de fogo do Pentecostes. Ou, simplesmente, daquilo que se denomina a ambiguidade da Poesia, para sermos mais claros.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Osmose (20)


Pedala em Mafra, na marquise, mas pelo contador da bicicleta fixa ultrapassou os 20 quilómetros, e já poderia estar na Ericeira. Vai fazer quarenta anos, e uma barriguinha recente começou a despontar: sequelas da Débora e do Franco que ouve, ao lado, brincando; do pouco exercício físico, ela, que fora corredora de fundo. E, também decerto, dos sonhos que se foram esboroando, em definitivo.
Vai desentendendo o mundo, vai ficando mais amarga, a casa parece-lhe cada vez mais escura, as manhãs mais negras... A irmã, emigrante na Alemanha, hoje, por telefone disse-lhe que o E. coli, afinal, parece que veio das alfaces da Baviera (que é feito da exactidão germânica?), quando antes o ligavam aos pepinos espanhóis; o Raúl contou-lhe que a Bélgica completou um ano sem governo e está em gestão indefinidamente (será possível?). De repente apetece-lhe, e quer entrar num combóio para nenhures e encontrar alguém desconhecido, que se senta em frente, no compartimento. Pelos vidros da marquise vê a Lua Cheia ainda pouco iluminada. O contador da bicicleta fixa, marca 25 quilómetros de exercício. Seja do suor ou não, o olhar de C. fica-lhe trémulo e parece humedecido.

para HMJ, mas sem qualquer exactidão...

sábado, 24 de abril de 2010

Abril, Mafra, 1968



Hoje, quando se fala do Convento de Mafra há, habitualmente, dois nomes que surgem por associação: D. João V e José Saramago. Mas há quarenta anos, para muita gente, a imagem do Convento ligava-se à Guerra e à Morte. A uma escola de aprendizagem a matar, e a "lavagens ao cérebro" minuciosamente estudadas e aplicadas. Os corredores do Convento de Mafra eram longos e frios, e as camaratas, ruidosamente ocupadas, não permitiam "outra intimidade, senão fechar os olhos".

Ao fim de três meses de recruta, os "infantes" eram chamados à parada, e alinhava-se o pelotão. Eram nomeados pelos números que acabavam em sessentas (64, 65...), do ano da inspecção. Chamavam os números e era uma espécie de roleta (russa). E, a seguir, diziam o destino: Transmissões, Comandos... Depois, mandavam destroçar e regressar às camaratas. O regresso até aos andares de cima, fazia-se em silêncio, mas ao chegar aos dormitórios, os sentimentos rompiam. Os gritos de alegria de quem ia para especialidades da burocracia militar, e o choro, pelos cantos, dos futuros "caçadores especiais"; e, pior do que isto, ainda era o "afunilamento" da Guiné (Corredor de Guilege, Madina do Boé...) onde, diariamente, morriam 2 ou 3 jovens de vinte e poucos anos. Era assim há quarenta anos para uma boa parte da juventude portuguesa.