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sexta-feira, 18 de março de 2022

Retro (112)



O anúncio era de 1909 e vinha na guarda posterior do número 230 do voluminho sobre a História da Literatura Portuguesa, obra que tinha a indicação preciosa de: "Acomodada ao programa dos Liceus". Este livrinho, da útil Bibliotheca do Povo e das Escolas, não indicava o nome do autor do texto publicado.
Quanto à publicidade ao livro de Júlio Dinis, creio que dispensa quaisquer comentários.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Bibliofilia 195



Acusando o desgaste marcado pelo tempo, este meu primeiro volume do Curso de Litteratura Portugueza trabalhado por José Maria de Andrade Ferreira (1823-1875), veio a ser continuado num segundo tomo (exemplar que está em melhor estado de conservação) por Camilo Castelo Branco (1825-1890), por falecimento do autor inicial, tendo sido editado (1875/6) pela Empreza Litteraria Fluminense, sediada na rua dos Retroseiros, em Lisboa.



Trata-se de uma primeira edição, e estes meus dois exemplares ostentam ex-libris e assinaturas manuscritas de posse de Augusto da Costa, que não consegui saber quem fora. É obra interessante esta panorâmica literária portuguesa, embora a obra seja raramente referida.
Os 2 volumes brochados, semelhantes aos meus, tinha-os à venda a Livraria Trindade (Lisboa), há algum tempo atrás, por 80 euros.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Bibliofilia 168


O Natal é, provavelmente, uma das temáticas mais frequentada pelos escritores portugueses.
Da crónica (Fialho, Ramalho Ortigão) ao conto (Eça, Sophia, Sena), passando pela poesia (Régio, Eugénio de Andrade, Mourão-Ferreira), a quadra natalícia foi abordada, exaustivamente, na literatura portuguesa, de forma melhor ou pior.
Continuo a achar que a melhor antologia que se fez, de textos literários, sobre este tema, foi editada e coligida por Vitorino Nemésio, em 1944, sob o título O Natal Português. Mas já  falei dele, aqui, no Arpose, a 23/12/2013 (Bibliofilia 93). Relembro, pela qualidade, o Cancioneiro de Natal (1972), de David Mourão-Ferreira, com dois ou três belíssimos poemas alusivos.
E não posso deixar de referir, porque seria pecado não o fazer, nesta altura do ano, O Natal na Arte Portuguesa (1965), de José Régio. Para iconografia deste poste, escolhi dois livrinhos menos valiosos, mas que não deixam de ser interessantes. O Natal em Portugal (1955), em que Luís Chaves foca as tradições beirãs desta época; e um belo conto de Jorge de Sena (A Noite que fora de Natal), escrito no Brasil (Araraquara), e editado pela Estúdios Cor, em Dezembro de 1961.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Uma perspectiva transversal da literatura portuguesa, de Óscar Lopes, a propósito de Aquilino


A sistematização ampla de sintomas e a caracterização geral do perfil e temáticas, que pontuam e definem a literatura portuguesa, são raras. No entanto e do meu ponto de vista, a análise a que Óscar Lopes (1917-2013) procede, ao abordar a obra de Aquilino Ribeiro (1885-1963), na Colóquio-Letras 85 / Maio de 1985, parece-me uma exemplar sinopse. Daí a transcrição, que faço a seguir, de um excerto nuclear das palavras de Óscar Lopes:

"...Outro exemplo, e esse é que faz ao caso, é o seguinte: há na literatura portuguesa uma grande carência de tudo o que seja expressão exuberante da simples alegria de viver, de viver, viver, mesmo apesar e através das maiores agruras ou tragédias. A saudade e a tristeza são o grande emblema da nossa lírica e da nossa novelística, e já contra elas se levantava D. Duarte, que tinha costela inglesa. Ver os grandes dramas individuais ou colectivos como uma grande festa para os olhos, para os sentidos, para o corpo e para a inteligência, para a inteligência e para a fantasia, não é típico da atitude literária portuguesa, embora, evidentemente, ocorra aqui ou além em Fernão Lopes, Gil Vicente, n'Os Lusíadas e na Peregrinação de Mendes Pinto. A atitude literária portuguesa típica é a de meditar sobre as razões de se ser triste, sobre as contradições do nosso contentamento descontente, sobre o além (ou a ausência causal) de todas as nossas insatisfações. Tipicamente, o poeta ou ficcionista português não se permite um espectáculo, um conflito, um enredo, sem a competente retórica justificativa, sem que tudo isso sirva de pretexto a um encarecimento, uma apologia, uma lição de doutrina ou moral. A alegria em estado puro e ainda por cima bem consciente de si, a perfeita reconciliação com a natureza de que nascemos ou da natureza que connosco se descobre e refaz, ou seja, aquilo a que se chama o naturalismo do Renascimento, ou o aspecto por assim dizer solar (e não lunar) do naturalismo do séc. XIX, o próprio saborear da vitalidade humana a contas com as misérias e prepotências do mundo, tal como se espelha na novela picaresca espanhola, pode dizer-se que tudo isso irrompeu em força, e subitamente, nas letras portuguesas com Aquilino Ribeiro, e com uma exuberância ou diversidade de manifestações que contrasta com a raridade dos hossanas portugueses ao Sol, com o coro quase geral dos poetas da lua e da sombra, salvas poucas e pouco variegadas excepções em que, ao tempo de Aquilino Ribeiro, uma geração antes e outra geração depois, eu destacarei CesárioVerde, Almada-Negreiros e Miguel Torga. ..."

