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sábado, 13 de agosto de 2016

Animosidades poéticas


Para além de grande poeta e Nobel da Literatura (1956), Juan Ramón Jiménez (1881-1958) era um homem austero e rigoroso. Que, na sua plenitude humana, não escapava a ter algumas antipatias viscerais. Esses ódios de estimação compreendiam Gongora, falecido há muito, mas também Pablo Neruda, ainda vivo quando o poeta do Moguer compôs este dístico acerbo, matando assim dois coelhos de uma só cajadada:

La antigua juventud gongorica
que tornado se ha nerudataria.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Impromptu (17)


Lorca gostava de Gongora, em prejuízo de Quevedo. Pensando bem, talvez se justifique esse afecto literário, porque o poeta Federico não deixa de ser um barroco cultista que escrevia curto, em resumo lírico - mas que, às vezes, chegava ao derrame...
Todas as memórias físicas ou mentais guardam, umas e outras, preciosos documentos, valiosos para os seus detentores e para outros alguns, por sua temática própria, e porque são antigos na idade. Valem o que valem, consoante quem os vê.
Assim, pode ser que uma velha padaria desactivada, próxima do Palácio de Queluz, conserve ainda, no lambril interior da loja, velhos, azuis e bonitos azulejos oitocentistas. Poucos saberão, no entanto, que o alvará original está em nome de um francês, que foi o seu primeiro proprietário e artífice.
Ou que uma antiga e modesta estalagem, na margem do Ave, que abre sazonalmente, ostente, com galhardia, na sala de jantar e como ex-libris da casa, uma antológica garrafeira pequena, mas notabilíssima.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Denúncias e Desafios


Do jornal "El Pais" de ontem, 29 de Maio, destaco dois temas, aí tratados, bem interessantes.
1. O periódico noticia a descoberta de um manuscrito de Gongora, em que este denuncia um ex-amigo, ao Santo Ofício, pela sua conduta indecorosa  (o visado era clérigo) de costumes, com uma senhora, de nome Maria de Lara.
"No melhor pano, cai a nódoa" - diz o povo. Porque o nosso poeta Andrade Caminha também fez denúncias, embora não de carácter sexual, à Santa Inquisição. Donde podemos concluir que é preciso cuidado com os poetas...
2. O jornal espanhol lança, também, aos leitores um desafio singular, encimado por uma imagem do filme "The Great Gatsby" , baseado no romance homónimo de Scott Fitzgerald. A pergunta é a seguinte: "Em que livro gostarias de viver?" A resposta parece-me difícil, do meu ponto de vista. Em "Le Petit Prince"? N'"A Casa Grande de Romarigães"? N'"Os Lusíadas"?...
(Se algum dos meus amigos ou visitas quiser responder, esteja à sua vontade... que eu agradeço.)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O cómico


Ser cómico é uma arte difícil. Entre os esgares de um Jerry Lewis e a imota expressão melancólica de Buster Keaton, há uma diferença de tomo, embora ambos consigam arrancar gargalhadas ao ser humano mais sorumbático - desde que tenha sentido de humor. Bergson, em "Le Rire", disse-o, para sempre, de modo filosófico e profundo.
Porque não é fácil ser cómico. Daí a frase popular: "este quer fazer-se engraçadinho..." Normalmente, dita em tom sério e depreciativo. Porque, primeiro, é preciso estudar o tema, ensaiar o tom, definir prioridades num discurso crescendo de relaxe, mas também de expectativa, para com o ouvinte ou espectador. E, sobretudo, programar ao milímetro, dissimulada e minuciosamente, a mímica facial.
Mas há também um humor naïf, não preparado, que decorre da ignorância ou da palermice. Humana, para usar um adjectivo e clarificar melhor. Que colhe, da desarrumação mental, da pura irracionalidade, uma gargalhada sonora. No ciberespaço, abunda entre as search words mentecaptas de alguns "usuários" e as respostas ou traduções rurais do motor de busca Google americano. Venha o diabo e escolha, qual o mais hilariante!...
Saia a última! Diz o visitante: "fotos de ingrid andrade, via vitoria mesquita somic ali!"; responde o Google, do alto da sua ignorância cósmica e iliteracia primária e disléxica: Arpose - "Comic Relief (1) - uma intermediação de Vicky Pollard".
E "riase la gente", como dizia Gongora... 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ponto de situação


