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quarta-feira, 26 de março de 2025

Uma louvável iniciativa 66

 

Se a pequena tiragem original de 200 exemplares de O Livro de Cesário Verde, editado pelo seu amigo Silva Pinto, em 1887, justifica a rareza e preço da obra em leilões e nos alfarrarrabistas, alguns autores e obras, no século passado, ganharam o favor bibliófilo insólito de raridades, e ainda hoje são caros, sem razão aparente. Estão neste caso, alguns dos livros de Herberto Helder e de Luiz Pacheco.
O jornal Público deu a notícia agradável, ontem: um coleccionador entusiasta, embora discreto e anónimo, promoveu com o patrocínio da Livraria Buchholz, uma exposição que abrange toda a obra editada de Herberto Helder (1930-2015)., totalizando 60 títulos. A mostra pode ser visitada até 21 de Maio de 2025.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Osmose 138

 

As perspectivas de quem vê ou aprecia estão pré-definidas, não no objecto, mas no sujeito.
Seja uma colina, um livro, um quadro, o observador traz já consigo as condicionantes próprias.
Calhou acidentalmente eu ler, com pouco intervalo de tempo, apreciações de duas pessoas sobre o Diário de Miguel Torga (1907-1995). Luiz Pacheco e o embaixador Marcello Mathias, se não têm opiniões opostas, apenas coincidem num certo respeito literário pelo memorialista. Enquanto o diplomata é francamente elogioso ("Porque Torga procura, a cada momento, desvendar a autenticidade que o define, incluindo a sua própria identidade cultural como português no contexto que lhe foi dado viver."), Pacheco prefere desmontar a pose e artifícios de Torga, ainda que usando de alguma complacência simpática de colega das letras.

sábado, 7 de setembro de 2024

Do que fui lendo por aí... 65



Com a habitual franqueza crua e desapiedada escrita, assim se pronuncia, a páginas 43 do Diário Selvagem, Luiz Pacheco (1925-2008) sobre os diários que ia lendo:

"Destes diários que li nas últimas semanas o mais aprazível foi o da BEATRIZ COSTA. Não é uma literata. Decerto não está à espera do prémio Nobel porque não se considera escritora. Mas Sem Papas na Língua tão-pouco revela travões na escrita. Fala de si, da sua vida, dos seus amantes com ALEGRIA.
Não é um engasgado, estilo Vergílio Ferreira. Ou um tipo que parece estar sempre com dores de barriga, enjoadinho, como o Alçada Baptista (terei de reler a Peregrinação Interior II deste, de que gostei muito na altura e ler a I que não me cheirou quando saiu). A Beatrizinha bate-os a todos. É ela. Fez melhor que o Solnado, o qual encarregou uma fulana de escrever. É ela."

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Bibliofilia 215



Poderá parecer um exagero, talvez, da minha parte, eu integrar nesta temática uma obra saída ainda no presente ano. Mas o livro, póstumo, tem todos os condimentos para se tornar invulgar. Este Diário Selvagem, do pícaro Luiz Pacheco (1925-2008), teve uma tiragem reduzida de 300 exemplares, publicados pela editora Língua Morta, em Janeiro de 2024, que logo se esgotaram. Só quase por milagre o consegui comprar, muito recentemente.
Por outro lado o autor, escritor singular e iconoclasta, produziu alguns livros no passado que se tornaram raros pelas peripécias que rodearam a sua publicação ou comercialização.

domingo, 1 de maio de 2022

Ora, aqui há 60 anos...



