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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Divagações 211



Tenho a enraizada convicção de que os pássaros são discretos a morrer. Sobretudo as pombas, que normalmente escolhem um canto isolado para se aconchegarem, sem piar sequer, para desfalecerem de vez.
Por outro lado, salvo as aves trucidadas pelos veículos nas estradas, é raríssimo eu ver o cadáver abandonado de um pássaro morto na natureza. Talvez escolham o mar para repouso final.
É isso que me falta saber.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Excelências

 
Um conhecido politólogo e professor universitário do ISCTE-IUL, de 63 anos, optou pelo Hospital da Luz (Oeiras) para ser operado a um ombro. A operação, que seria banal, terá dado origem a uma infecção posterior, e André Freire acabou por ser transferido para o Hospital de S. Francisco Xavier, do SNS, onde veio a falecer.
Salvou-se assim, mais uma vez, a excelência das estatísticas de morte no privado...

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Eugeniana mínima (7)



Qualquer banal dicionário regista, habitualmente, como significado de vate: "aquele que faz vaticínios; adivinho; poeta." Por outro lado, quem frequenta a poesia de Eugénio de Andrade (1923-2005), deverá lembrar-se que o poeta faleceu a 13 de Junho, segundo alguns, por volta das 3h30 da madrugada.
Não deixa por isso de ser curioso que na sua obra Matéria Solar, publicada em Março de 1980 (25 anos antes da sua morte, portanto), pela Limiar, na página 48, surja este premonitório poema:

36.

Pela manhã de junho é que eu iria
pela última vez.
Iria sem saber onde a estrada leva.

E a sede.


sábado, 26 de dezembro de 2020

Divagações 166


Numa das suas últimas entrevistas, reproduzida no JL especial editado aquando da sua desaparição do mundo dos vivos, Eduardo Lourenço (1923-2020), a propósito da morte, falava de números. Lembrei-me que, durante a guerra colonial (1961-1974), nos jornais portugueses e em local pouco destacado, quase diariamente, aparecia o número das baixas humanas, nos vários teatros de guerra. Em média era o número 3. Curiosamente, como agora com a pandemia, é um algarismo anónimo, embora muito maior, e descriminado por diversas alíneas, que aparece, quotidiano... 

O terrorista é agora o Covid-19, inimigo oculto e anónimo também, mas que parece ter uma personalidade própria, agressiva e letal. E que não conseguimos perceber se luta para ele próprio conseguir sobreviver ou se apenas pretende ceifar e ceifar, indiscriminadamente, apenas para destruir, cada vez mais, em números indiferentes e arrasadores, os seres humanos. Numa contabilidade impiedosa e cega. Mesmo que o nosso não fosse um tempo em que a economia predomina e submerge tudo, também assim a palavra cada vez perde mais espaço. Cedendo o lugar aos números. 

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Divagações 155


É de manhã que trabalham, em coisas leveiras, fátuas, com imagens estridentes de mau gosto kitsch e parolo. Noite dentro também serve para compensar insónias e a incompletude dos dias. Nos blogues e seus donos e donas administrativas.
Qual será afinal a época mais confortável de morrer? A casa VIII, astrologicamente fatal, a VI pela saúde, ou até a casa I marcando a personalidade vincada da desistência (se for o caso)? Ou ainda a XII? A ver vamos, se houver tempo útil...
Venha o diabo e escolha. Pela Primavera, ficaremos talvez com saudades da luz, pelo Inverno é a terra que estará fria e desconfortável, para nos abrigar. Felizmente, estaremos imotos e insensíveis, nessa altura definitiva, exacta.
Deus haja!

domingo, 18 de agosto de 2019

Curiosidades 76


S. Miguel de Seide não seria um sítio ilustre e elegante para morrer, pelo menos, até Camilo o ter escolhido. Enquanto Veneza sempre foi mais chique ou mesmo Paris (Neuilly), onde Eça acabou os seus dias. Mas Genebra (Suiça) e as margens do Lago Léman recolheram os últimos suspiros de tantas celebridades, que bem mereciam estar no Guinness.
Atente-se nos nomes de escritores e personalidades que por lá faleceram: Rilke, Stefan George, Joyce, Musil, Thomas Mann, Chaplin, Ignazio Silone, Erich Maria Remarque, Irwin Shaw, Borges, Simenon, Graham Greene, Elias Canetti, Nabokov...E, se calhar, ainda faltam alguns que, por coincidência ou fuga aos impostos, ali vieram a exalar os seus últimos suspiros, mais suavemente. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Relógios biológicos?


Sabermos, exacta e previamente, a data da nossa morte seria decerto uma tragédia prática, embora talvez pudesse ser útil para arrumarmos a nossa vida de forma conveniente. E para nos despedirmos e acertarmos contas definitivas com todos aqueles que merecessem a nossa estima e afecto. Por outro lado, essa previsão do fim iria perturbar, profundamente, a nossa forma natural de viver esses últimos dias. E introduzir um desespero e ansiedade acrescida na nossa rotina de vida.
Surpreendo-me, muitas vezes, extraordinariamente por ver a enorme herança que alguns artistas deixaram apesar da sua curta vida. Mozart, Schubert, Rimbaud, Van Gogh, são bons exemplos dessa afirmação. Portugueses, Nobre e Cesário, Soares dos Reis e Henrique Pousão, certificam de qualidade maior esse exercício notável de viver.
Como se todos eles possuíssem, íntimo, interior, um relógio biológico inconsciente que os obrigasse e apressasse a dizer ou fazer, nesses exíguos anos de vida, tudo aquilo que, de melhor, tinham para escrever, fazer ou pintar se, porventura, viessem a ter uma longa vida ou, pelo menos, de duração média e normal.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Não, não é uma citação no sentido clássico...


O filme, creio, era de segunda ordem, mas a frase surtiu-me algum efeito. Dizia (Al Pacino?), dentro de um carro, para o acompanhante, mais ou menos isto: morremos duas vezes; a primeira, quando soltamos o último suspiro, e a segunda, quando alguém, na Terra, pronuncia pela última vez o nosso nome.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Adagiário CXXVII


1. A conta dos mortos quem a faz são os vivos.
2. Entre morte e casamento cessa arrendamento.
3. O fim louva a vida, e a noite: o dia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A barbárie


Na Europa, na Ásia, na América ou em África, o homem continua a ser o lobo do homem. Não há motivo algum para ter esperança no progresso da Humanidade. As execuções sumárias e em circunstâncias degradantes ou humilhantes são o pão nosso de cada dia, logo aproveitadas e exploradas até à exaustão pelos media. Saudadas também, nos casos da morte de ditadores, por hipócritas estadistas do mundo dito livre que, antes se fartaram de lhes vender armas e comprar petróleo quando não, de aceitar deles miríficos presentes e subornos. É este o nosso mundo e a marcha da Humanidade.
As execuções transmitidas das mortes de Ceausescu, de Saddam Hussein e, hoje, de Kadhafi, mostram à saciedade a desumanidade e a barbárie que habita o homem. Mesmo um ditador ou um assassino tem  direito a um julgamento justo e a morrer condignamente. Não a este espectáculo sangrento, bárbaro e animalesco.