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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Recuperado de um moleskine (49)

 


Inha

Vem de longe o cheiro
de casas campestres e nogueiras altas,
o aroma limpo da aguardente branca
misturado com maçãs no cimo
de roupeiros velhos, o perfume todo
de coisas sem idade ou da infância
sumida lá no fundo
e sussurrando.

Qlz.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Recuperado de um moleskine (47)

 

Há improváveis filhos pródigos que regressam de obscuros lugares, inesperadamente. Ignoro quase sempre o motivo da partida. Não sei por onde andaram, desconheço a razão por que voltaram, mas alegro-me um pouco, ainda que de guarda, precavido. Cuido-me, apenas, pelo incerto futuro que pode vir, outra vez desregulado e sem aviso prévio.
Há impulsos, arrependimentos, remorsos da razão irreprimíveis que desconhecem a lógica humana. Movimentos  erráticos como a arritmia do nosso imprevisível coração.

sábado, 2 de novembro de 2024

Recuperado de um moleskine (46)


Embora não de uma forma totalmente sistemática, com os amigos, há uma certa tendência, nos encontros e em conversa, para abordarmos, com cada um deles, aqueles assuntos em que são mais versados ou temos por mais  comuns entre nós.
...

Ele disse-me um dia, creio que inqueto: Se eu não o contar a ti, a quem o direi?! 
Fez-me, então, a confidência que eu, até hoje, sempre conservei em segredo.
Hoje percebo, completamente, que o problema, com o tempo, é descobrlr o interlocutor exacto de partilha e encontro mais próximo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Recuperado de um moleskine (45)



 A Matilde tem um olhar luminoso, que destrói qualquer sombra passageira e negra das proximidades. Talvez venha do sorriso que nunca lhe abandona o rosto. Deixei-lhe o que podia: um pequeno jardim zoológico composto de um cão e um gato a pedido, um elefante azul e um rinoceronte branco. A que ela juntou uma vistosa galinha avermelhada. 
Tudo em plasticina e afecto. 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Recuperado de um moleskine (44)

 

A simetria é quase sempre um fenómeno primário e consensual, enquanto a assimetria pressupõe um mínimo de ousadia e trangressão. Se a discordância obriga à incomodidade, ainda que a imaginação forneça, muitas vezes, os motivos necessários, manifestá-la só por uma vontade forte e fundamentada.

Por outro lado, há muito que não usavam esse verbo comigo. Ouvi-lo, foi reacordar outras paisagens e idades. Caminhos esquecidos, estranhos sentimentos e memórias arrefecidas, de há muito. O movimento desperto ficou a bailar, horas e horas. Vivo e novo - como se fosse pela primeira vez experimentado.

sábado, 19 de agosto de 2023

Recuperado de um moleskine (43)



Uma das regras básicas da ficção séria é trocar o nome aos sujeitos fictícios, confundindo-os.
Os terratenentes da Quinta da Estrelinha, quase sobre o Atlântico, deixaram de abrir os portões do pátio, por onde eu via, ao passar, os pavões abrir o rabo em esplendor, talvez por que as aves sumptuosas quiseram ganhar a liberdade por inteiro. Ficou-me só para ver a nesga triangular em delta, por onde eu contemplo um bocadinho de Lisboa. Hoje, que ora se descobre, por entre a neblina, a Torre de Belém, ora o Centro Champalimaud à beira Tejo, passo ao lado do quartel abandonado por onde já não tocam os clarins. Pergunto-me por onde andará o capitão César Monteiro, que fora emprateleirado depois da rendição de Goa, e que chegou a dar aulas de informação aos cadetes? Com aquele seu ar britânico de oficial retornado, mas infeliz.
No regresso, à esquerda e à direita, só nos sobram os campos já limpos de feno e as árvores esgarçadas ou caídas por terra com falta de suporte ou de água que as segure ou prenda à vida.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Recuperado de um moleskine (42)



A felicidade não existe, tal como deus, é uma benévola ficção humana. Mas há aproximações, breves, e coincidências agradáveis que agem como paliativos úteis. Ou noções muito chegadas daquilo que parece ser o bem estar físico ou mental. No fundo, um certo equilíbrio.
Cruzam-se por exemplo, no tempo contíguo, um filme inglês (Glorious 39), não tanto pelo enredo, mas pela ambiência e sensações favoráveis que trasmite (ou desperta?). Uns anos familiares, ao longe. Inesperadamente se associaram, incontroláveis em si, factores orgánicos inconscientes, mas harmoniosos.
Disto se vai fazendo crença, ausência de dor, a estabilidade humana, de vez em quando. Para prosseguir docilmente a caminhada.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Recuperado de um moleskine (41)