... Contava  Luiz Pacheco (no blogue Esplanar, e posteriormente no livro O Crocodilo que voa: entrevistas a Luiz Pacheco, de João Pedro George [Tinta da China, pgs. 214/5] o seguinte:

"Era um 1º de Maio (1962). Havia uma manifestação muito grande em Lisboa... havia greve, talvez... opá houve mortos e tudo, houve polícias que foram parar dentro do lago do Rossio... aquilo foi a sério... foi a primeira manifestação a sério que houve em Lisboa... foi a primeira vez que apareceram carros de água com metilene para marcar as pessoas, tinta que não saía... eles aí apanharam muita porrada, na rua da Madalena, no Largo da Anunciada... então a malta do Gelo, estava lá o Virgílio Martinho, que disse: «O que é que a gente veio cá fazer?» Respondi-lhe: «Então a gente veio cá mostrar o casaco... dar porrada? o que é que se pode vir a fazer...» e de facto estivemos no dia 1 de Maio muito sossegados. Eu sentei-me num cantinho, [...]"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Para ler nas férias?!


O grande maganão do Luiz Pacheco (1925-2008) aproveitou o deslize elitista ("Tenho tanto que escrever, que não tenho tempo para ler") do crítico Gaspar Simões, para, através da Contraponto, sua editora marginal, fazer editar este postal de fino recorte estético e humorístico.
Pela minha parte, se houvesse possibilidade e as tivesse à mão, neste período de férias, dedicar-me-ia a obras de Manguel ou Steiner - que neste momento já não tenho disponível. Valha-me ter de lado, para momentos de emergência ou de vazio, uns restos de Cioran e algumas obras de Simenon, autores que são sempre um abençoado refrigério, no meio de tanta mediocridade que se vai publicando...

com grato reconhecimento a H. N..

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Pacheco dixit


Mas que bela prosa!, e vai:
"Pois é: nem sempre se acerta com o emprego, a função que estaria, desde a juventude, na mira do nosso horizonte, no mais íntimo dos nossos sonhos; a vocação, o modelo de vida desejados, a necessidade não tem lei. As circunstâncias são poderosas, condicionam, determinam vidas. Assim, me vi a tomar posse do inesperado cargo de agente fiscal da Inspecção dos Espectáculos, ali no antigo Ministério do Interior, um recanto do Terreiro do Paço, por cima da esquadra. A ganhar 600$00 por mês, mesmo para a época (anos 40) era uma merda. Com uma diferença importante: ser funcionário público, então, dava muita calma e segurança. Dizia-se: poucochinho mas certinho, emprego estável para o resto dos dias, até aos 70 anos da reforma - e havia quem aguentasse! ..."

Luiz Pacheco, in Figuras, Figurantes e Figurões (pg. 48).

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A justiça do tempo ou de algum deus desconhecido


Era daquelas feiras sazonais, inesperadas, que abrem em qualquer canto ou recanto das estações do Metro ou da CP. Com fundos que não foram guilhotinados, pelas editoras, mas, provavelmente, foram vendidos a peso para despachar ou libertar espaço, nos armazéns.
E, a mim, apetecia-me qualquer coisa fresca para ler, e compensar este dia já quente de Verão. Pus-me a ver: muitos Eduardo Pitta, Miguéis, Rui Ramos, Peixoto, Pulido Valente...tudo a euro e meio. E, depois, O'Neill, que eu já tinha (Coração Acordeão), mais este maganão do Luiz Pacheco, mas ambos a 5 euros.
Por isso, saíu-me mais caro o refresco... 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Lembrete 7


Se fosse vivo, Luiz Pacheco (1925-2008) completaria, hoje, 88 anos - uma capicua que, com seu proverbial bom humor, ele celebraria condignamente. Recordamo-lo, através de 2 das suas mais famosas obras. Com dedicatória, ao escritor Manuel da Fonseca, trata-se da edição primeira (1969) de O Libertino passeia por Braga..., na sua tiragem especial de 500 exemplares (com o nº 64), rubricada pelo Autor.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bibliofilia 79 : Herberto Helder


