A leitura de um romance, bem construído, cria quase sempre inesperadas associações, abre ramais noutras direcções, alargando os horizontes.
O general Mikhail Kutuzov (1745-1813), derrotado por Napoleão na grande batalha de Borodino (1812), segundo Tolstoi, no seu "Guerra e Paz" (Tomo II, pg. 371), por essa altura, andava a ler Madame de Genlis ("Os Cavaleiros do Cisne") e Madame de Souza, em língua francesa.
Intrigou-me esta última senhora, com apelido português. Depois de aturados esforços, vim a saber-lhe o nome todo: Adélaïde-Emilie Filleul, marquesa de Souza-Botelho. Filha de uma amante de Luís XV, nasceu a 14 de Maio de 1761, tendo falecido no ano de 1836. Escreveu vários romances. E, em 1802, o embaixador português em Paris, José Maria de Souza Botelho Mourão e Vasconcelos (1758-1825), 2º Morgado de Mateus, casou com ela, em segundas núpcias - era viúvo. A benefício de inventário, deve-se a este Morgado de Mateus a construção do magnifico solar homónimo e uma não menos preciosa edição de "Os Lusíadas", publicada a expensas suas, em Paris, no ano de 1817, com ilustrações de F. Gérard e Fragonard, entre outros ilustres pintores e gravadores.
E eis como, indirectamente, um português veio dar ao "Guerra e Paz", de Leão Tolstoi...