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quinta-feira, 13 de junho de 2024

Um quadro

 

De Lisboa ou de Pádua, a iconografia antoniana é vastíssima. De El Greco a Josefa de Óbidos, passando por Giotto, a representação de Santo António (1195-1231) evolui por vários estádios e figuras, quase todas elas através de silhuetas  corporais elegantes e traços de rosto finos e nobres, etéreos.
Mas se me fora dado escolher apenas um quadro, eu não hesitaria em preferir a pintura do português Gregório Lopes (1490-1555) do acervo do MNAA, de que se guarda uma réplica no Museu Antoniano, junto à Sé de Lisboa. Pelo seu aparente realismo e humanidade.

domingo, 16 de abril de 2023

Uma boa notícia



Ainda que carecendo da garantia de confirmação da autoria, por parte de peritos na matéria, é uma boa nova saber-se da provável existência, nas reservas do MNAA, de uma obra de Georges de La Tour (1593-1652), pintor francês muito apreciado também pelo poeta René Char. O tema é a representação de S. Gregório, papa.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Pinacoteca Pessoal 186


Sendo recorrente, nunca será banal uma referência aos Painéis do Infante ou Políptico de S. Vicente de Fora (1445?-1470?), de Nuno Gonçalves. Se a representação de grande parte da pintura nacional ou estrangeira acaba por entrar numa normalidade da memória visual de cada indivíduo, esta obra-prima portuguesa suscita, de cada vez que a observamos, uma nova e inevitável curiosidade. Até por alguns mistérios insolúveis que encerra. 



Eu ousaria afirmar que estes painéis, guardados no MNAA, estão, em importância cultural, para a pintura portuguesa, tal como Os Lusíadas, de Luís de Camões, estão para a literatura nacional. E com uma igual importância matricial.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Recta final


Até 15 de Março, no MNAA, poderá ainda ser vista esta esplêndida exposição de Álvaro Pires de Évora, pintor português que exerceu o seu mester, sobretudo em Itália, no século XV.
Finamente pensada e com um magnífico acervo luso-italiano, os únicos senãos situam-se em alguma mal localizada iluminação de algumas obras e a má geografia de parte das legendas.
O catálogo, embora caro (29 euros), é magnífico e conta com alguns estudos competentes de historiadores de arte italianos e também de portugueses.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A cultura do placebo


Tenho vindo a assistir nos últimos anos, e com crescente inquietação, aos esforços e contorcionismos patéticos de muitos agentes culturais, no sentido de tornar acessível e mais apetecível às grandes camadas populares o gosto pela Cultura.
Na maior parte dos casos, isso passa por uma infantilização dos motivos e algumas vezes até por caricaturizar obras de arte que deveriam merecer algum respeito. Em vez dos esforços se concentrarem no desenvolvimento, para todos, do sentido estético e do gosto cultural, esta forma pífia de delicadeza da democracia contribui apenas para o aumento da barbárie - que Steiner refere.
O último anúncio do MNAA, fala por si...

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Não só, mas também


O lado mais popular, e efémero, da visita breve do papa Francisco a Fátima, fez esquecer e obscureceu alguns aspectos secundários que foram propiciados por essa visita, e cuja importância ainda se pode avaliar e fruir.
Falou-se pouco, ou quase nada, das obras de arte que acompanharam a visita pontifícia, vindas dos Museus do Vaticano, e que enobrecem, temporária mas grandemente, duas exposições de Lisboa, que ainda podem ser vistas. Uma, de que aqui já falámos, na galeria de exposições da Igreja de S. Roque, a propósito do pentacentenário do Compromisso da Misericórdia (1516); outra, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), sob o título ou temática: Madonna.
Visitámos, hoje, esta última mostra. E se a surpresa de encontrar um pequeno Chagall inesperado, vindo dos Museus do Vaticano, me deslumbrou, não fiquei indiferente à cópia da Pietá de Miguel Ângelo, ou às pequenas tábuas de Rafael Sanzio. E pude assim rever, também, o único Da Vinci, nas terras portuguesas, esse, vindo do Porto, da sua Faculdade de Belas-Artes, que muito raramente é exposto, por razões óbvias. E que, se calhar, muito pouca gente conhece...