Eis o ponto de situação, sucintamente:
a) as agências de ratos continuam a fatiar a CEE, roendo gradualmente, um a um, os países para destruir o euro. Os líderes (?) europeus, refastelados, continuam a dormitar, sossegadamente...
b) em Portugal, foi hoje assinado o acordo de concertação social. Eu chamar-lhe-ia de "desconcertação". A CGTP, avisadamente, não o subscreveu. O eng. Proença assinou. Estamos praticamente com leis de trabalho do período post-primavera marcelista. E "riase la gente", como dizia Gongora...
c) O sr. Alexandre ganhou um prémio da revista "Exame", pela excelência do seu "sítio do costume". Os seus assalariados guarda-costas intelectuais, engajados, Raspoutine Barreto e poeta Moura, devem bater palmas...
d) O sr. Belmiro engendrou uma negociata continental com a EDP para, estrategicamente, os clientes de energia, portugueses, que teriam custos controlados até 2015, se assinarem o novo contrato, os perderem em 2013. Os chineses, disfarçadamente, devem estar a rir-se, e o cego pagode luso deve estar a babar-se com a caridade capitalista dos 10% de desconto, assinando freneticamente os novos contratos...
e) Os "Indignados", como eu tinha previsto, deixaram de se fazer ouvir e não têm sido notícia. Nem já aparecem nos telejornais, a fazer declarações. Não dão sinal de si. Devem ter recolhido a casa dos pais, por causa do frio deste Inverno. Ou, então, teriam passado à clandestinidade? Vamos ter fé, quando vier o sol da Primavera, eles desibernam... 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Citações LX : Luis de Gongora y Argote


"...a poesia, em todo o seu rigor, é uma linguagem construída como um objecto enigmático."
Luis de Gongora y Argote (1561-1627), citado por Jorge Guillén.

domingo, 11 de julho de 2010

Góngora, Quevedo e Lisboa


Luis de Góngora y Argote, nascido a 11 de Julho de 1561, morreu em 1627. Representante máximo da poesia cultista castelhana, é um hábil obreiro de poemas, plenos de alusões mitológicas e eruditas, com segundos sentidos complexos que, hoje, só com um manual anotado dos seus estudiosos, por companhia, se poderão cabalmente compreender. Inimigo declarado de Quevedo (1580-1645) que também não o poupou, sendo que este foi o expoente máximo do que se convencionou chamar poesia conceptista. As polémicas, entre os dois poetas espanhóis, foram ferozes ("...untarei as minhas obras com toucinho,/ para que tu não as mordas, Gongorilha..." disse Quevedo, que também ridicularizou Góngora, pelo seu apêndice nasal excessivo - "Era um homem a um nariz colado,/ era um nariz superlativo..."), mas também houve guerrilha literária entre Góngora e Lope de Vega.
Em 1619, Luis de Góngora visitou Lisboa, então sob o domínio filipino, e desta viagem ficou um soneto em que deprecia D. António, Prior do Crato ("mosquito antoniano"), ridiculariza o vestuário dos portugueses ("Amor com botas, Vénus com baeta"), se queixa da falta de gelo para as bebidas, nesse Verão ("Estrela dispensada...") e estranha a alta construção das casas lisboetas ("...aposento nas gáveas o mais baixo;"). Deste soneto - "En la Jornada de Portugal" -, aqui deixo, traduzidos, a segunda quadra e o primeiro terceto:

"...Salga o outro com lança e com trombeta
mosquito antoniano resoluto
e ainda com pesar por tempo mais enxuto,
Amor com botas, Vénus com baeta;

fresco verão, cravinhos e canela,
de neve mal, de uma Estrela dispensada,
aposento nas gáveas o mais baixo;..."

Nota pessoal: em abono da verdade, devo dizer que prefiro a poesia de Quevedo aos poemas e sonetos de Góngora. Por outro lado, Quevedo deixou um lídimo representante português: Francisco Manuel de Melo; enquanto Luis de Góngora contaminou, fatalmente, os colaboradores portugueses de "A Fénix Renascida"...