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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Esquecidos (14)



Ouvi, ao vivo, pela primeira vez João José Cochofel (1919-1982) em Coimbra, no início dos anos 60, num colóquio promovido pela AAC, mas na qualidade de ensaísta. Como poeta, foi Mário Castrim (1920-2002) quem me chamou a atenção para o belo início do poema Quasi um epigrama:

Adolescentes que vão pelos caminhos,
tão seguros de si
e tão sòzinhos!
(...)

Lírico discreto, Cochofel, em poemas minimalistas de singular sensibilidade, teve alguma projeção, bem merecida, enquanto foi vivo, mas hoje, infelizmente, está muito esquecido.
Aqui deixo a imagem de uma dedicatória do seu livro Quatro Andamentos (1966) e ainda um poema dessa obra, do meu exemplar que tinha sido oferecido e pertencera, anteriormente, a Urbano Tavares Rodrigues e Mª Judite de Carvalho.



XIII

Canta, ó amargura,
grilo fértil do tempo.
Canta sem cessar
pela noite dentro.

Não fere os ouvidos,
cantiguinha mansa.
Rói na clausura
a alface da esperança.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Muito pior do que no tempo da velha senhora...


Nessa altura, o que nos valia era o Mário Castrim (1920-2002) e outros críticos atentos da televisão.
Hoje em dia, a determinadas horas, nas tv, mesmo em zapping, é praticamente impossível não nos cruzarmos com a indigência mental dos malatos, dos baiões, das júlias pegas ou dos gouchas liberace, numa chunguice pegajosa e achinelada geral.
O que diz muito sobre quem dirige estas inefáveis estações televisivas portuguesas.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Memória 136


Ainda bem que o jornal Público, de hoje, pela voz escrita do jornalista Viriato Teles, nos lembra Mário Castrim (1920-2002), na véspera do dia de centenário do seu nascimento.
Ao contrário do que pensava quem não o conhecesse pessoalmente, a imagem que dele passava era a de um intransigente agressivo, pelas suas diárias críticas de televisão.
Nada mais errado. No contacto directo, era um homem afabilíssimo, sabia ouvir, flexível nas coisas que não pertenciam ao núcleo duro daquilo que eram as suas convicções mais íntimas e profundas.
E, na sua simplicidade, cultura, sentido crítico apurado era, também, um grande pedagogo. Que faz muita falta, sobretudo hoje, em que estas qualidades ou virtudes são inexistentes ou residuais...


Um abraço amigo à Alice, se por aqui passar, por mero acaso.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Gurus


Trouxe ontem, quase em jeito de bónus quanto a preço, do meu alfarrabista de referência, juntamente com Ulisses, de Joyce, um número duplo (69/70) de O tempo e o modo dedicado a António Sérgio (1883-1969), com ampla colaboração de destacados intelectuais portugueses da altura (Março/Abril de 1969). O número é o primeiro dirigido por Bénard da Costa, que sucedeu a António Alçada Baptista, e reflecte já algumas vozes dissonantes (Arnaldo de Matos, por exemplo), no conteúdo, que, com o tempo, viriam a provocar uma deriva ideológica e resultar, mais tarde, na desaparição, pura e simples, desta revista, que foi de referência na vida intelectual portuguesa.
A minha geração, no geral creio, foi já pouco influenciada pelo método de pensar de António Sérgio, que foi decisivo para as duas gerações anteriores. Lembro-me bem que Mário Castrim, sempre que pronunciava o nome do ensaísta, o fazia com excessivo respeito e reverência. Mas eu li poucos livros do pensador português. Este número, que comprei, de O tempo e modo, reflecte à saciedade a diversidade ideológica dos seguidores deste maître à penser português. Do sucinto depoimento de Jorge de Sena, ao embrulhado artigo de Vasco Pulido Valente, há de tudo, quanto a qualidade. Do barroquismo erudito de Joel Serrão até à meridiana clareza do texto de Oliveira Marques.
Deste último colho o conselho, e hei-de ler, sem falta, a Introdução Geográfica à História de Portugal, que o historiador recomenda, elogiosamente.