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A queda do anjo


Um desastrado turista brasileiro, em busca de um melhor ângulo fotográfico, no MNAA, ontem, ao recuar fez cair uma preciosa escultura do séc. XVIII, representando S. Miguel. Sendo de madeira, policromada, embora bastante danificada pode vir a ser recuperada, mediante um restauro competente.
Assisti a uma situação parecida, era criança, no Museu Soares dos Reis (Porto), pelos anos cinquenta do século passado. Um rapaz turbulento e buliçoso, em correria desenfreada, deitou abaixo, partindo, o braço direito de Ismael, da bela escultura de  Augusto Santo (1868-1907). Felizmente, era a cópia de gesso...
Na altura, ficaram com o nome dos pais da criança, que não sei se vieram a pagar o restauro. Seria moralizador e um bom exemplo, que o adulto brasuca viesse a pagar o estrago que causou, para aprender a saber andar pelos museus, com mais atenção...


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Uma louvável iniciativa (43)


Uma das obras mais emblemáticas de António Domingos Sequeira (1768-1837), A Adoração dos Magos (1828), proveniente da Casa Palmela, encontra-se à venda, por 600.000 euros. A sua integração no acervo do MNAA, engrandeceria significativamente o património nacional.
Em boa hora, o director do Museu Nacional de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, decidiu promover uma campanha mecenática nacional, durante 6 meses, para conseguir reunir o montante necessário para aquisição da obra. Todos os portugueses, com alguns meios, estão convocados!
Nós já contribuimos.

em geminação com MR, no seu Prosimetron.

domingo, 2 de novembro de 2014

As palavras do dia (5)


Não é pelo preço dos bilhetes que os portugueses não consomem cultura - não o fazem porque não são cultos.

António F. Pimentel (1960?), director do MNAA, ao jornal Público (2/11/2014).

domingo, 18 de maio de 2014

Dia Internacional dos Museus : dos fumos da Índia (ex-portuguesa)

Esta exposição (Esplendores do Oriente - Jóias de Ouro da antiga Goa) foi inaugurada a 16 de Abril e poderá ser vista no MNAA, até 7 de Setembro de 2014. O vídeo é suficientemente elucidativo sobre a sua importância. Fica a recomendação.

com os melhores agradecimentos a AVP.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Favoritos LXXXVIII : Sequeira


Passa hoje mais um aniversário sobre o nascimento de Domingos Sequeira (1768-1837). Dos antigos pintores portugueses, é um dos que mais admiro. E aprecio, especialmente, os dois tipos de tratamento que ele usa, quase sempre: nos temas religiosos, a fantasmática e imprecisa luminosidade, de contornos esbatidos; nos retratos humanos, a nitidez realista e o traço bem definido.
Lembro-o através do Auto-retrato (1820-27), que pertence ao acervo do MNAA.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Marcadores 15


Mais dois marcadores de livros, estes alusivos à exposição do MNAA, em curso. Ao alto, pormenor de "Paisagem de neve com armadilha para pássaros" (1601), de Pietr Brueghel, o Jovem; em posição horizontal, detalhe da tela "A Vida Campestre" (1620-22), de Jan Brueghel, o Velho. Ambas as pinturas pertencentes ao Museu do Prado.

com agradecimentos a H. N..

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Pinacoteca Pessoal 50


Separadas, na sua execução artística, por cerca de 30 anos, mas já feitas na primeira metade do séc. XVI, estiveram expostas, lado a lado, no MNAA (24/1 a 28/4/13), duas obras de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), integradas na temática "Obra Convidada", iniciativa recente, e inspirada, do Museu das Janelas Verdes. O quadro mais antigo, "Judite e Holofernes", veio emprestado do Metropolitan Museum of Art, a que se lhe juntou "Salomé e S. João Baptista" do acervo próprio do MNAA.
De comum, o Pintor, e uma cabeça decepada, no primeiro, do general assírio; no segundo quadro, do precursor de Cristo. A expressão de morte é semelhante, o que é diferente são as expressões de Vida. Judite expressa a perversidade (recorrente em Cranach, muitas vezes) adolescente, enquanto Salomé espelha uma fria sedução de maturidade; lábios finos, na primeira, lábios carnudos, na segunda, por exemplo.
Lembrei-me, por associação, de Sandro Botticelli (1445-1510) e do seu quadro dos Uffizi, intitulado "O regresso de Judite", que terá sido pintado, anteriormente, por volta de 1484, no séc. XV, portanto. A expressão é toda outra. Atrevo-me a defini-la como de melancolia. Um adeus à Juventude? O conhecimento da Morte? Há, seja como for, um olhar para trás (como se pode ver na imagem), talvez sereno. Mas quase triste.