O passado é um tempo em que tudo parece estar no seu lugar. Arrumado na sua razão e pela sua utilidade. Penso isso, ao contrário do que escreveu o romancista inglês L. P. Hartley (1895-1972) no início da sua obra "The Go-Between" (1953): The past is a foreign country; they do things differently there.
Apercebi-me que o Fanca perdera a compostura e a segurança habituais, quando teve a informação. Perguntou-me, quando soube que eu me aboletara 3 dias por lá, titubeante, em voz baixa: e trataram-te bem? Para o sossegar, eu disse-lhe que sim, mas omiti o muito visível alzheimer do visconde, seu tio avô, que nos apareceu em pijama e robe, ao cimo das escadas de pedra exteriores do palacete, quando chegámos, e o descuido visível da senhora viscondessa com o lixo e pó interior das dependências. O turismo local da casa apalaçada deixava muito a desejar. A começar pelas torneiras, gotejantes ou perras...
A natureza, naturalmente, cuidara dos jardins, com alguma visível assimetria selvagem, mas acabei por me esquecer de referir, ao Francisco José, o aviário pequeno do jardim da frente, bem como as rolinhas diamante que me tinham enternecido, para sempre. O que, em parte, tudo desculpou das atribulações passadas...

sábado, 19 de março de 2022

Recuperado de um moleskine (40)

 

Pela infância anda tudo arrumado, excepto dois ou três brinquedos que ficaram fora da caixa.
Basta abrir, a pedido, um só dos capítulos, dar o nome do tema, mais ou menos a data do caso, a geografia do assunto. E tudo parece vir alinhavado, essencial, nítido gradualmente à memória do que hoje é apenas o pequeno caos do que será o breve futuro que se vai ajustando a ficar.
Convém, no entanto, perguntar muito - acertar o que nos vem de longe, para que tudo coincida e caiba no puzzle, sem destoar do conjunto. Se possível, cruzar ainda os pormenores com alguém próximo que, connosco, sobreviveu, afortunadamente todos estes anos que já passaram. Para uma certificação capaz.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Uso Pessoal 16



Quando eu andava por fora, em actividade própria ou profissional, a ausência de um bloco na algibeira fazia-me quase tanta falta como o esquecimento do relógio, em casa. E, muitas vezes, acabava por comprar, num quiosque ou papelaria, um novo bloco de bolso, quadriculado ou de folhas em branco. Os moleskines ficavam, domesticamente, à espera de escritas mais sérias. Que os pequenos blocos notas destinavam-se a apontamentos ligeiros ou pequenos lembretes.




Foi assim que quando a reforma chegou, e a escrita era mais de interiores, se me deparou uma bem medida dezena de blocos dos mais variados feitios e marcas, alguns semi-usados, outros quase novos em bom estado. Na imagem de cima situam-se os dois maiores (16 por 9cm.), sendo que o verde é de origem francesa e o outro, com 64 páginas, é alemão, tendo-me custado 1,99 euros.
Os três pequenos blocos da segunda imagem são todos de origem nacional.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Recuperado de um moleskine (39)



Para a despedida não havia lugares cativos no salão, mas quatro ou cinco cadeiras pareciam reservadas, por entre a famíla , na primeira fila. Três foram ainda ocupadas até à oração final, e eu presumi que as ausências restantes eram talvez simbólicas ou afectivas. Como, às vezes, pelas mesas de natal, as cadeiras vazias assinalam memórias recentes.
Lígia, pela manifesta silhueta grácil, conseguiu ainda aproximar-me da juventude e, à saída, só consegui dizer-lhe: Até sempre! Sabendo que, provável e fisicamente, seria talvez a última vez que nos cruzávamos na vida. Fixei-lhe o perfil, para memória futura, e encaminhei-me devagar para o orvalho fresco da rua. O táxi esperava-nos à porta.
Concluí, no íntimo, que ninguém sabe dizer adeus a um grande amigo. Como deveria ser.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Recuperado de um moleskine (38)

 