domingo, 2 de abril de 2017

Yevtushenko


Faleceu, ontem (1/4/2017), o poeta russo Yevgueni Yevtushenko que, sovieticamente, tinha nascido a 18 de Julho de 1932, na então U. R. S. S..
A poesia panfletária ou, melhor dizendo, comprometida, tem a virtualidade de arrastar emocionalmente todos aqueles que estão predispostos a aceitá-la a priori, do ponto de vista ideológico, lendo ou ouvindo a sua mensagem, sobretudo, em anos de extrema juventude. E, se for bem dita, o milagre ainda é maior: uma espécie de Fátima poética, superior e transcendente. Estou a lembrar-me do nosso grande diseur, da sua própria obra, Ary dos Santos.
Eu creio, criticamente, que Yevtushenko não era um poeta maior, mas tinha carisma e muita qualidade na sua declamação. Teatral e emotiva.  
Tive oportunidade de o ver e ouvir no Teatro Capitólio (Lisboa), ao vivo, em 1967, graças a um convite e insistência amiga de Mário Castrim. Babi Yar e a " Entre a cidade Sim e a cidade Não" (?), não conhecendo eu a língua russa, eram um milagre litúrgico, ditos por ele. Fiquei convertido. Nunca cheguei, no entanto, a perceber como ele conseguia ser o embaixador literário da U. R. S. S. e sair do país dos sovietes, naquela altura. Mas também, apresentado que foi por Fernando Assis Pacheco, nunca entendi como é que ele conseguiu entrar em Portugal, nesses tempos estadonovistas...
Seja como for, tão cedo, não irei esquecê-lo.

domingo, 9 de agosto de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Bibliofilia 119


A plaquete é singela, modesta, e teve uma tiragem, em 1977, de 10.000 exemplares. São 11 poemas de circunstância e engajados (coisa que hoje já não se usa...), mas eu nunca tinha visto este opúsculo de Mário Castrim (1920-2002). Pessoa, para mim, de grata memória, e de quem me recordo muito bem.
E, pelo preço que me pediram, seria um crime deixar a plaquete na estante do Alfarrabista. Além disso, tem dedicatória manuscrita, do Autor. O que não é coisa pouca...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Divagações 60


Dizia Fernando Pessoa, por palavras mais nobres, que a metafísica era uma consequência de estar mal disposto. Como alguém, que eu não recordo (mas citado por Mário Castrim), afirmava que a felicidade não tem história. É provável, também, que esta época natalícia nos aconchegue, para lá do que seria realista e concebível, nos torne benevolentes, atentos e solidários para com o próximo. E nos crie uma temporária tranquilidade interior. Sobretudo, se não tivermos frio e não andarmos à chuva...
Mas, sejamos justos, o Cozido à Portuguesa estava à maneira: generoso em variedade, sápido no sabor. O heterodoxo branco, Monte das Servas, escolha 2010 (Antão Vaz, Roupeiro, Viognier...), era óptimo e portou-se bem, na sua casticidade alentejana. A companhia não podia ser melhor, nem a conversa mais agradável. Tudo isso conta e ajuda muito. Mesmo que a gente chegue à noite, sem nada para dizer. Ou, quando muito, apenas informar que a NSA nos visitou, hoje, mais uma vez (California, Simi Valley - 199. 30. 20); e que já vai em 79 o número de visitantes ao poste sobre os Mexidos Vimaranenses... 

domingo, 6 de novembro de 2011

Retratos (5) : M. Castrim


Não era alto, mas entroncado e de aspecto sólido. Óculos grossos, botas normalmente, e um sorriso ligeiro e amigável sempre a despontar nos lábios. Sabia ouvir. Nascera em Ílhavo a 31 de Julho de 1920, e eu sempre me dei bem com os nativos de Leão. O Mário (pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca) claudicava de uma das pernas - sequela de uma tuberculose óssea durante a adolescência -, e apoiava-se  numa pequena bengala, ao andar. Conheci-o em 1964 ou 1965. A minha memória obstina-se em situar, alguns dos nossos encontros, no Calhariz, ou porque ele viesse do elevador da Bica, ou porque se tivesse apeado do 28. Mas seriam coincidências a mais... No entanto ele dava aulas na Escola Ferreira Borges, e o local faz algum sentido.
De qualquer forma, percorremos ambos, algumas vezes, a Rua Luz Soriano, até chegarmos ao DL. Depois, com vagar, subíamos as escadas, até à sala do DL-Juvenil. Frequentemente nos cruzamos com o F. Assis Pacheco, a descer. As reuniões eram à segunda-feira, de tarde, e foram muitas vezes encontros angustiosos, porque a Censura tinha cortado quase tudo das provas do "Juvenil", que lhe eram mandadas previamente para o "nihil obstat". E, nestes casos, havia que seleccionar segundas escolhas (textos, poemas...) para que as páginas não ficassem vazias, no dia seguinte. De uma vez, foi um texto meu, inócuo, que foi riscado integralmente pela Censura, só porque tinha, em epígrafe, uma frase (ou verso?) de Sophia Andresen.
O Mário era de uma afabilidade extrema e ninguém o poderia imaginar, se o conhecesse apenas dos textos contundentes e aguerridos, que escrevia no "Diário de Lisboa", de crítica à televisão. No "Juvenil" houve, muitas vezes, reuniões tumultuosas lideradas pelo Nuno Rebocho, que se opunha à sábia moderação do Mário. O Nuno, em tenra juventude, literariamente queria atacar e destruir o regime (Estado Novo) através da poesia. Grande parte dos seus poemas, berrantemente, se intitulavam "Manifesto (I, II, III...)" e, aí, o Mário, paciente, prudente e moderado, procurava conter, racionalmente, a ira adolescente do Rebocho.
Eramos tratados por "amigos", na sua voz bem timbrada, suave e afável, que nunca se alterava. E, na sua justa medida, o Mário era um verdadeiro chefe, na tribo. E foi assim até 1968, quando fui para a tropa.
Ao Mário, foram chegando, primeiro a Alice. Depois, a Catarina e o André. Depois, a morte, em 2002.

