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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Linhagens 16

 

A afirmação surge no editorial do TLS (nº 6378), que passo a citar, traduzindo:

"Se é suposto que todos os escritores russos vieram de O Capote de Gogol, então toda a literatura norte-americana, segundo Ernest Hemingway, vem do livro de Mark Twain intitulado Huckleberry Finn." (pg. 2).


domingo, 10 de julho de 2011

Linhagens 14

Memórias da(s) escola(s)

Nestas últimas memórias fecharemos o ciclo, evidenciando o contributo das várias escolas e, sobretudo, de alguns professores que deixaram marcas nas linhagens pessoais. O mais curiosos de tudo, e também com o olhar pela janela do aposento, é o facto de ter passado a vida na escola sem nunca ter engraçado com o sistema em si. Sempre gostei, e privilegiei, uma parte deste sistema: a procura do saber, na sua vertente de receber e dar, elemento matricial tão arredado do nosso quotidiano.
Comecemos, então, pelo princípio, ou seja, da minha escolinha da aldeia, inaugurada em 1937, e que, em 1957, ainda era "católica", tendo mudado, depois de muitas guerras, para uma escola chamada "não confessional".
Felizmente, o meu primeiro professor, que tinha um apelido francês - Jardin - era uma pessoa liberal e não vivia na aldeia. Houve, no entanto, uma professora beata e residente na aldeia que levou os pais da minha amiga protestante a tranferir a filha para uma escola na cidade. Durante a frequência da chamada "escola do povo [Volksschule]", passei pelas oito salas no primeiro andar do edifício na imagem acima. Os primeiros quatro anos nas salas viradas para o pátio. Os restantes quatro na ala oposta com vista para o meu quintal e a minha casa. Do vice-reitor, com residência ao lado da escola, ficou a memória da música, porque, à tarde, depois das aulas e do meu quintal, ouvia o professor Slatosch a tocar piano, o que me encaminhou, eventualmente, para o gosto pela música.
Para além dos ensinamentos básicos de leitura, escrita e cálculo, o conceito de cultura geral partia, designadamente no que à História e à Geografia diz respeito, de uma saudável abordagem da cidade para o país e o mundo, dispensando-nos, em tenra idade, de preciosismos recentes, como a "interpretação" de tabelas, estatísticas e quadros. No entanto, nas linhagens de uma preparação suplementar para a vida ficaram as memórias das aulas de lavores, de trabalhos manuais e de cozinha. Nas aulas de lavores, depois de ensinar os pontos a bordar ou tecido a costurar, a professora passava o resto da aula a ler-nos histórias. Duplo ensinamento!
Nas aulas de trabalhos manuais, voluntárias e fora do horário normal das aulas que eram da parte da manhã, aprendi a fazer cestos em verga, trabalhar com barro e madeira, conceber e executar estojos para livros, cobertos de papel marmoreado. Com arame em banho de prata executei os primeiros colares e anéis, escolhendo as pérolas artificiais de acordo com a fatiota da altura. Bons tempos!
Nos últimos dois anos, i.e., na 7ª e 8ª classes, as raparigas iam para uma escola da cidade para as aulas de cozinha, os rapazes passavam o dia com o reitor, na horta da escola.
Os ensinamento de cozinha, de que ainda guardo os apontamento de receitas, permitiram-me, ao longo da vida, adaptar-me a universos culinários diferentes. Olhando para o prato final, entra em acção todo o percurso anterior, imaginando como cada ingrediente se poderá ter conjugado para dar aquele resultado. Depois é só ir experimentando para aperfeiçoar. Foi assim que "trouxe" para casa uma receita de ensopado de borrego que, em tempos, comemos na "Casa Amarela" do outro lado do Guadiana, em Mértola.
Concluída a 8ª classe da "escola do povo", os alunos escolhiam uma profissão e entravam na aprendizagem, de três anos, numa empresa, com aulas semanais teóricas nas chamadas escolas profissionais. Os mais afortunados já tinham passado, após a conclusão da 4ª classe, para o liceu ou um curso intermédio, chamado "escola real [Realschule]", para um acesso ao ensino superior ou uma carreira técnica.
Ora, a conclusão da escola básica coincidiu com uma viragem na política educativa na Alemanha. Com uma antecipação de décadas, resolveram criar um sistema de "novas oportunidades" para repescar alunos da escola básica que, por falta de meios, não puderam, na devida altura, ingressar no ensino secundário. Com o fim do ensino secundário - liceal - pago e, sobretudo, o fornecimento, gratuito, de todos os manuais escolares, abriu-se o caminho para prosseguir estudos.
Com um nono ano de preparação - em que aprendi coisas tão úteis como dactilografia, a sério (!) com dez dedos - e uma prova final de aptidão concluída com êxito, o pai ainda não se convenceu, argumentando que as filhas mais velhas não tinham tido essas oportunidades. Lembro-me, vagamente, de reuniões familiares, presididas pelo meu avô materno, para quebrar a resistência do genro, assim como convocatórias para o liceu que, em princípio, me acolhia, dando o remate final na decisão do pai. Assim, prossegui os estudos para além do grau que o pai, certamente, ambicionava para mim. São dívidas de gratidão!
O liceu foi, durante quatro anos e num regime reforçado, o espaço da aprendizagem do trabalho minucioso e, sobretudo, da formação de leituras, gostos e aptidões que alguns professores souberam implementar. Para as almas dedicadas ao "sucesso escolar", ficará o resultado final: de 70 alunos passaram 14 no exame final.  Para mim, gravou-se-me na memória o professor de música que nos levava para a aula magna do liceu e, depois de aulas sobre notação musical, se sentava ao piano, ou puxava pelo órgão, e se punha a tocar. Em vez de esperar que conseguíssemos seguir todos os passos na pauta, interessava-lhe despertar o gosto pela música. Foi receita que resultou em pleno!
De incursões pela língua e cultura eslavas, assim como de sociologia e psicologia na Universidade de Colónia, ficaram apenas registos formais e mentais de realização inconsistente. Da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para além de uma permanente desconfiança quase genralizada pela opção de seguir Estudos Portugueses, ficou o mais valioso para o resto da vida, o encontro com HN e da sua capacidade de dissertar sobre livros e a humanidade.
No grau seguinte, encontrei um professor que, quase pela primeira vez, achou que o facto de ser de origam alemã não era pecado. Reconheceu as minhas capacidades para trabalhos minuciosos. Ficaram, pois, para memória o Professor F. Cristóvão e a "nova" amiga Margarida.
Termina-se com o último encontro do "mestre", aquele que, depois de tanto caminhar, nos aceitou - com seu faro - para fazer aquilo que nos era destinado. Estudar "as letras (...) sinais úteis (...) melodia interior."
Nada do que ficou dito se realizou, a partir de  determinada altura, sem o apoio e o recurso a um Equilíbrio discreto, tal com outros encontros que me têm enriquecido ao longo da vida. E, para finalizar, remeto para o hino dos estudantes, citando o essencial:

