
Livreiro é, hoje, uma palavra em desuso. Ou uma profissão em vias de extinção. Claro que há computadores que tudo informam, excepto o essencial. Vendedores não diferenciados que poderiam estar a vender parafusos e pregos, mas estão nas livrarias para tentar vender livros, por questões do destino e da sobrevivência. E, depois, há os topos de gôndola das grandes superfícies. E os contentores que, antes, venderam atum "Bom Petisco", estão agora cheios de "Códigos da Vinci". Nos outros países europeus também é assim, não se pense que é o triste fado português. Como nos filmes (ver o magnífico texto de Manuel de Oliveira, "Defesa do Cinema Português", no "Público" de hoje, dirigido à pianista e Ministra da Cultura), também em relação aos livros, há sinuosos "abafadores" de Cultura. Nem o Salazar foi tão longe...
Mas falava de livreiros. Aqueles que conheci, no Norte, já morreram todos: o Ginha ( de olhos verdes, com acne adolescente, já passava dos sessenta), o Sr. Lemos, tão baixinho que parecia um gnomo, mágico e eléctrico; o Sr. Gomes, um pouco hierático, mas solícito e generoso. Todos eles me orientaram as leituras, no bom sentido, até à adolescência. Mas aquele que mais memória me deixou, da Livraria Académica, no Porto dos anos 50, nunca lhe soube o nome. Era tão discreto, sábio e simples que nunca se me nomeou.
Claro que, em Lisboa, conheci, depois, grandes livreiros: o Sr. Almarjão, o Sr. Beckmeyer, o Sr Ernesto da Biblarte, o Sr. Tarcísio Trindade, da Rua do Alecrim, nº44. Ou o ainda jovem Luís Gomes, da "Artes e Letras". Tirante o Sr. Almarjão, todos estão vivos, felizmente. Mas são todos Livreiros-alfarrabistas. Livreiros, livreiros, na melhor acepção de vendedor de Livraria, que eu saiba, há apenas um ou dois na Livraria Portugal, e bonda! Na Férin, são todos aristocratas, e não de sangue...
Volto ao Porto e à Livraria Académica, nos anos 50 ( não confundir com a actualidade e com o Sr. Canavez que está rodeado de encadernações fulgurantes "pour épater le bourgeois"), e àquele Senhor Livreiro afável e discreto, tinha eu 15 anos, que me recomenda o primeiro livro de ensaios que eu li na minha vida: "Por um novo Humanismo", de Rodrigo Soares. Ainda hoje me lembro. Só nunca soube o nome deste magnífico Livreiro, amigo da Cultura, simples e sábio.