domingo, 5 de junho de 2011

Juvenília (11, Addenda) : A Guerra dos 6 dias

O Conflito Israelo-Árabe continua activo. De outra forma, mas com os contornos bélicos que, há 44 anos, se iniciou a chamada Guerra dos 6 dias, entre Israel, o Egipto e a Síria. Eu tinha lido a notícia no jornal da manhã e, à tarde, no autocarro que me levava das Avenidas Novas para os Restauradores, uma lenga-lenga começou a nascer-me na cabeça. Estava viva também a Guerra do Vietname. E, muito mais próxima, a Guerra Portuguesa de África que me dizia respeito, e à minha geração. São coisas que se não esquecem...
Três semanas depois, Mário Castrim achou que o poema Cântico de Paz merecia a honra de figurar na primeira página do DL-Juvenil. Foi assim publicado no jornal, a 27 de Junho de 1967. Mas a Guerra continua... 


terça-feira, 8 de junho de 2010

Alfarrabistas e Bibliotecas


Por diversas vezes me aconteceu que, ao entrar num dos alfarrabistas que mais frequento, se me deparasse uma biblioteca, quase intacta, que B. T. tinha comprado e acabado de expor à venda. Para lá do sentimento piedoso que, às vezes me assalta, misturado com alguma estranha nostalgia há, também, em mim, a exaltação da descoberta e procura. E, em grande parte dos casos, posso surpreender os gostos, preferências e obsessões do anterior proprietário. Outras vezes verifico que os livros dessa ou de outras bibliotecas foram apenas "ferramentas" de trabalho de algum estudioso, ou mera ostentação de luxo por algumas excelentes encadernações feitas em livros de medíocre conteúdo, ou mínimo valor.
De uma das vezes que dei com uma biblioteca, quase intacta, nesse tal alfarrabista, verifiquei, pelo ex-libris, que tinha pertencido a um acervo que me fora familiar nos anos 80, e que eu tinha consultado com vagar e à vontade. A família, por motivos diversos e talvez partilhas, alienara toda essa biblioteca que, não sendo de livros raros, era pelo menos ampla e bem escolhida. Desses volumes comprei apenas um livro ("A Travessia da Antárctica" de Sir Vivian Fuchs e Sir Edmund Hillary) como recordação afectuosa do falecido proprietário que eu estimava e me estimava. É a vida...
Muito recentemente, deparou-se-me uma biblioteca com um núcleo duro composto essencialmente por literatura espanhola, nesse alfarrabista de que falei acima. O dono, já falecido - vim a saber - tinha sido professor universitário. Acarinhara os livros, mimara-os, encapara-os com papel cristal; embora manuseados e, por vezes, com pequenas e leves anotações a lápis, os volumes encontravam-se em magnificas condições de conservação. No entanto, para lá do importante acervo de autores espanhóis, havia também um pequeno núcleo, muito seleccionado, de escritores franceses. Um dos autores mais representado era Louise Labé (1522?-1566), poetisa da Renascença, nascida em Lyon, e também conhecida por "la Belle Cordière"(por causa da profissão do pai), ou ainda por "la Belle Lyonnaise", pela sua origem. Em qualquer dos casos, o adjectivo (Belle) mantivera-se, o que quer dizer que teria sido uma mulher formosa. Há muitos anos atrás (1963?, 1964?), Mário Castrim tinha-me falado desta mulher culta, femininista "avant la lettre" que tivera grande projecção e nome na Renascença Francesa. Por isso, e porque nunca tinha lido nada de Louise Labé, acabei por adquirir três volumes sobre ela e a sua obra. Não me entusiamou muito - devo confessar - a leitura um pouco dispersa que fiz na altura. Mas ontem, num pequeno intervalo de tarefas e para gastar o tempo, comecei a folhear, displicentemente, um dos volumes de poesia da escritora. De repente deparei com uma quintilha que me surpreendeu e agradou. Vou traduzir, então, esses cinco versos de Louise Labé:

Eu vivo, morro, ardo e me aborreço...
Vida p'ra mim, suave ou muito dura...
Tanto me rio como logo choro...
Meu bem se vai embora e nunca dura...
Ora me apago, ora reverdeço...

P. S.: para c. a., que também gosta de livros.