"Vivat Academia,
Vivant professores (...)"

Post de HMJ

Dedicado aos benfeitores evidenciados

domingo, 3 de julho de 2011

Linhagens 13

Memórias do lado paterno: a casa, o quintal e o Reno

A reconstrução da Alemanha no pós-guerra mudou, entre outros, o aspecto do património edificado, sobretudo nas zonas destruídas pelos bombardeamentos, deixando memórias e aprendizagens inesquecíveis e úteis para o resto da vida. Da casa inicial reproduzida em baixo, com o tijolo característico, ficaram imagens vagas, preenchidas com episódios curiosos.
Para além da destruição do telhado e danos no anexo, durante os bombardeamentos com bombas incendiárias entre 1944 e 1945, a casa sobreviveu, assim como as pessoas que se acolheram na cave nas horas de maior aflição. No anexo, onde havia espaço para a criação de aves e porcos, encontrava-se um caldeirão enorme que servia para lavar a roupa e aquecer a água para os banhos de imersão. A tampa era usada para aquecer o toalhão de banho e, embrulhando as crianças, o pai estava à espera para as levar rapidamente para a casa principal, sem resfriamentos. Iam direitinhas para as camas aquecidas com sacos de água quente. Mimos singelos! O problema do aquecimento, na altura da falta de "briquetes" e com a ocupação aliada das minas de carvão - na zona do Ruhr - deu lugar a uma invenção linguística, substiuindo a palavra "roubar" por um eufemismo chamado "fringsen". Ora, aqui vai a explicação. A palavra vem do Cardeal Frings que, perante os rigores do inverno e a falta de conbustível, aliviou a consciência do seu rebanho, dizendo que o "roubo de briquetes" dos vagões altamente vigiados pelos aliados não era pecado. A partir daí  e durante o período do pós-guerra, o roubo para a subsistência passou a chamar-se "fringsen". Em jeito de homenagem, segue uma foto do Cardeal Frings com Konrad Adenauer.

No entanto, o abastecimento de víveres obrigava a outros expedientes, alguns inofensivos, outros sorvedouros de objectos de estima, guardados durante a guerra como os pequenos enxovais. Da "lavoura" da aldeia ficou a memória dos bons e dos maus. Destes sabe-se que "dispensavam" batatas a troco de talheres - de prata ou com banho do mesmo - e serviços de porcelana. O episódio mais engraçado pertence, todavia, aos bons. Os donos de uma quinta enorme fora da aldeia conheciam o pai pelo facto de lhes ter levado, na sua juventude, o jornal da igreja todas as semanas. Foi a eles que recorreu para arranjar um bacorinho a fim de o criar no nosso anexo e servir de base, futura, a uma alimentação mais abastada. Meteram o dito no saco de serapilheira para não criar suspeição. A meio caminho, certamente assustado com os balanços da bicicleta, o pai sentiu as costas quentes e molhadas. O dito bacorinho "aliviou-se" e a história ficou para memória futura.
Na década de 50 do século passado, a casa alargou-se, ficando com um acrescento, dando lugar a um edificado em forma de L. Ainda hoje aproveito as aprendizagens colhidas durante o tempo que vivi numa casa em construção. Fiquei com noções de construção, dos fundamentos até ao telhado. Nos interiores, assisti à colocação do estuque, do soalho de madeira, ajudei na pintura, na colocação de candeeiros e do papel na parede. Houve uma fase em que nos levantávamos num determinado espaço que, durante o dia era desmanchado - camas, etc. - para nos deitar noutro lugar da casa ao fim do dia. Portanto, montar e desmontar camas ficou nos "genes" como actividade corriqueira.
A foto da casa é o símbolo do acumular de memórias que, não obstante o pesado dever de a esvaziar e entregar a estranhos, na viragem para o séc. XX e fruto da perversa evolução da sociedade, nada conseguirá anular.
O quintal da casa, atrás e numa área de 1000m2, era, no início, o espaço próprio para assegurar a subsistência. Nele se criavam: batatas, feijões, cebolas, couves, espargos  (!), aipos, etc. para além de morangos, cerejas, maçãs, ameixas e outros frutos. A Primavera era para trabalhar a terra. O Verão para colher e guardar para o Inverno. Portanto, na cave guardavam-se as batatas, cenouras, etc., a fruta em calda, assim como as leguminosas em frascos, e os doces para barrar o pão ao pequeno almoço. Lentamente, a partir dos anos 60, o quintal passou a dividir-se ao meio, o fundo para a horta, aumentando-se o espaço de lazer com relva e flores.
Com efeito, os limoeiros, assim como a vivência em andares sem quintal, pertencem a um conhecimento tardio. Foi preciso mudar para Lisboa e a outra banda para, num andar, tentar recuperar o espaço verde perdido recriando novas plantas e "acarinhando" outras vindas do quintal de origem, como o lilaseiro, cujo "neto" já encanta uma varanda no Porto. A propósito de citrinos, consta ainda hoje nos anais da família um episódio engraçado. O avô paterno escolheu, nos idos dos anos 50 do século passado, uma laranja (!) como presente de Natal para oferecer às netas, símbolo de riqueza para ele que, da nossa parte, acolheu pouco entusiasmo na altura.
Ao enquadrar todo esse espaço estava o Reno, rio memorável de lazer e ameaça. No Verão, era a nossa piscina ao ar livre. No Inverno, depois de as chuvas e as cheias terem alagado o terreno até aos diques que defendiam a aldeia de enchentes, a água gelava e os diques tapavam-se de neve. Era a altura de deslizar no gelo e descer os diques com os "tobogans".

