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terça-feira, 20 de março de 2012

Despojos


O azul já não é o anémico anil de há um mês atrás. Está mais firme, lá no alto, e o sol já nos aquece num débil ainda calor primaveril.
Vinha eu a pensar nos talheres do "Titanic" que, alguns, foram dar a Ílhavo, em casas de descendentes de pescadores bacalhoeiros. À deriva, um mês e meio depois do naufrágio do transatlântico, encontraram um móvel que tinha dentro vários talheres. Que vieram a ser distribuídos, depois, pelos pescadores do "Trombetas", veleiro da Figueira da Foz.
Vinha eu a pensar nisso quando, na Rua do Carmo, vejo três pessoas a arrumar volumosos pacotes de livros, numa carrinha Volkswagen. Depois, reparei donde vinham: da encerrada Livraria Portugal. Que ainda tinha, nas montras, letreiros a indicar descontos de 70%. O prédio já estava com andaimes e deve ir para obras. Os livros iriam, decerto, para fundos de alguma congénere.
Dos talheres do "Titanic", nem todos foram ao fundo. Há ainda facas, colheres e garfos de prata espalhados por algumas casas de Ílhavo - dizia o jornal.
Despojos...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Favoritos LXII : desaparecimentos e efemérides


Às vezes, os factos associam-se, num universo pequeno de melancolia.
Faz, hoje, 86 anos que, muito fragilizado, e com 59 anos incompletos, morria em Macau, o poeta Camilo Pessanha. É um dos meus poetas portugueses predilectos, e que nunca me canso de reler.
Hoje, se passar na Rua do Carmo, já não poderei entrar na Livraria Portugal, para ver livros. Ontem, foi o último dia em que esteve aberta, antes de encerrar, definitivamente.
Há cerca de uma semana lá comprei o meu último livro, que se mostra em imagem - talvez venha a falar dele, mais tarde. Mas a Livraria, quando lá entrei pela última vez, tinha já uma atmosfera de velório antecipado: as estantes meio-vazias, empregados e clientes falando baixo, memórias antigas, tristeza...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Chiado vai perdendo alma


No próximo dia 29 de Fevereiro de 2012, a Livraria Portugal, na Rua do Carmo, encerra as suas portas, após 70 anos de existência. É talvez um dos últimos redutos, no Chiado, onde os empregados sabem dar informações bibliográficas, sem ter de ir ao computador para, depois, dar uma indicação meramente burocrática, anódina, tantas vezes inútil. Os empregados da Portugal sabiam, sempre, onde estavam os livros, mesmo os mais obscuros, sabiam dar informações bibliográficas ou indicar pistas de procura porque são profissionais, gostam de livros e lêem. No Chiado, ficam ainda, abertas, as Livrarias Bertrand e Sá da Costa, mas estão já muito descaracterizadas e os funcionários sabem muito pouco de livros...
A Livraria Portugal tinha até um boletim mensal com informação bibliográfica de novidades, muito útil, e, na última página havia uma crónica de curiosidades culturais que José Pedro Machado escreveu, até morrer. Muitas vezes o vi, por lá, circular por entre os escaparates e folhear uma ou outra obra recém-chegada. A Portugal era das poucas livrarias, em Lisboa, onde se podiam comprar monografias regionais e obter informações fidedignas e úteis porque quem lá trabalhava, e ainda trabalha até ao fim do mês, sabia do assunto. Mas, hoje em dia, isso já não chega. E a chegada da FNAC deu-lhe a machadada final e de morte.
O Chiado vai, cada vez mais, perdendo a alma.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Em louvor do autêntico Livreiro


Livreiro é, hoje, uma palavra em desuso. Ou uma profissão em vias de extinção. Claro que há computadores que tudo informam, excepto o essencial. Vendedores não diferenciados que poderiam estar a vender parafusos e pregos, mas estão nas livrarias para tentar vender livros, por questões do destino e da sobrevivência. E, depois, há os topos de gôndola das grandes superfícies. E os contentores que, antes, venderam atum "Bom Petisco", estão agora cheios de "Códigos da Vinci". Nos outros países europeus também é assim, não se pense que é o triste fado português. Como nos filmes (ver o magnífico texto de Manuel de Oliveira, "Defesa do Cinema Português", no "Público" de hoje, dirigido à pianista e Ministra da Cultura), também em relação aos livros, há sinuosos "abafadores" de Cultura. Nem o Salazar foi tão longe...
Mas falava de livreiros. Aqueles que conheci, no Norte, já morreram todos: o Ginha ( de olhos verdes, com acne adolescente, já passava dos sessenta), o Sr. Lemos, tão baixinho que parecia um gnomo, mágico e eléctrico; o Sr. Gomes, um pouco hierático, mas solícito e generoso. Todos eles me orientaram as leituras, no bom sentido, até à adolescência. Mas aquele que mais memória me deixou, da Livraria Académica, no Porto dos anos 50, nunca lhe soube o nome. Era tão discreto, sábio e simples que nunca se me nomeou.
Claro que, em Lisboa, conheci, depois, grandes livreiros: o Sr. Almarjão, o Sr. Beckmeyer, o Sr Ernesto da Biblarte, o Sr. Tarcísio Trindade, da Rua do Alecrim, nº44. Ou o ainda jovem Luís Gomes, da "Artes e Letras". Tirante o Sr. Almarjão, todos estão vivos, felizmente. Mas são todos Livreiros-alfarrabistas. Livreiros, livreiros, na melhor acepção de vendedor de Livraria, que eu saiba, há apenas um ou dois na Livraria Portugal, e bonda! Na Férin, são todos aristocratas, e não de sangue...
Volto ao Porto e à Livraria Académica, nos anos 50 ( não confundir com a actualidade e com o Sr. Canavez que está rodeado de encadernações fulgurantes "pour épater le bourgeois"), e àquele Senhor Livreiro afável e discreto, tinha eu 15 anos, que me recomenda o primeiro livro de ensaios que eu li na minha vida: "Por um novo Humanismo", de Rodrigo Soares. Ainda hoje me lembro. Só nunca soube o nome deste magnífico Livreiro, amigo da Cultura, simples e sábio.