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sexta-feira, 1 de março de 2024

Releituras

 

Foram leituras gratificantes as que fiz, no passado, do francês Maurice Genevoix (1890-1980). Os bestiários, Terno (1989) e Encantado (1991) vertidos para português, na Cotovia, em boas traduções de José Dinis Fidalgo (1960). Mais tarde vim a ler, na edição original, das Éditions du Seuil, uma singular autobiografia Trente mille jours (1980), do escritor.



Aqui deixo, do primeiro destes singulares bestiários, um pequeno extracto do texto sobre a garça-real, que estive a reler:

" - La Fontaine descreve-a correctamente, «sobre os seus longos pés deslocando-se não sei para onde, a garça-real de bico comprido encabado num comprido pescoço». Porém, a garça-real sabe muito bem para onde se dirige. Mesmo se lhe acontece engolir um caracol, não foi por a pesca ter redundado num vergonhoso desaire, é que o seu apetite hereditário pela carne da carpa ou do lúcio (ainda continuo a tomar La Fontaine por referência), não a impede de modo algum de apreciar a carne untuosa do caracol. Que pensariam disto os apreciadores de caracóis?" (pg.53)

Do belo livro, eu destacaria ainda, por impressivos, os pequenos capítulos dedicados ao Castor, ao Javali e ao Matadouro, bem como os que falam do Ouriço-cacheiro e do Vairão.

domingo, 22 de novembro de 2020

Divagações 165

Terá passado decerto desapercebida, dos nossos afrancesados nacionais, a entrada, em 11 de Novembro passado, no Panteão francês do escritor Maurice Genevoix (1890-1980). Mais do que justificada a homenagem, Le Monde considera-o um digno representante dos poilus franceses, dado que combateu e foi ferido no decurso da I Grande Guerra. Era por outro lado um ambientalista pioneiro com os seus Bestiários (traduzidos pela Cotovia) e não só. Num deles, o retrato que faz de Soutine é para ter em conta. Destaco também o seu Trente Mille Jours (Seuil,1980), uma espécie de autobiografia, que me deu imenso gosto a ler. Releve-se o facto de Genevoix ter demorado 40 anos a ir repousar no Panteão gaulês, o que só abona na ponderação equilibrada dos franceses, ao contrário da pressa sôfrega de outros povos sedentos em descobrir, rapidamente, glórias discutíveis nacionais, em cada esquina...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Mudanças


Verifico, com grande surpresa, que terei lido o primeiro livro de E. M. Cioran (1911-1995) em 1966,  pela marca de posse e data manuscrita, mas não consigo lembrar-me como cheguei até ele. Creio que comprei Précis de Décomposition (1949), na 111, ao Campo Grande. Emparelhado com Camões, o ensaísta franco-romeno viria a servir-me de epígrafe (La joie n'est pas un sentiment poétique) no meu primeiro livro, em 1984. Não sei se por bonomia ou malvadez, os franceses apelidavam-no de filósofo de rua. Seja como for desde longe que Cioran me continua a acompanhar...
Ainda que muitas vezes por oposição ou para me forçar ao contraditório pelo seu excessivo pessimismo ou provocatório niilismo. Não me deixa nunca indiferente e é sempre estimulante a sua leitura. Mais agora, ainda, que um fastio pela ficção se me instalou, de há uns anos a esta parte, e a história, a poesia e o ensaio são meus únicos territórios de gosto e prazer. Assim, resolvi passar até de uma segunda fila, escondida, os livros de Cioran para a primeira linha para os ter à vista e mais à mão.
Sacrifiquei a exemplar e amena ficção de Maurice Genevoix (1890-1980), de que ainda gosto, para a retaguarda da estante, e dei o lugar ao pensador romeno. Uma mudança que ele merecia, aliás.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Chaim Soutine