Brincadeiras simples, aprendizagens enormes, memórias para o futuro.

Post de HMJ

sábado, 25 de junho de 2011

Linhagens 12

Memórias do lado paterno: em terras do Senhor Arcebispo

Apenas separada pelo Reno, Leverkusen do lado direito e situado nos antigos domínios do Grão-Ducado de Berg, a aldeia de Merkenich, do lado esquerdo do rio e a norte da cidade de Colónia, constava já do mapa de Mercator, no início do século XVI.

Reza a história que os arcebispos não desdenhavam o poder e a propriedade dos terrenos. Recordo que o pai dizia de certas pessoas da aldeia, não sendo obviamente o nosso caso (!), que apenas tinham conseguido construir a casa "em terras da igreja". Tal desventura significava que "compravam" o solo por um período renovável de 99 anos, findos os quais, tinham que re-adquirir a terra. Pertencendo a uma família com "pergaminhos" e residência, desde o século XVIII, na aldeia, o terreno era nosso. A casa do avô paterno ficava na rua principal que, em tempos remotos, teria sido a antiga "via romana" e que ligava a Agrippina Colonia à setentrional Novaesium, actual cidade de Neuss.

No entanto, a minha vida na aldeia passou-se na casa dos bisavôs, cujo quintal confrontava com os terrenos e o edifício da Escola.

Herdei da bisavó o segundo nome, assim como a persistência de carácter, segundo constava dos anais familiares. O bisavô era, nos tempos livres, o "Kirchenschweitzer" da aldeia, uma espécie de acólito que, com manto vermelho, superintendia os serviços religiosos. Ora, uma herança católica tão pesada, nem sempre contribuiu para uma vida pacífica.
A "culpa" - ou "pecado original" - teria sido do pai que, durante a guerra, conheceu, através de "um camarada da tropa" e futuro cunhado, aquela que viria a ser a minha mãe. Para as aldeãs em idade casadoira, à espera dos soldados sobreviventes - porque da turma do pai com cerca de trinta rapazes regressaram apenas metade - a escolha paterna, fora da aldeia, tinha dois defeitos: era uma mulher bonita e protestante. Assim, da vivência na aldeia constam as "pequenas vinganças da contra-reforma" que, embora subtis, eram frequentes.  O padre da aldeia, contrariando o previsto legalmente, obrigou a mãe a tornar-se apostólica romana antes de casar, para além de ter de atestar que iria educar os seus descendentes na fé dominante nas terras do arcebispo de Colónia. Quando, aos 15 anos e em idade prevista pela lei, declarei num notário que não pretendia manter-me nas fileiras da fé católica, os pais receberam a visita do Senhor Padre, meu professor de Religião durante anos na escola da aldeia. Sem atacar, directamente, a mãe, tinha encontrado um argumento de peso. A filha tinha arranjado uma amiga pouco recomendável, outra protestante (!), filha de "gente" que invadira a aldeia no pós-guerra com a instalação de indústrias várias, nomeadamente a fábrica de automóveis da Ford.
Ainda hoje, passeando pela velha aldeia durante as férias, sou conhecida, não pelo nome, mas como filha de fulano, i.e., do João, ignorando, subtilmente, fulana, protestante e forasteira. E assim, por herança, tornei-me forasteira para o resto da vida.

Post de HMJ

domingo, 19 de junho de 2011

Linhagens 11

Memórias do lado materno 4: o tio marceneiro e fotógrafo

Chegou a altura de me despedir das memórias do lado materno, de Leverkusen, com a evocação do meu tio marceneiro e fotógrafo. Aliás, toda a parte documental e familiar, que serve de base às linhagens, devemo-la ao tio fotógrafo. Para além de mestre na arte da marcenaria, aperfeiçoou o gosto pela fotografia. Basta recordar que tinha o material à mão. Tendo a AGFA sido uma empresa ligada à Bayer, teve, certamente, acesso não apenas aos produtos como aos ensinamentos da empresa e montou uma câmara escura na cave do prédio onde vivia.
Digamos que o tio Otto, o rapaz mais velhos dos cinco descendentes dos avós, era, e é, para nós, o mais catita e alegre. Casado com uma viúva da guerra, com uma filha, seguiu, porventura, um rumo menos canónico para a família. Em vez de se aplicar na construção de uma casa própria, manteve-se sempre no seu pequeno apartamento alugado. A falta de espaço edificado compensava-o, desde muito cedo, com viagens pela Europa, e, sobretudo, com férias na Baviera e na Áustria, em tendas, caravanas e casas alugadas. Até hoje. Será, talvez por causa da sua opção, o mais bem-aventurado até ao final da sua vida. O estado "social" não o poderá obrigar a alienar o seu bem edificado, com esforço de décadas, como sucedera ao seu cunhado, em troca de uma assistência na velhice que ultrapassava o valor de sua pensão. Seria necessária uma memória mais alargada, e quiçá solidária, para o Estado alemão reconhecer que fora a geração nascida entre 1914 e 1921 que, com os anos de juventude perdidos na 2ª Guerra Mundial, construíu o tal "estado social". Seria imperativo proporcionar a esses obreiros um final de vida mais digno, poupando-os à alienação forçada da habitação (re-)edificada após o final de guerra.