domingo, 31 de janeiro de 2016

As cidades e as serras


A actual ficção portuguesa é, retintamente, urbana. Talvez pela negativa. Houve tempo em que eu pensava que, prosa e poesia, lusas, seriam eternamente bucólicas, campestres, verdejantes ou acastanhadas pelo Outono. Mas o neo-realismo excedeu as medidas, saturou, numa obrigação ideológica que pouco tinha de natural. Entretanto, as populações foram abandonando o campo e as serras interiores, para os trocarem pela terra prometida das cidades. Seminários e Escola do Exército (Academia Militar) forneciam, também, o trampolim necessário ao desígnio dos mais ambiciosos e inteligentes, embora fatidicamente pobres: assim, Aquilino, assim, Vergílio Ferreira...
Ficaram, no entanto e actualmente, em alguma da literatura portuguesa, vestígios residuais: um lado muito provinciano de ver a vida, um apetece-me estar em paraísos artifíciais, uns piercings caracterizantes de mais nada, um ronceiro hábito de cafés cosmopolitas, uma fome de séculos, uma miopia de civilização natural, um lado patego e irreal de imaginar as metrópoles mais emblemáticas. E uma enxúndia barroca de palavras que ainda cheira a estrume e folhas mortas, na sua origem, agora artificial, irrealista, irrelevante. Porque não era assim, dantes, nem lembrava o falso, quando de cenários se falava, ou de viver se escrevia.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Aterro


O Aterro, também chamado Grande Aterro ou Aterro da Boa Vista (do nome homónimo da praia fluvial ali existente), foi obra grande da engenharia portuguesa do século XIX, que teve como objectivo principal a construção do novo ou moderno porto de Lisboa, ordenando, humana e artificialmente, a margem direita do Tejo. As obras de conquista de terras ao rio, com pedras da região de Marvila, permitiram, também, a construção da Avenida 24 de Julho.
Dei-me conta, há dias, da diminuta quantidade de autores portugueses que se estudam no ensino secundário, se comparados com os escritores que eu tive de estudar, na minha juventude. Soterrados ficaram, entretanto, os Cancioneiros, medievais e Geral, Sá de Miranda, Francisco Manuel de Melo, grande parte do séc. XVIII, Nobre, Camilo... E a actualização dos nossos dias incorporou mais, e apenas, Pessoa, Sttau e Saramago.
Com esta rasura e aterro, nem sequer se construiu (em jeito de metáfora) nenhuma útil Av. 24 de Julho... E eu bem gostaria de saber porquê? Ou em nome de que alto espírito e intenção.

domingo, 30 de junho de 2013

Da Janela do Aposento 35: Saber pensar, saber escrever (2)



Como remate do texto anterior, António Guerreiro ocupa-se, na ípsilon de 28.6.2013, dos exames.
A brilhante ironia da análise dos "enunciados e critérios de classificação" dispensa comentários menores. Sublinhei, contudo, dois aspectos que me obrigam a um aditamento pela repulsa, ainda incontida, que me provocam, apesar de me encontrar já, formalmente, "posta em sossego".
O "discurso treinado ao longo do ano" transformou, há muito, o 12º Ano, na área do Português e Literatura Portuguesa, num espaço circense, em que o domador treina os "animaizinhos" a papaguearem as respostas contidas nos numerosos "materiais de apoio" que fazem as delícias das vendas de grupos como a Leya e outros. Felizmente, consegui sempre ficar longe de semelhante espectáculo degradante, pois havia sempre muitos candidatos "decanos" que assumiam tais funções como corolário brilhante das suas carreiras.
A "justiça infalível e universal", de que fala António Guerreiro, é a base do dogma que arruinou a liberdade de ensino e conseguiu, democraticamente, implementar um desejo do Estado Novo, i.e., anular o pensamento próprio dos professores e alunos.
E, no meio de tantos "cenários de resposta", permanece uma "chatice" insolúvel, ou seja, a incapacidade de eliminar a subjectividade própria da Literatura que atrapalha tudo.
Falta, pois, uma "prescrição" que obrigue os escritores - e sobretudo os poetas - a produzirem textinhos mais adaptados à pretensa objectividade dos exames. A partir daí, teríamos, certamente, um sucesso retumbante nas estatísticas.

Post de HMJ