A grande e cómoda tranquilidade de um centro histórico citadino é que, uma vez percorrido e conhecido o seu labirinto eventual, não mais nos perderemos de futuro. Pois a sua arquitectura, arruamentos e paisagem é suposto não mais se alterarem. Até o velho castanheiro majestoso lá vai sobrevivendo através dos anos a passar, as muralhas mantêm-se e as casas vão sendo restauradas, minuciosamente, para não perderem as feições primitivas e originais. Por este terreno calcorreado é que nos vamos reconhecendo e reencontrando, num conforto grato que apenas se não conforma já com as nossas rugas e os passos mais frágeis, que o tempo não nos pode restaurar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Recuperado de um moleskine (37)

 


É sempre uma tentação voltar ao Largo, à procura do que sei já estar extinto. Por vezes o instinto é um caminho à parte, ou um atalho estranho que se impõe de nenhures. A praça quase poderia ser o centro de uma aldeia interior, no seu formato irregular e hexagonal. Duas ou três árvores despidas por Janeiro. Com vento, ouvem-se as ondas a bater no cais desmoronado, lá ao fundo. E há tudo o que poderia fazer falta numa vila pequena: farmácia, tabacaria, café, mercearia, o posto de correio... Volto à paisagem e sossego ao ver-te sorridente na fotografia da memória, embora a luz, agora, seja do Sul, limpo, e nem haja vestígios de rio ou mar pelo cenário ermo e vazio. Depois, há sempre a tentativa de atenuar ou expiar a culpa, ainda que ela nem sequer exista. Afinal, que sabemos nós da ficção que, por vezes, nos invade brutalmente a realidade de viver, seja por via da dor, da saudade ou daquilo que é irremediável? Que sirva de exorcismo o que não tem remédio... Fique a rocha bruta a brotar do rio, e as águas à nossa frente, logo pela manhã. Tudo o resto é extático, irremediável, fixo no passado, já sem história à vista.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Recuperado de um moleskine (36)


O romancista inglês L. P. Hartley (1895-1972) tem, para o seu conhecido romance The Go-Between (1953), um início soberbo: The past is a foreign country; they do things differently there. Ocorre-me uma variante banal, mas para mim verdadeira, que uso, com frequência, intimamente: o passado está quase sempre muito bem arrumado, o presente é que não. Se as gavetas de infância albergam muitas vezes uma parafernália insólita e já inútil, esse conjunto não deixa de fazer um sentido afectuoso, na memória intocada (?). E, se o presente, muitas vezes, precisa do futuro para se reorganizar, é do passado que vem uma paz resolvida e tranquila. Ruas e casas onde se instalaram os jogos felizes, os amigos fiéis, os livros inesquecíveis, os resumos fáceis e concordes, as palavras certas e amorosas de outrora. Que pareciam, agora à distância, estarem certas, harmoniosamente. Ainda que elas possam ser piedosas mentiras da memória já míope ou cansada, por lutas desgastantes e inúteis.

domingo, 23 de agosto de 2020

Dissonâncias


Roubei este velho texto à temática Recuperado de um moleskine, até porque é de um Agosto antigo. Mas também sei que, com jeito (que não é preciso ser muito domado e manso) e algum artifício, ele pode reduzir-se de uma prosa simples a uma poesia arrumada. Aí vai ela:


Troco o mar por este verde esparso
em frente, que o azul limita.
No visível movimento secam roupas
soltas, coloridas nas varandas 
de Agosto. O vento traz consigo
as esquecidas expressões abandonadas
e os corpos ausentes no de longe.

Ao descarnar os termos sobe um ritmo
apenas diferente, sincopado e lento -

dísticos humildes à espera de sentido,
palavras que se amem entre si
só para serem felizes.


domingo, 12 de julho de 2020

Recuperado de um moleskine (35)


Em tempos, creio que na última década do século XX, estive para comprar um andar no Bairro Azul. Era um quarto andar e dele se via completamente a Praça de Espanha; com algum esforço visual e de corpo, julgo que se avistava também uma nesga do Tejo, ao longe.
Eu gostava da zona, parecia-me sossegada, ampla q. b. e arejada. Ia, às vezes, visitar uns parentes, que moravam na Ramalho Ortigão, num rés-do-chão alto de divisões médias e agradáveis, e eu vinha de lá quase sempre satisfeito e bem disposto. A rua tinha ainda 2 mercearias tradicionais. E metro, perto.
El Corte Inglés ainda vinha longe, farmácia havia ao pé e a Gulbenkian não ficava distante. A IN-CM tinha, nessa altura, uma livraria (que fechou depois) à beira da Fundação. O preço do andar em vista, era convidativo, e a compra só não se concretizou, porque havia obras profundas e caras, a fazer no elevador.
Inexplicavelmente, creio que me lembrei disto, por me vir à ideia o início de Den Afrikanske Farm, de Karen Blixen (1885-1962), que viria a dar o filme Out of Africa. Que começa por esta frase singular: "Eu tive uma fazenda em África, no sopé das colinas Ngong..."
Ou terá sido por o Carlos C. e S., que morava então no Bairro Azul e que eu visitava amiudadas vezes, ter feito grande parte da sua vida profissional em Moçambique? Não sei ao certo - a memória trabalha, frequentemente, em piloto automático.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Recuperado de um moleskine (34)