Regressando, no entanto, à alegria em casa do tio, lembro-me de um teatro de fantoches. A "casa do teatro" e os bonecos tinham saído das mãos do tio. Ao fim do dia, ou aos fins-de-semana em que passava com ele, as senhoras, i.e., a tia, a prima e eu, sentadas no sofá, assistíamos aos espectáculos do tio. Ele mexendo nos bonecos, contava histórias e anedotas que nos enchiam de boa disposição. A casa podia ser pequena, mas nunca senti a limitação do espaço, pela irradiação da alegria.
Da câmara escura, situada na cave, saíam, então, as fotos. Como memória derradeira das fotos do tio, aqui vai uma imagem.


P.S. Para o tio Otto que, em Agosto, fará 98 anos. É obra !

Post de HMJ

sábado, 11 de junho de 2011

Linhagens 10

Memórias do lado materno 3: lavores e culinária

Vamos primeiro falar dos lavores para evocar, merecidamente, a avó. Não sendo expansiva, com feitio difícil, sobretudo na idade, era, para mim, uma avó bonita e dotada. Aprendi com ela os segredos da costura, mas, nas fatiotas que saíam das suas mãos, nunca consegui chegar-lhe aos calcanhares. Dir-se-ia que era uma modista, e de mestria. Recordo um vestido que, já na minha adolescência e ela com idade avançada, me talhou na perfeição. Tinha comprado um tecido que me encantou. Desenhei-lhe num papel um feitio que tinha visto e gostara. Passados dias fiquei com o vestido pronto, tal como o tinha idealizado.
No entanto, comecemos pelo princípio. A economia doméstica baseou-se, essencialmente, na minha infância e juventude, no guarda-roupa que a avó fazia para os netos, sendo completado pelo calçado saído das mãos do avô. Embora reconhecendo a perfeição no corte dos nossos vestidos, e a comodidade no seu uso, houve alturas em que desejava, a todo o custo, poder ter um vestido de uma loja de pronto-a-vestir. A explicação é simples. Sendo a última de três irmãs, a avô fazia os vestidos iguais para as três, acrescentando, com argúcia e gosto, o pano que ia faltando com o crescimento das netas. Aqui fica a imagem da obra:

Acontece que, durante muito tempo, tinha sempre os mesmos vestidos, o meu e, a seguir, os das minhas irmãs. A liberdade só a alcancei no ano da primeira comunhão. Senda a madrinha de baptismo a custear a despesa, tive direito a uma fatiota de pronto-a-vestir, um vestido branco para o primeiro dia de comunhão e, outro, azul claro, para o segundo dia como era hábito.
Ficaram, contudo, as primeiras lições da avó. O papel "Kraft", usado nos moldes dos vestidos, passava para as minhas mãos a fim de aprender a alinhavar, enquanto a avó avançava com o seu trabalho na máquina de costura. Só muito mais tarde tive direito a usar a sua máquina de costura, uma Singer. Tendo recebido antes uma explicação abrangente do funcionamento da máquina de costura, foi lição de mestre que, ainda hoje, me permite adaptar-me a qualquer inovação de máquinas eléctricas. Não me recordo, se a avó era também perfeita nas artes de "tricot" ou bordados. Ficaram na memória, e em fotogafias, obras primas de "tricot", saidas das mãos maternas, assim como bordados, aptidões que, curiosamente, se passaram apenas para a irmã do meio.


Como a perfeição tem limites, a avó não era grande cozinheira. Não sei, por isso, como as suas filhas desenvolveram tal aptidão. Assim, por herança directa da mãe e da madrinha, recebi, por imitação, gestos, organização e combinações possíveis, essenciais aos preparativos de uma refeição, assim como o gosto próprio na sua execução. A madrinha, exímia cozinheira, que aperfeiçoou a inclinação natural para a culinária com o seu trabalho na messe da Bayer, i.e., o "Erholungshaus", onde os altos quadros almoçavam e jantavam e, em dias de festa, os restantes empregados menos abonados.
No entanto, a avó trouxe da Prússia de Leste as receitas próprias como os "Königberger Klopse" (= bolinhos de carne de Konisberg) e os "Flinsen" (= finíssimos crêpes) com que me enchia a barriga e a alma, ao lanche, com açucar por cima. De outra receita familiar, obra da madrinha, i.e., o bolo de papoila já nos encarregamos de transmitir o segredo noutras paragens, com destaque no Prosimetron. Aqui ficam os "Königsberger Klopse":

Foram lições para o resto da nossa vida que, porventura, nunca se conseguirão agradecer devidamente. Fica o testemunho.
P.S. Para o tio, o mais novo dos cinco, que, ontem, completou 90 anos.

sábado, 4 de junho de 2011

Linhagens 9

Memórias do lado materno: o avô

Por vezes, destacamos, entre muitos, aqueles que se fixaram na nossa memória de modo particular. Não será, certamente, menosprezo por todos os que nos acompanharam e enriqueceram na nossa vida. Neste "post" é o avô materno que leva a dianteira, não apenas pelo carinho que a foto com o coelho - do texto anterior - preservou para a posterioridade como os valores que, assumidamente, sempre transmitiu.
Para além da matriz "bi-geográfica", crescemos num universo repartido entre credos diversos, o luterano e o apostólico romano. O avô de Leverkusen era luterano, o avô paterno, da aldeia fronteiriça dos domínios do Arcebispo de Colónia, era, obviamente, católico. Curiosamente, e contrariando o "pessimismo antropológico" dos luteranos, de que ouvia falar a partir da vivência em Portugal, relacionamos com a casa materna, luterana, uma aprendizagem abrangente: afectos, valores, civilidade e, sobretudo, a noção do dever. Na casa do avô luterano havia um calendário com versículos da Bíblia, repetindo-se, frequentemente, uma máxima que se apresenta na imagem seguinte.

