A multidão lusa leitora, evidentemente, prefere os escritores estrangeiros. Ou as estrelinhas dos jornais canónicos, para ler os badalados top-ten, muitas vezes medíocres plumitivos de curta duração, nas montras das livrarias. Eu ainda vou preferindo (até quando?) outras leituras nacionais, que muitos dirão insólitas e exóticas...
Os livros desta Biblioteca da Expansão Portuguesa (1989), superiormente dirigida por Luís de Albuquerque (1917-1992), e editados pelas Publicações Alfa, são um magnífico contributo para quem queira conhecer melhor o nosso passado. Curiosos pelas informações que dão, algumas vezes são até divertidos pela estranheza das reacções humanas dos portugueses, em contacto com outras gentes de outras terras.
Este diário de viagem ou roteiro marítimo escrito que Pêro Lopes de Sousa produziu no seu périplo pelos brasis, entre 1530 e 1532, tem as suas especificidades e o seu lado pitoresco. Partilho por aqui um pequeno extracto, para quem se interessar (os happy few) poder ficar com uma vaga ideia. Segue:
"... A gente desta terra são homens muito nervudos e grandes de rosto; são mui feios, trazem o cabelo comprido, alguns deles furam os narizes e nos buracos trazem metidos pedaços de cobre mui luzente. Todos andam cobertos com peles, dormem no campo, onde lhes anoitece, não trazem outra coisa consigo senão peles e redes para caçar. Trazem por armas um pelouro de pedra do tamanho dum falcão, e dele sai um cordel de uma braça e meia de comprido, e no cabo uma borla de penas de ema grande, e tiram com ele como com funda; e trazem umas azagaias feitas de pau e umas porras de pau, do tamanho de um côvado. Não comem outra coisa senão carne e pescado.São mui tristes, o mais do tempo choram. Quando morre algum parente a algum deles, segundo o parentesco assim cortam os dedos, por cada parente uma junta, e vi muitos velhos que não tinham senão o dedo polegar. O falar deles é do papo, como mouros. ..." (pgs. 124/5)