Já depois de ter lançado, hoje, o poste sobre o próximo leilão de livros, a cargo da Livraria Luís Burnay, quis confirmar, na minha biblioteca, a existência do exemplar de Poemacto, de Herberto Helder. Realmente, existia, mas o que eu não me lembrava é que o livro tinha dedicatória do Poeta - como se pode ver na imagem. O que, indubitavelmente, o torna mais valioso.
A obra, de grafismo muito sóbrio e boa qualidade estética, é uma produção artesanal da editora Contraponto, orientada, muito bissextamente, por Luiz Pacheco. Sendo, como é, o quarto livro de Herberto Helder, e de tiragem pequena, a obra é rara. Tê-la-ei comprado no início dos anos 90, em Lisboa. Dei, pelo livrinho, Esc. 2.500$00 (o equivalente, hoje, a 12,50 euros). Pelo valor previsto de venda, no próximo leilão de Luís Burnay, posso afirmar que foi um óptimo investimento... Embora não tenha sido essa a intenção da compra.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Divagações 24


Não sei o nome da planta, mas a N. C. ofereceu-ma há muito, e ela todos os anos floresce, pela Primavera. Por breves dias, porém, apesar da sua magnificência, num esplendor triangular que rompe das sólidas e duras folhas verdes. Das três florações deste Maio, apenas uma sobrevive, no calor que se faz sentir, na varanda a leste. Vou olhando para ela, a intervalos, por entre a leitura do "Diário Remendado, 1971-1975", de Luiz Pacheco, que já vai quase no fim. Mais dois ou três dias: para a flor e para o livro.
A planta retomará a sua hibernação de beleza e o seu silêncio, apenas verde. Para, talvez dentro de um ano, voltar a florir. Não muito a propósito repesco, não sabendo de todo porquê, o poema de Denise Levertov  (1923-1997) que li de manhã, para o traduzir:

o poeta, a sua presença
de urso afectuoso, deslocando o seu peso na cadeira demasiado pequena para ele,
tranquilo diz, timidamente: « O Poeta
                                           não deve perder nunca o desespero.»

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Memória 64 : Luiz Pacheco


Com tanto desregramento, dissipação física e abusos, com frequentes carências de diversa ordem, é difícil imaginar que Luiz Pacheco (1925-2008) andou por cá quase 83 anos. Morreu a 5 de Janeiro, faz hoje 4 anos. O "Jornal do Gato" (1974), publicado por Mário Cesariny, dá conta desta vida, quase vil e mesquinha, feita de expedientes pouco nobres, promíscua na libertinagem pequena, à boa maneira portuguesa. Mas Luiz Pacheco é também uma figura singular: um notável intuidor de talentos, um frenético editor de obras de vanguarda, bom tradutor quando se empenhava nisso, um andarilho incansável - um guloso da vida que tentou saborear até ao fim. É de "Diário Remendado / 1971-1975" (Dom Quixote, 2005), o excerto que se segue:
1/1/74
Agora a luta é comigo. Se quero aguentar mais uns tempos é dominar os meus demónios interiores, a moleza d'alma, o impedir pelos meios ao meu alcance a repetição dos erros do ano passado, que alguns deram frutos mas nem sei se compensadores.
E não me resignando à velhice e ao silêncio, aceitar os desgastes da idade, dizer adeus às metas (e às conas) já impossíveis de alcançar. Enfim, conhecer os meus limites e tentar superá-los apenas se a ousadia valer os riscos e em plena consciência. Não pela força do álcool que julgo - para já - o meu pior inimigo.
Amanhã, mudar de programa. Vai ser um combate incerto que derrotas, desânimos, mesmo períodos de crise, poderão comprometer definitivamente. A ver vamos. (pg. 149)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As estridências da manhã