Foi, certamente, esse refúgio divino que orientou o espírito na mudança de Elbing para Leverkusen, assim como os tempos difíceis da crise mundial de 1929. A desvalorização galopante da moeda obrigava a avó a ir receber o salário semanal à hora do almoço, junto ao portal principal da fábrica, em vez de esperar até ao final do dia, a fim de conseguir comprar mais alguns mantimentos. Ora, convém recordar o valor do papel de moeda de então.
Sem recordações de grandes lamentos sobre o passado, o que nos ficou da casa do avô materno foram, sem dúvida, lições positivas da vida. Nascemos num hospital de Leverkusen, completamente destruído em 1945 e que recuperara as condições para receber doentes por volta de 1947. As recordações vivas da casa do avô são, obviamente, posteriores. Dentro da planta mental da casa, era, sem dúvida, a cozinha, com um espaço considerável, o centro do mundo. A janela enorme para o quintal, os móveis sólidos feitos pelo tio marceneiro, a presença da avó, calada, a cuidar dos aspectos essenciais à sobrevivência moldaram os ritos. Na memória ficaram os jogos com o avô. As saídas para apresentar a neta aos amigos da cidade: o relojoeiro, o chapeleiro e, sobretudo, o vendedor de peixe fresco, o Senhor Hissen, que satisfazia os desejos longuinquos do avô. Vindo do Báltico para a Renânia, ficara-lhe a memória do peixe, especialmente do "Zander" - (sander lucioperca) - que, por vezes, o amigo arranjava. Foi lá que comemos o primeiro peixe frito filetado. Dos restantes comerciantes ficaram imagens mentais de artigos: um primeiro colar e um chapéu-de-chuva, ofertas do avô que o tempo levou.
Sucede que o avô nunca saía sem o chapéu e a bengala, a condizer com o seu arranjo matinal de camisa e gravata. Ficou, aliás, um dito dele que pronunciava antes de sair de casa: "mein Hut, mein Stock, mein Regenschirm" - (meu chapéu, minha bengala, meu chapéu-de-chuva). Ainda hoje o repetimos para nos certificar dos objectos necessários a levar antes de sair de casa.
A afabilidade com que nos tratava tinha, obviamente, uma rigidez de princípios. A falta de educação, de respeito, de trabalho e estudo, por parte dos netos, eram falhas que o avô não admitia, provocando-lhe a ira que, para nós, era incompreensível. Aliás, dos oito netos abaixo reproduzidos, a que posteriormente se juntaram mais duas, fazia questão de os reunir, no final do ano lectivo, para fazer a sua apreciação - e caso necessário sermão - dos diplomas escolares que as criaturinhas entregavam ao avô por ordem hierárquica de idade.

O avô podia, eventualmente, desculpar uma nota inferior a 2 (numa escala de 1 a 6, da melhor para a pior nota) em disciplinas do saber, não aceitando, de todo, notas inferiores a 2 nas chamadas notas de cabeçalho: comportamento/aplicação no estudo/participação nas aulas.
Com efeito, no nosso universo não cabe, de todo, um "pessimismo antropológico" atribuído aos luteranos. E, repetindo a essência de uma epígrafe que utilizamos num dos últimos trabalhos académicos, foi pelo Báltico que recebemos uma abertura ao mundo, preparando-nos para vivências em países distantes.

Post de HMJ

domingo, 29 de maio de 2011

Linhagens 8 - Aditamento

Para desfazer alguma curiosidade dos meus leitores relativamente à "puridade" do coelho papudo, confundindo-o com um bicho de peluche, atesta-se, por uma imagem idónea, que era uma criatura de deus, de carne e osso.


Post de HMJ, dedicado a JAD

sábado, 28 de maio de 2011

Linhagens 8

Memórias do lado materno 1: De Elbing para Leverkusen

Os leitores atentos já localizaram os antigos domínios teutónicos da Prússia de Leste como uma matriz das nossas linhagens. A outra, como as heranças genéticas costumam ser "bi-geográficas", será objecto de memórias posteriores.
A família do lado materno tem, de facto, origem na Prússia de Leste, designadamente, na cidade de Elbing, com uma residência que se me fixou na memória: a "Montanha Mágica", sem me lembrar do número da porta. Haverá mais semelhança possível com um romance de Thomas Mann?


A postura digna da família do lado direito na foto não esconde as dificuldades ocultas. Com cinco filhos, nascidos entre 1913 e 1921, a vida não seria fácil para um sapateiro de ofício, embora se tratasse de uma casa "bem governada" como daremos conta depois. Os primeiros três filhos nasceram pouco antes ou durante a 1ª Guerra em que o patriarca participou como soldado, o mesmo que viria a assistir à 2ª Guerra Mundial e ao acolhimento da sua filha mais velha após a fuga em 1945 relatada no "post" anterior. Em data próxima de 1920 terá havido, por um desenvolvimento no pós-guerra da Fábrica hoje conhecida como a Bayer, uma tentativa de recrutamento de novos operários em zonas tão longínquas como a Prússia de Leste. O patriarca, recém-chegado da 1ª Guerra, não resistiu ao apelo e, certamente, às condições oferecidas. Contrato de trabalho e uma casa para a família alargada, em Leverkusen, no actual estado do Norte da Renânia Vestefália.
Uma monografia, do nosso acervo, dá conta da evolução da cidade de Leverkusen, sempre à sombra do progresso da fábrica das "Aspirinas" e não só. Sem pretender branquear o fim último do capitalismo, sucede que o desenvolvimento da empresa não excluía a vertente comunitária, social e cultural. De facto, a fábrica da Bayer cresceu, em Leverkusen, não apenas com a expansão das suas instalações fabris, mas também com a edificação de um núcleo urbano muito próprio, incluindo não apenas residências para os seus empregados como também uma casa de cultura, um grande armazém tipo Grandela e uma organização de espaço urbano que consideramos agradável e equilibrado.
Sem poder precisar onde a família se instalou à chegada de Elbing, existem fotografias das casas construídas pela Bayer - as chamadas Colónia I, II e III - que, conforme o estatuto dos empregados: operários, técnicos e doutores, tinham uma localização, construção e área de habitação diferentes. A nossa memória da casa dos avós maternos difere um pouco da imagem reproduzida, no que ao edificado diz respeito, mais apropriado aos técnicos superiores da fábrica, embora a foto corresponda, na perfeição, ao belíssimo quintal nas traseiras.

