Mostrar mensagens com a etiqueta Mértola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mértola. Mostrar todas as mensagens

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mercearias Finas 95


A receita é de Mértola. Ou, melhor, do outro lado do Guadiana, no restaurante "Casa Amarela", onde a provámos pela primeira vez. E ficámos deliciados. Até pela rica singeleza aromática que vinha da terrina, onde a serviram.
A maturação tem de ser lentíssima: hora e meia a duas horas. Num pequeno estrugido de azeite e cebola, afogado, a tempo, em água pura, deitam-se alguns nacos de borrego, consoante os participantes, temperados apenas com sal e pimenta. Este (ensopado) "Borrego à pastora" só pede mais duas coisas: paciência e tempo. Que as ovelhas vão cirandando, à volta, entretanto. A cuidada e vagarosa maceração, a fogo lento, dá-lhe toda a tenrura possível. Duas horas passadas, deitar no tacho algumas folhas de hortelã. Nos pratos individuais já servidos, albarda-se, então, com fatias finas de bom pão alentejano, para acompanhar.
À falta de um regional da zona, escolha-se um tinto robusto. O nosso foi, hoje, um Douro Caldas, de 2008, do bom artífice que sempre foi, e é, Domingos Alves de Sousa.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Confiar ou desconfiar da Wikipédia?


A Wikipédia explica, a propósito de azulejos, que "corda-seca" é uma técnica "do final do século XV e início do XVI em que a separação das cores ou motivos decorativos é feita abrindo sulcos na peça que, preenchidos com uma mistura de óleo de linhaça, manganés e matéria gorda, evitam que haja mistura de cores (hidro-solúveis) durante a aplicação e a cozedura."
Ora, as imagens que deixo reproduzidas, a encimar o poste, são de objectos de uso doméstico de cerâmica de corda seca, mouriscos provavelmente, que se encontram no Museu de Mértola e foram datados, por especialistas, do século XII. Confio mais nos arqueólogos do Campo Arqueológico de Mértola, do que nos informes anónimos da Wikipédia. Que, neste caso concreto da técnica de corda seca, se terão atrasado cerca de três séculos...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Em louvor de Mértola


Com propriedade geográfica e histórica cronológica, eu poderia dizer que fui conhecendo Portugal, de forma quase clássica. Se Évora se atravessou no meu caminho nos anos 60, só em 1975 atingi o Algarve. Mas só em 1976 visitei Mértola, que logo me encantou. Era ainda um pequena vila, quase abandonada, não ganhara espaço na agenda arqueológica e turística que, mais tarde, Cláudio Torres lhe viria a dar, num amor sem freio de dedicação e vida. Porque essa alcantilada terra alentejana, confluência de tantos interesses e culturas mediterrânicos (e vestígios indeléveis fenícios, gregos, romanos, árabes e, finalmente, portugueses), merecia-o. Dessa primeira visita, em 1976, recordo nítida uma ânfora (romana?) enorme, a frescura de um pátio interior, num Agosto inóspito, e um insólito quintal duplex e alcantilado, em dois patamares, alto sobre um Guadiana exíguo. 
Lá voltei, anos mais tarde, roído de saudades, para estadia mais demorada em casa modesta de turismo rural, com cozinha gigantesca enxameada de compotas campestres, para barrar o pão honesto do pequeno almoço, sobre o rio. Devia ser Junho, e o mês portou-se bem, equilibrado em temperaturas. Do outro lado, no "Casa Amarela", ficou-me no goto e na memória gustativa, um "Borrêgo à Pastora", rústico e simples, com aromas suavíssimos de ervas desconhecidas e mágicas de mouras encantadas. Uma selvagem perdiz estufada a preceito, uma mugem ribeirinha e fresca que trouxemos. Mas também as muralhas, os vestígios da História, que vimos, um lindo tapete de lã artesanal e a simpatia das gentes da vetusta Myrtilis. Tudo estava mais bonito e continuava despretencioso e simples.
Nunca fui a Cancun, nem à Praia das Galinhas, nem à cosmopolita Nova Iorque, para me gabar aos colegas de trabalho, depois das férias, em Setembro ou Outubro. Nem irei. De Portugal, e das cidades antigas, creio que só me falta conhecer Pinhel - digo-o com pena, porque nunca lá estive. Mas aos que não conheçam, recomendo Mértola, vivamente. No Alentejo e sobre o Guadiana. 

para H. N., cordialmente.

domingo, 20 de maio de 2012

Especialização


O episódio conta-se em poucas palavras, mas ilustra bem os malefícios de uma excessiva especialização que perde de vista, muitas vezes, os mínimos sinais concretos de outras áreas e, sobretudo, da vida real. A história foi referida pelo historiador Cláudio Torres que, em 1991, recebeu o Prémio Pessoa, e que, mediante um trabalho aturado e consistente, pôs a bonita cidade de Mértola, no mapa da arqueologia e na agenda histórica de Portugal.
Contava ele que dois arqueólogos americanos, vindos de Los Angeles, que colaboravam nas escavações, em Mértola, lhe apareceram, um dia, todos lampeiros com 2 saquinhos de plástico, assépticos e muito bem fechados, contendo umas bolinhas pequenas, pedindo a Cláudio Torres que tentasse identificar estes "achados arqueológicos". Os portugueses, à volta, fartaram-se de rir: eram, simplesmente, caganitas de ovelha...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quarto crescente


O crescente lunar lembra-me sempre Mértola, por variadas razões. Mas só hoje reparei que a Lua está a nascer quase a Sul e, por isso, não a via, da varanda a leste. Foi preciso caminhar, por onde outrora uma mata densa, de uma Quinta antiga, crescia - hoje urbanizada -, para vê-la, magnífica no seu Quarto crescente. O luar dava para ver as oliveiras sobreviventes já podadas, o aloendro ainda florido, a relva recém-cortada. Mas onde íamos, não fomos: era o dia de folga.
Há sítios de nenhures, nos subúrbios, onde nascem oásis inesperados. Onde estamos, como podíamos estar em Düsseldorf, numa esplanada sobre os canais de Leyden a ver cumprir as praxes sobre os caloiros da Universidade. Numa pequena casa de chá de Kew Gardens. Ou num pátio interior de Antuérpia, a descascar mariscos do Mar do Norte, bebendo um "Riesling", em jubilosa amenidade e fraterna companhia. Em volta, apenas um rumor em "sotto voce", a música ambiente bem timbrada, mas discreta, que acorda as nossas palavras íntimas. E as crianças, não uivantes, se entretêm à volta, harmoniosas, sem gritos estridentes.
Dizer que estamos a 4 quilómetros da Las Vegas suburbana, ninguém entenderia. Eu próprio tenho dificuldade em acreditar. Não decorei o nome do café-restaurante-esplanada. Nem isso importa muito. Sei onde é. Mas chamemos-lhe, simbolicamente: Oásis. Ou de uma forma mais simples - Europa.