Ainda embebido do suave torpor do sono tranquilo, acordo alucinado para "a loucura do dia-a-dia". O primeiro e matutino despertador é o estridente "tlim-tlim" do 28, desesperado, que não consegue passar na rua por causa de um carro mal estacionado, que uma jovem egoista deixou ao deus dará, para ir ao banco.
No Camões, as estridências são de 3 tipos: buzinões, vuvuzelas e o INEM. As primeiras vem dos automóveis, bloqueados no trânsito por um grupo de cerca de 100 manifestantes que sopram, brutalmente, nas vuvuzelas (segunda estridência); a sirene do INEM tem desculpa - deve levar alguém aflito.
Acalmo e sereno, apenas, ao passar pela paragem do 750/790, da Carris, na Rua da Misericórdia. Uma imagem fantástica: alguém que, pelo rosto, poderia ser o Luiz Pacheco, até na idade. Um clone autêntico. Destoa apenas a bengala elegante e com castão de prata, e um lencinho vermelho a aparecer na lapela, com garridice inesperada. E o ar era mais composto e arrumado que o do falecido escritor, mas não faltavam sequer as lentes garrafais nos óculos de menino(-velho) infeliz.
Deixo-o para trás: vou ao que vim. E regresso ao ruído insolente e ensurdecedor das vuvuzelas...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bibliofilia 39 : Vergiliana



Parece que a crise não atingiu (ainda?), de forma muito significativa, os preços de livros menos frequentes e/ou raros, pelos valores (altos) alcançados, recentemente, em leilões. Ou até nos preços que tenho observado, nos alfarrabistas e boletins bibliográficos, em circulação. E isto também se aplica a autores recentes ou do séc. XX. Que os primeiros livros de Herberto Helder e Luiz Pacheco, nas suas edições originais, eram caros, já eu sabia. Que Ruy Cinatti, nas suas últimas edições, feitas em vida do poeta, policopiadas e frágeis, também era do meu conhecimento que eram muito disputadas. Mas que as edições originais dos primeiros livros de Vergílio Ferreira (1916-1996) eram caras, foi novidade para mim.
Pois, num boletim da Livraria Luís Burnay (nº 45), do ano que passou, aqui vão alguns preços de parte das primeiras edições de Vergílio Ferreira:
- Lote 164: Aparição, Portugália, 1959 - 130,00 euros;
- Lote 166: Mudança, Portugália, 1949 - 220,00 euros;
- Lote 167: O Caminho fica longe, Inquérito, 1943 - 320,00 euros;
- Lote 168: Onde tudo foi morrendo, Coimbra Editora, 1944 - 350,00.
Destas primeiras edições, tenho Aparição, encadernado mas, infelizmente, sem a capa da brochura, com desenho bem executado por António Charrua. Na minha posse, também, mas brochado e íntegro, Onde tudo foi morrendo, com capa um pouco manuseada e gasta, ilustrada por Regina Kaprzykowski, de origem polaca, e mulher de Vergílio Ferreira.
Este último livro custou-me, em Coimbra, e no início dos anos 60 do século passado, Esc. 25$00.

domingo, 3 de outubro de 2010

Bibliofilia 31 : B. B., Luiz Pacheco, Óscar Lopes






O livro, que ora se apresenta, não é raro. Trata-se, além disso, de uma 2ª edição de Viagem de um pai e um filho pelas ruas da amargura, de Baptista Bastos (1934), publicado em Setembro de 1986, pela editora "o jornal". Tem um posfácio de Óscar Lopes (1917), também. Mas o que faz único este meu exemplar é que pertenceu a Luiz Pacheco (1925-2008), e tem a sua marca de posse, manuscrita (15 de Novembro de 1986). Deve ter vendido o livro numa altura de aperto... Por outro lado, o posfácio de Óscar Lopes está profusamente sublinhado e comentado, a esferográfica vermelha, por Pacheco. Com as suas verrinosas e habituais diatribes de "Vailland à portuguesa" - comunal, pobrezinho, minimalista, mas profundamente lídimo e nacional. Em abono da justiça e verdade, devo dizer que foi sempre alguém que acompanhei, à distância, com grande simpatia.
Este meu exemplar comprei-o num alfarrabista (Sr. Ferreira) da Calçada do Carmo, em Fevereiro ou Março de 1988, por Esc. 350$00, ou seja, cerca de 1,75 euros. Foi dinheiro bem aplicado, no meu entender.