Para os mais afortunados e, certamente, menos dados a uma casa construída ao gosto individual havia, inclusivamente, uma casa modelo, recheada de mobília vendida pela própria fábrica da Bayer, através dos seus armazéns, como a foto demonstra.

Da casa do avô materno, na colónia mais modesta, salvou-se o contrato de arrendamento que abaixo se reproduz em parte.


Recortamos, por graça, a parte que se refere aos animais que o inquilino poderia ter, i.e., pequenos animais, excepto porcos! Como as casas só tinham dois andares, o inquilino do rés-do-chão tinha direito ao quintal, com os trabalhos inerentes da sua manutenção. Foi assim que o deslocado de leste reencontrou o seu espaço - urbano/rural - dedicando-se à criação de uns coelhos especiais.


Lembramo-nos, a propósito, de um início de um romance de Camilo que reza assim: "Os meus amigos de certo não sabem o que é caçar coelhos na neve?" No caso presente seria: "não sabem o que é criar coelhos com orelhas tão papudas"!
Ora, o referido contrato de arrendamento também previa que, dadas as insuficiências de habitação, em 1929, o inquilino teria que aceitar um sub-aluguer imposto pela Bayer. Que se saiba, o avô apenas acolheu, em 1945 e de bom grado, a sua filha mais velha que, com os seus três netos mais velhos, sobrevivera à fuga de civis relatada anteriormente.
Não pretendemos iludir a outra face do império empresarial. O patriarca e os seus cinco filhos tornaram-se empregados da Bayer e, com o seu esforço e a sua dedicação, conseguiram reconstruir a sua vida no pós-guerra. Para as almas mais sensíveis, que abandonaram a fábrica em 1945, ficou, no entanto, a experiência dolorosa de conviver, durante a 2ª Guerra, com a presença de cidadãos dos territórios ocupados pelas tropas do 3º Reich, obrigando-os a trabalhos forçados, na fábrica da Bayer, e suprimindo, assim, a falta de mão-de-obra masculina deslocada para as várias frentes de batalha.
Os bombardeamentos aliados, no final de 2ª Guerra e centrados nas instalações fabris, obrigaram a uma evacuação da população civil de Leverkusen. De um desses ataques aéreos mortíferos ficou apenas um fiapo de uma conversa ocasional em que se falava da rua principal de Leverkusen, junto à entrada principal da fábrica das pastilhas, dando conta da destruição e da assistência aos mortos e feridos.
De tudo o que foi dito guarda-se, ainda, a correspondência de uma habitante de Leverkusen, endereçada ao seu soldado distante algures na Rússia.

Post de HMJ

sábado, 21 de maio de 2011

Linhagens 7

Episódios de viva voz 2: A fuga de civis (1945)

Na sequência do "post" anterior, sobra espaço e memória para as populações que, por um lado, sofreram antes com as ocupações inimigas ou, por outro, foram obrigadas a ceder o seu espaço aos avanços das tropas vencedoras. Em todo o caso, os nossos episódios de viva voz não se enquadram em nenhuma ideologia disfarçada de apoio ao antigo "Reich" germânico, tão acarinhada por determinadas confrarias alemãs de "espoliados do leste". Aliás, consideramos que os fugitivos do leste foram os mais penalizados por essa falsa "grandeza" populista, alimentada em períodos de crises económicas e de lideranças "primatas", ávida em aproveitar uma estrutura matricial de um povo e de uma cultura para fins impróprios e de promoção pessoal.
Posto isto, convém partir de dados objectivos. Dizem-me as estatísticas que 14 milhões de alemães fugiram, no final da 2ª Guerra Mundial, dos territórios a leste e à medida que as forças vencedoras avançavam. Dois milhões de civis faleceram nessa fuga. Não se contabilizam, nesta estatística, os óbitos dos soldados.
O relato de viva voz, reconstituído por fiapos vagos, quase de sobressalto, e embora sendo subjectivo, não carece de veracidade e, confrontado com fontes alargadas, confirma a experiência marcante na Europa do século passado.
Em Janeiro de 1945, com o avanço do exército russo, as populações de origem alemã do antigo domínio da Ordem Teutónica (OT), ficaram perfeitamente encurraladas e abandonadas à sua sorte. Por um lado, a ordem de resistência imposta pela política alemã, impedindo a saída atempada das populações civis, por outro, o avanço inexorável das tropas vencedoras, obrigou a experiências quase incompreensíveis para o dia de hoje.
Uma mulher, nascida no ano de 1913 na antiga Prússia de Leste e com residência numa localidade chamada Mohrungen, encontrava-se grávida do terceiro filho em Janeiro de 1945. O marido, militar, fizera-lhe um filho em 1939, certamente antes de partir para a guerra, outro, em 1941, porventura durante uma licença. O terceiro e último nasceu, a 26 de Janeiro de 1945, já fora da residência habitual e durante a fuga, no lugar de Maldeuten, numa quinta com o mesmo nome e que, segundo testemunho, já estava a arder em sequência dos ataques frequentes.