domingo, 10 de março de 2013

Lembrar Sequeira


Domingos António Sequeira nasceu, precisamente, há 245 anos, em Belém (Lisboa), a 10 de Março.
O quadro, em imagem, que se guarda no MNAA, sendo dos menos conhecidos do Pintor, foi pintado em 1809 e tem uma história curiosa. Retrata o grande amigo João Baptista Verde e sua irmã, Mariana Benedita Vitória, que viria a casar com Sequeira. Ao fundo, do lado esquerdo, há um auto-retrato do artista.
Domingos Sequeira, após a derrota dos franceses, foi preso, acusado de colaboracionista. E o amigo Verde nunca o abandonou, e até o defendeu das acusações. A pintura é, por isso, também, o testemunho da gratidão e amizade que sempre os uniu.

Obsv.: não sei se João Baptista Verde pertenceria, ainda, à família ascendente do poeta Cesário Verde.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Pinacoteca Pessoal 8 : Lucas Cranach, o Velho


É um dos pintores renascentistas alemães preferidos por mim. Nascido por volta de 1470 (1472?), Lucas Sonder ou Lucas Cranach, o Velho, veio a falecer em 1553. Pertencia a uma família de pintores e o seu filho veio, também, a seguir a mesma carreira. Lucas Cranach passou grande parte da sua vida em Wittenberg sobre o Elba, mas o seu apelido (Cranach) terá vindo provavelmente, por deturpação, do local de nascimento: Kronach. Foi pintor oficial da corte do Eleitor da Saxónia, e amigo de Lutero, de quem fez vários retratos.

A sua pintura alguma coisa deve a Dürer e Grünewald. Mas o traço das suas mulheres jovens, esguias e elegantes, é inconfundível. A pele evanescente, os olhos amendoados, os rostos cuja expressão espelha malícia, se não perversidade, ou determinação, são a sua marca de água mais evidente.

Talvez a "Salomé" das Janelas Verdes (MNAA), seja o quadro que prefiro, de Lucas Cranach, mas já consta do arquivo do Arpose (19/7/2010). Por isso optei por esta "Vénus e Cupido" que se guarda num Museu de Berlim.

para H. N., pela atenta Amizade, e com gratidão.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Recomendado : onze - Janelas Verdes


O nome só por si, e para mim, é estimulante. Depois, vem-me à ideia António Nobre, e Lucas Cranach mais a sua "Salomé", do Museu, que agora (e hoje) eu pensava rever, mas foi emprestado, temporariamente, à Galeria Borghese, de Roma - fica para outra vez.

Por esta rua das Janelas Verdes andou o poeta do "Só", em via sacra, como o "Ecce Homo", quando já não era benquisto, por questões de saúde (tuberculose), noutras hospedarias de Lisboa, Belas e arredores. A "York-House" albergou-o, algum tempo, nesta mesma rua que teria verdes janelas. Quanto a mim, comi lá, há uns anos, uma magnífica Perdiz de Escabeche, bem acasalada com um duriense "Quinta de la Rosa", tinto, que estava no ponto - fica registado.

Mas o cerne da questão, aviso e conselho, é a exposição "Os Primitivos Portugueses" que encerrará dentro de 8 dias: não percam, recomendo. A mostra bisa, para melhor (creio) a homónima que se fez em 1940. Chamo a atenção especialmente para uma "Virgem da Anunciação", do Mestre da Lourinhã, com um leito rubro, no poscénio, que é um espanto. A Virgem parece nórdica, curiosamente. Também, a soberba simetria agressiva do "Martírio de S. Sebastião", de Gregório Lopes, para rever. E, "last but not the least", a novidade, em Portugal, da "Virgem com o Menino e Anjos" de Álvaro Pires de Évora, que o Museo Nazionale di San Matteo (Pisa) emprestou ao Museu Nacional de Arte Antiga, amavelmente. É também aconselhável reapreciar algumas obras, estimáveis, de Frei Carlos, no meu entender.

Pois é, "Os Primitivos Portugueses" só ficam até 27 de Fevereiro de 2011, nas Janelas Verdes. Relembro, e recomendo. E, se o orçamento o permitir, porque não uma perdiz, bem cozinhada, na "York-House"? Fica perto do Museu, e é na mesma rua. Gastronomia também é Cultura.