Parece mais Janeiro do que Dezembro, pela laica algidez das perspectivas, mas chove miudamente ao fim do dia. E há um ralo nevoeiro que obscurece o horizonte curto da rua, à minha frente.
Será Simrockstrasse ou Inverness Terrace, na memória por cenário, em território hostil desgovernado? Pouco importa agora, de momento, à fixação escrita, do que foi real. 
As sinestesias funcionam muitas vezes por afecto. Outras vezes, a imaginação progride do desencanto ou do frio. Cá ou lá, os anos vão esgotando o possível.
Nascimento ou morte, por entre, reúnem.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Recuperado de um moleskine (33)


Dizia Eugénio de Andrade (1923-2005), a abrir um poema:

Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.

Eu acrescentaria que, apesar dos anos, os advérbios de modo são ainda, e muitas vezes, a minha perdição e a minha fraqueza. Nem sempre lhes consigo resistir ou iniciar uma abertura de hostilidades contra eles.
Os anos trazem-nos porém a consciência das nossas debilidades com que, apesar de tudo, vamos convivendo. Assim como Andorra, a Suiça e San Marino que, por não terem um exército próprio e em moldes clássicos, evitam qualquer acto bélico, para evitar incómodos posteriores.
Embora destes três países europeus me pareça que apenas San Marino, que é considerada a mais antiga república do mundo, mantenha uma estrutura de imbatível coerência. Pois a Suiça republicana, na sua neutralidade militante, fornece ao Papa mancebos para a Guarda Suiça e Andorra, considerada um principado, se deixa governar, ambígua e duplamente, pelo cristianíssimo Bispo de Urgel e pelo PR do estado mais laico da Europa: a França.
Para não abrir mais hostilidades hoje, qualquer dia falarei do Vaticano...

domingo, 23 de dezembro de 2018

Recuperado de um moleskine (32)


Nos últimos dias, impetuosamente, o Reno subiu mais 6,80 metros e o Mosela, ultrapassando-o, 9. As águas já lambem as bermas das estradas, por causa das chuvas diluvianas oriundas da Floresta Negra. Nascem pequenas ilhas irreais, aqui e ali. E a viagem, pela marginal, até parece fazer-se de barco.
Três pombas, um corvo, duas rolas nervosas e uma pêga terão sobrado da arca e procuram um lugar seco onde pousar... Um homem, no caiaque, tenta contrariar a corrente do Reno, com gestos aflitivos ou, pelo menos, desordenados. Só um grupo de patos selvagens assume, em tudo isto, uma postura  calma e quase normal.
Como eu, depois, dentro do metropolitano aquecido me encaminho, já tranquilo, para Colónia.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Recuperado de um moleskine (31)


Por aqui se começam a convocar D. João II e, sobretudo, D. Manuel I, se não quisermos ir mais longe. E para não falar do campo de teixos (o céltico ibhar ou o eburos, gaulês) que também lhe veio ao nome. Mas nós vamos em busca das sombras de Galharde, de Xavier de Matos, que se acolheu ao mecenato generoso de Cenáculo e lhe dedicou várias poesias laudatórias. E espero ter à mão, autógrafos ou não, versos manuscritos de Sá de Miranda. Que decerto lá chegaram a partir de algum dos filhos de D. João III, originalmente, e que foram passando, através dos séculos, de mão em mão, com veneração e respeito.
Como é que pelo Verão, os nossos reis a escolhiam como cidade da sua vilegiatura?, eis o que me pergunto. Sem resposta lógica e suficiente para a minha curiosidade. Mas a cidade acolhe bem, quem venha, e é sempre muito bonita...



Nota: em imagem, apontamentos parciais e pessoais que levei, numa das primeiras visitas que lá fiz.