Ao que parece, a coluna em fuga concedeu apenas o tempo indispensável ao nascimento da criatura, reservando à parturiente, depois, o lugar destinados aos velhos, doentes e defuntos na carroça. Privilégios em tempos em que não se limpam armas! Os restantes, inclusivamente os irmãos mais velhos de 6 e 3 anos e meio de idade, não tiveram direito ao conforto na carroça. Assim, na família, ficou célebre uma expressão do irmão do meio que, ao caminhar, murmurava: "não posso mais, não posso mais, fico sentado na neve", aspiração impossível por significar a morte por abandono da coluna no meio de neve.


Ao chegar a Berlim, no final da 2ª Guerra Mundial, o panorama era semelhante à imagem reproduzida:


No meio da destruição, parece que ainda houve médicos a assistir aos fugitivos antes de continuarem a sua saga para os diversos estados que, actualmente, constituem a Alemanha. Não custa acreditar que o médico berlinense que observou a parturiente não se convenceu, à primeira, da veracidade do seu relato dos acontecimentos. De facto, o recém-nascido em Maldeuten (Prússia de Leste) tinha sobrevivido, assim como a mãe.
A mãe e os três filhos passaram a viver e crescer na cidade da Bayer, Leverkusen, tornando-se pessoas que, entre outras qualidades, se destinguem pela sua determinação invejável para ultrapassar adversidades sem esquecer o lado humano da vida.
Calhou-me em sorte que a mãe dos três filhos se tornasse, mais tarde, minha madrinha de baptismo e, como dizem os entendidos em astros, me tivesse transmitido, porventura, uma parte ínfima da sua tenacidade para além de outros saberes de que falaremos oportunamente.
Post de HMJ

domingo, 15 de maio de 2011

Linhagens 6

Episódios de viva voz

Por vezes, parece-nos que a discrição se devia sobrepor à revelação de episódios contados de viva voz. No entanto, e atendendo ao progressivo emudecimento dessas vozes que nos transmitiam, em primeira pessoa, a sua versão de uma parte da História da Europa, julgamos que o desaparecimentos destes testemunhos autoriza um registo para memória futura. Pretendemos, assim, dar continuidade à rúbrica das Linhagens com a memória de relatos sobre a vivência pessoal da 2ª Guerra Mundial.
Num dos textos anteriores falávamos da destruição da tipografia durante a fase final da 2ª Guerra, aquando dos bombardeamentos de Colónia. Ora, o compositor da tipografia já estava, há muito, longe da sua cidade e do seu ofício. Pouco depois do início da guerra começara uma "viagem" involuntária para países distantes. Como tantos outros, entre os 20 e os 30 anos da sua vida, não conheceu tranquilidade, nem sabia o desfecho do dia seguinte. Houve, no entanto, uma força divina qualquer que o encaminhou para um exercício diário menos "violento", i.e., o de motorista de oficiais do exército alemão na campanha da Rússia. Conduziu, ainda, alguns oficiais revoltosos e condenados a 20 de Julho de 1944, por ventura no carro que abaixo se reproduz (?).


Uma mão divina também o desviou do avanço para Estalinegrado em direcção a uma cidade omnipresente na sua, nossa, memória: Dnjepropetrowsk.



Daí seguiu em direcção ao mar Azov. Não falou em Smolensk, cidade presente nas obras de Heinrich Böll, também ele da Colonia Agrippina. Sem conseguir precisar, há um lugar algures na Rússia, pelas inscrições visíveis, em que a postura "oficial" pareceu amena. A imagem esconde, obviamente, os relatos de toda uma experiência de privações extremas: frio, fome e incerteza do dia seguinte. Mesmo assim, ainda dava para falar da paisagem, do encontro com as populações e, sobretudo, o facto de nunca ter entrado em combates directos.


A fuga, preanunciada pelos oficiais que conduzia, foi a mais rocambolesca que se possa imaginar. Hospitalizado com tifo, num campo de prisioneiros, foi libertado, indocumentado, com um pão para sustento, com pouca probabilidade de sobrevivência. Contudo, a sua costela de camponês salvou-o com as defesas que a terra ensina. Caminhando de noite para não ser preso novamente, alimentava-se do que a natureza fornecia. Passou a fronteira para a Alemanha num lugarejo da antiga Checoslováquia.


A partir daí foi apanhando comboios que transportavam carvão. Entrou em Colónia Agrippina, completamente destruída, em finais de 1945, esfomeado e preto de carvão. Antes de entrar na casa paterna, sem notícias há meses do seu paradeiro, pediu a um conhecido da aldeia para anunciar a sua chegada para breve.
Não temos dúvida de que o nosso compositor - de letras - seria, com o peso da sua experiência, um defensor de uma Europa de paz.

Post de HMJ

sábado, 7 de maio de 2011

Linhagens 5

Papel fino e último episódio tipográfico

Para a impressão dos chamados "Akzidenten", i.e., cartões de visita, cartões e papéis de correspondência pessoal, havia, na tipografia de que temos vindo a falar, uma quantidade de amostras de papel, sobrevivendo alguns exemplares no nosso acervo pessoal. Há, no entanto, um que fazia (e faz) as nossas delícias: um papel feito segundo o processo manual, com as linhas e a marca de água.



Dos vários impressos para a nossa correspondência pessoal sobraram apenas restos, excepto do último trabalho do compositor: uma caixa inteira, em papel fino, "Poensgen & Heyer - Römerturm ECHT BÜTTEN". Como o tipo de letra era escolhido em função do sexo, da idade e do estatuto social do cliente, o compositor achou que os últimos trabalhos para nós já podiam ser impressos com o tipo FRAKTUR, tratando-se, no caso em reprodução, da Unger Fraktur e da Andreae Fraktur.



