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domingo, 6 de maio de 2018

Mercearias Finas 130


Miúdos. A princípio, e aqui há 50/60 anos, eram as mioleiras, que conceituados pediatras aconselhavam para as criancinhas, na boa companhia de uma açorda. Dos frangos, que não do campo, na altura, mas de galinheiros domésticos, se faziam saborosos arrozes de miúdos, acompanhantes proverbiais do galináceo assado no forno. Que, muito vezes, aparecia na mesa de Domingo. Como, pela Páscoa, era imprescindível o arroz de fressura, feito das miudezas do cabrito que acompanhavam, naturalmente, o anho sacrificado pelo Domingo de Aleluia.
Língua estufada, rim grelhado, iscas de fígado, eram lugares cativos das ementas de muitos restaurantes portugueses e das casas que cultivavam a tradição. Bem como a dobrada ou as tripas à moda do Porto. Mas, depois, veio a doença das vacas loucas, que varreu dos menus estas saborosas iguarias da nossa gastronomia. E se o fígado de porco ou de vitela voltou, em breve, ao nosso convívio prandial, os rins e as línguas foram esquecidos. No Montijo, ainda se podem encontrar, com facilidade, línguas fumadas de porco; o resto é difícil.
Por oferta amiga, chegou-nos esta semana um bem medido meio quilo de ervilhas temporãs e frescas. E, ao cogitar no conduto, logo me lembrei de uma língua estufada de vitela, que sugeri a HMJ. Encomendámo-la no talho, atempadamente, para o fim-de-semana. Mas a greve dos veterinários fez gorar o meu sonho. O talhante desculpou-se mas prometeu-a, para breve. Assim, a couve-flor, que entretanto já fora comprada, vai acompanhar um bife de alcatra, que apesar de vir a ser bom, é um pobre substituto da língua de vitela estufada, do sonho que eu acalentara...
E as ervilhas recolheram-se ao congelador.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Situar o horizonte


A paisagem subjacente. A linha paralela junto ao rio, em frente, é quase rasa. Vem do Montijo, e só pelo Barreiro se interrompe, por algumas chaminés altas, fabris, no horizonte da terra ribeirinha, que acaba pelo Seixal. Em segundo plano, ao fundo e atrás, a linha sobe em direcção ao céu, por alturas de Palmela e do seu castelo roqueiro, seguindo, depois, crescente em direcção à Arrábida, que não vejo.
É na direcção de Palmela, mais próximo de mim, embora distante ainda, que eu posso ver, por entre mansardas e telhados lisboetas, num rectângulo muito irregular, o Tejo. Que vai azul cobalto, e corre tranquilo, sem ondulação aparente. E por inteiro, se não fora um cacilheiro que lhe fendeu as águas, numa linha branca de espuma, seguindo diagonal na direcção do Barreiro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nocturno de Lisboa


O segredo é querer pouco. Mesmo  que  o alto de Palmela se apague, ao longe, na neblina.
As boas notícias até parece que vêm do rio, como lâminas nocturnas que, embora frias, trazem alegria. Chega-se a um ponto em que, da margem, o que podemos e queremos levar é unicamente o essencial. E não ficarmos sozinhos, com a memória toda a pesar na travessia. Sem ninguém que carregue um pouco dela, no seu peso mais íntimo, partilhando os desastres, as alegrias, as vergonhas e os triunfos efémeros do tempo. O Seixal, o Barreiro e o Montijo tremulam de luzes muito frágeis. O Tejo é uma mancha muito escura e, hoje, não será o Letes definitivo. Caronte afastou-se na sua barca, com o negócio perdido.
O segredo é querer muito pouco, cada vez menos. Só o essencial.

para o António, afectuosamente. 

domingo, 6 de março de 2011

Mercearias Finas 27 : a Favada

Não fossem as favas, de proveniência castelhana, toda a refeição teria origem genuinamente nacional. E com muito orgulho, porque a Favada estava um esplendor! E o vinho, um tinto da seleccionada colheita de 2003 da Adega Cooperativa de Pegões (com Touriga Nacional, Syrah, Trincadeira e Cabernet Sauvignon), portou-se galharda e cumpridamente bem. Nos seus 8 anitos de vida e treze graus e meio, abriu lindamente e deu luta. Ao chouriço de Portalegre, ao entrecosto dum porco que viveu no Montijo, a uma morcela de sangue, alentejana, e ao cheirinho duns coentros muito frescos, que vieram de Constância. Em abono da justiça e da verdade, há que dizer que as pequenas favas espanholas eram muito tenras e boas.
Como ainda havia quase 1/3 do tinto Pegões 2003, finalizou-se com um bom queijo de Seia (desta vez não era babão!), misto de leite de cabra e ovelha - apetitoso. Também acompanhado de um pão semi-integral (retirado a tempo do congelador e amornado no fogão), cozido a forno de lenha, em Negrais. Onde estivemos, aqui há dias, a comer um saboroso leitão, no "Tia Alice", ladeado por um cuidado arroz de miúdos, do dito. Mas, hoje, foi a Favada que, repito, estava um esplendor. Viva o colesterol!