Controverso, no mínimo, o pintor Chaim Soutine, nascido próximo de Minsk, a 13 de Janeiro de 1893, faleceu em Paris, em 1943. O seu amigo Henri Serouya, evocando o seu sorriso de "menino cândido", diz que ele era la douceur même. Pelo contrário, o escritor Maurice Genevoix sublinha-o como um solitário assumido, e de mau feitio. Há uniformidade em atribuir-lhe, no entanto, persistência e tenacidade no seu labor artístico, e coerência de estilo. Raramente pintava sobre esboços prévios de desenho, mas as cores projectava-as com intensidade sobre a tela, logo de início. Após períodos de esterilidade criativa, entrava em fases de frenesim criador, numa espécie de misticismo laico, torturado. E, ao evitar a preparação e desenho prévio nos seus quadros, procurava sobretudo não dispersar ou fragmentar a sua inspiração.
Nos anos que passou em Céret (1919-1923) produziu cerca de 200 obras. A série de "Meninos de côro" data de 1927. O quadro em imagem, o primeiro que eu vi de Soutine, e um dos que mais gosto, pertence à colecção particular da família Castaing. A ocupação nazi fê-lo passar por grandes provações e sofrimento moral e psicológico, pelas ameaças que sofreu. Em 1943, refugiado que estava em Champigny-sur-Veude (Touraine), uma perfuração intestinal obrigou-o a regressar, de urgência, a Paris. Operado demasiado tarde, Chaim Soutine morre na manhã de 9 de Agosto.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Pinacoteca Pessoal 1 : Chaim Soutine


O Arpose inicia, hoje, uma nova secção: Pinacoteca Pessoal. Que abordará pinturas, trabalhos gráficos, gravuras e, eventualmente, esculturas de artistas que, por um ou outro motivo, sejam da minha particular predilecção. Inicio a rubrica com Chaim Soutine (1893-1943), um dos meus pintores de referência, que nasceu a 13 de Janeiro de 1893, na que é, hoje, Lituânia, mas na altura pertencia, territorialmente, à Rússia. A sua vida artística desenvolveu-se e consolidou-se na França, tendo sido grande amigo de Modigliani, que lhe fez, pelo menos, 2 retratos. Era, ao que parece, homem de mau feitio (Maurice Genevoix dixit in "O Vairão"), solitário. As suas pinceladas fortes e largas, os seus retratos torturados (mesmo quando pinta crianças, e pintou muitas) denunciam a sua marca pessoal. Os seus meninos de coro, peças de carne esventradas, as paisagens dramáticas, são seus temas recorrentes. Creio que Francis Bacon lhe deve algumas influências... Escolhi, de Chaim Soutine, o "Retrato de uma Enfermeira" (1919) que integra o acervo do Los Angeles County Museum of Art.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Do "Bestiário", de Leonardo da Vinci


Muitos autores escreveram bestiários. Retenho dois, de que gosto particularmente: de Maurice Genevoix (que a propósito do Vairão, até fala de Chaim Soutine, pintor muito da minha preferência) e de Leonardo da Vinci. Na imagem do poste, o quadro de Da Vinci que mais aprecio: "Senhora com um arminho", que está no Museu de Cracóvia (Polónia). O quadro já consta do arquivo do Arpose, mas foi posto há mais de um ano, e é tempo de o recordar. Seguem-se, então, algumas transcrições do "Bestiário" de Leonardo da Vinci:
35. Moderação
O arminho pela sua moderação apenas come uma vez por dia e prefere deixar-se apanhar pelos caçadores a fugir para a sua toca se estiver enlameada, a fim de não macular a sua pureza.
95. Camaleão
Este apanha sempre a cor da coisa onde pousa; por isso, juntamente com os ramos onde pousam, muitas vezes são devorados pelos elefantes.
97. Dos Pressentimentos
O galo não canta se antes por três vezes não bater as asas.
O papagaio, ao deslocar-se pelos ramos, só põe o pé onde antes já pôs o bico.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Favoritos V : Soutine






Parece que tinha mau feitio...


Chaim Soutine nasceu na Lituânia - integrada na Rússia, nessa época - a 13 de Janeiro de 1893 e veio a falecer, em Paris onde se radicou em 1913, no ano de 1943. Foi grande amigo de Modigliani (1884-1920) que o retratou algumas vezes. A pintura expressionista de Soutine, na minha opinião, parece ter como antecedentes Bosch e El Greco, e, como sequente, Francis Bacon. Nunca pintava de memória, mas sempre com o modelo à sua frente.


Maurice Genevoix (1890-1980), esse grande esquecido, retrata-o, assim, no seu texto "O Vairão" do "Tendre Bestiaire": "...O homem, macilento e magro, com um chapéu de feltro cinzento muito enterrado na cabeça, de olhos escuros, ardentes, quase febris, falava alto, era o único a levantar assim a voz dentro do veículo, com uma autoridade talvez demasiado confiante e forçada, onde havia um certo tom de provocação."