Episódio para memória futura

Um dos trabalhos mais frequentes, e urgentes, eram os impressos de participação de falecimento. Após um breve contacto telefónico para a tipografia, era hábito levar, no próprio dia, uma caixa de envelopes, sem impressão, ao cliente, a fim de iniciar a dolorosa tarefa de comunicar o transe. Ora, um dia, o compositor colocou, ainda em finais dos anos cinquenta do século passado, a caixa com os envelopes no suporte traseiro do seu motociclo como, aliás, costumava fazer. Ao atravessar uma das pontes sobre o Reno - a Mülheimer Brücke, na imagem - a caminho de casa, o tampo voou, espalhando-se cerca de 500 envelopes pelo ar perante o olhar espantado dos restantes condutores.



Post de HMJ
Esta secção sobre tipografia é dedicada a JAD, por motivos óbvios.


sábado, 30 de abril de 2011

Linhagens 4

Composição e Impressão

Depois de ter apresentado os tipos e outro material tipográfico que serve para compor um texto, apresentamos, hoje, instrumentos necessários à composição.

A base, um tipo de tabuleiro, dá pelo nome de galeão. Por cima encontramos a peça fundamental, i.e., o componedor, uma regra para alinhar os tipos. Curiosamente, em alemão chama-se "barquinho" (ou seja, Schiffchen). Ao lado, temos um texto composto, o granel, devidamente atado para manter os tipos no lugar com o auxílio do cordel e da pega da linha como nos demonstra um excerto do Manual do Typographo:


Ou, ainda, um granel que faz parte da nossa colecção:


Ora, o texto composto ia do galeão para um tipo de moldura, a rama, em que se segurava o granel com material branco e, apertando todo o conjunto, ficava pronto para ser colocado na máquina para a impressão. Gravou-se-me na memória a marca da máquina de impressão, a HEIDELBERGER, pelo carinho com que o artífice falava dela. E aqui se apresenta:



Post de HMJ

domingo, 24 de abril de 2011

Linhagens 3

Material Tipográfico: Vinhetas, Clichés e xilotipia


Voltamos, hoje, a um pormenor da caixa que introduzimos anteriormente. Escolhemos, para o efeito, os tipos em madeira que, havendo poucos exemplares na tipografia, fizeram o meu encanto pela estética do desenho e a beleza do material. Os dicionários de livros consultados explicam que os tipos de madeira se utilizam, como diz a palavra, para a xilotipia.
No fundo da caixa encontram-se as peças que davam pelo nome de clichés. Eram peças com desenhos ou logotipos de empresas - veja-se a cruz da Bayer - em metal, inteiro ou parcial. O cliché que apresenta apenas a parte superior em metal era fixado com preguinhos, como se pode observar na imagem, numa base em madeira. Por outro lado, e para o mesmo fim, existiam, na tipografia referida anteriormente, as vinhetas. Constavam também do catálogo de tipos as vinhetas que abaixo reproduzimos.




As vinhetas com os números 25 e 41 sobrevivem, ainda hoje, como desenhos em ex libris. Haverá, certamente, leitores nossos que identificarão, facilmente, os proprietários de uma e de outra marca que assinala a propriedade dos livros do criador do Arpose e da sua colaboradora em tempos livros.


Post de HMJ

domingo, 17 de abril de 2011

Linhagens 2

História de uma Tipografia


O encerramento progressivo, a partir de 1980, de pequenas tipografias, em Colónia/Alemanha, ainda com composição manual, arrastou consigo a memória viva dessas oficinas, dispersando o material tipográfico e empobrecendo o conhecimento de uma arte que, de facto, apenas se domina bem com base na experiência real.

A tipografia Fritz Holbeck, cujo catálogo de tipos apresentei na semana passada, tem uma história curiosa, embora não única no universo da impressão. O dono da tipografia não dominava nenhum ofício da nobre arte da impressão, nem era compositor, nem tipógrafo e menos, ainda, corrector. No entanto, montou a tipografia nos anos trinta do século passado, exercendo, e bem, as funções de gestor. Para poder ter aprendizes nas várias artes, teve que empregar mestres do ofício que ele não dominava. Até ao início da Segunda Guerra Mundial ainda conseguiu formar um compositor manual, empregado que o acompanhou até ao fim da vida. A reforma do compositor coincidiu com o declínio da oficina.

Os primeiros tempos depois da guerra foram de reconstrução do espaço. Os bombardeamentos de Colónia arrasaram a oficina. O desenvolvimento deveu-se, em parte, à opção de orientar a impressão para os chamados trabalhos "acidentais" (em alemão: Akzidenten), i.e., impressos para empresas e particulares. Essa orientação empresarial teve, na minha experiência pessoal, implicações negativas, mas sobretudo positivas. No que diz respeito a aspectos negativos, poucos, sobravam para mim algumas tarefas menores, a saber, frente a um suporte próprio, juntar as cópias e o original de impressos comerciais (o processo chamado: zusammenlegen) para, de seguida, passar à colagem dos conjuntos. O positivo de todo o tempo passado na oficina era o acompanhamento das várias fases da composição e impressão, o contacto com a beleza dos vários tipos de papel, a enorme quantidade e variedade de tipos e, sobretudo, a oferta graciosa de algumas recordações pelo trabalho feito. Assim, juntei tipos e papéis vários que ainda hoje guardo com estima.

Para terminar as minhas memórias de hoje, destaco um conjunto de iniciais que se reproduzem a seguir. Quando as descobri, achei-as um encanto e pedi as letras correspondentes às minhas iniciais.



Resta acrescentar que, na cave da oficina, se guardava o segredo maior. Um espaço repleto de cavaletes com caixas e caixas de tipos diversos que o filho do proprietário, tipógrafo de ofício, começou a juntar a partir de 1965. O que para mim era a gruta do Alibabá, não era mais do que o cemitério das diversas tipografias que encerravam e vendiam, a peso, o material tipográfico, especialmente os tipos. Para além do prazer ao olhar para as caixas, nunca pensei que a experiência tivesse, num futuro distante e num país longínquo, tanta utilidade.

Tenho pena, mas não faço ideia onde todo este material foi desembocar e se voltou a dar algum prazer a outras criaturas.

Post de HMJ