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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

As palavras do dia (59)

 

O escritor argentino César Aira (1949) acrescenta na entrevista: "A literatura actual foi reduzida a entretenimento, boas intenções e mediocridade."
Eu faria um aditamento realista: à força de quererem tornar a arte acessível ao "povo", desceram a fasquia ao nível do chinelo democrático.

sábado, 31 de maio de 2025

Últimas aquisições (60)



 A influência cultural da França em Portugal, até meados do século XX, foi predominante. Antes, terá sido a catelhana e a galega, hoje predomina a inglesa e a norte-americana, com todas as vicissitudes negativas que esta última traz atrás de si.
Este número duplo e especial do Lire aborda em dossiês especializados 7 escritores clássicos da literatura gaulesa. A revista densa (226 páginas) é cara (20 euros), mas antecipo que deve valer a pena comprá-la.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Desnorte



Creio que o Nobel atribuído às Ciências mantém, ainda hoje, a respeitabilidade e rigor em relação aos nomeados e premiados, pese embora o facto de que uma avaliação criteriosa do cidadão comum obrigasse a um conhecimento mínimo, mas também a alguma especialização da matéria em causa. A atribuição recente do Prémio Nobel de Medicina aos pioneiros (o norte-americano D. Weissman e a húngara K. Karikó) na descoberta de vacinas contra o covid-19, no entanto, parece-me séria e sensata. Merecida, também.
Quanto ao Nobel da Literatura, na minha perspectiva e de há uns tempos a esta parte, o desnorte e irracionalidade crítica têm sido quase sempre dominantes, quanto aos premiados. Neste ano de 2023, a "bolsa de valores" contém 5 escritores candidatos. Mas as notícias sensacionalistas encaram a hipótese de Joni Mitchell ou Patti Smith poderem vir a ser escolhidas. E porque não Elton John?, pergunto eu...
Agora, falando a sério, e se eu fosse do júri votaria, convictamente, em J. M. Coetzee (1940).

Nota pessoal, posterior: por lapso de memória, não me lembrei que Coetzee tinha sido nobelizado em 2003, conforme Maria, no blogue amigo Prosimetron, me recordou, e a quem agradeço.
Assim, este ano, não teria candidato. Abstinha-me.

sábado, 23 de novembro de 2019

Escrever bem


Que queremos dizer quando dizemos: Fulano escreve bem?
Se é um dado adquirido e uma verdade insofismável que ninguém discute a qualidade da escrita do escalabitano Fr. Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho) ou de Camilo, outro tanto será arriscado afirmarmos sobre a ficção de Hemingway ou de Mann, porque, no fundo e na maior parte destes casos, os livros passaram pelo crivo de melhores ou piores tradutores, quando os lemos na versão nacional. E se Fiesta (The Sun also rises) ganhou, em português, pela pena de Jorge de Sena, também já li algumas traduções de Mauriac, por exemplo, de péssima qualidade...
Elegância, clareza, ritmo, a proporção equilibrada das frases são factores a ter em conta - creio.
Mas se prefiro, talvez, o estilo sucinto de Cardoso Pires na esteira objectiva de Hemingway, não deixo de admirar a construção poderosa e inteligente de António Vieira, que me faz lembrar Quevedo.
O resto terá de sentir-se mais por intuição advinda de uma longa experiência vasta de leituras. E se tivermos sentido crítico que, normalmente, não abunda por estas paragens lusitanas...

domingo, 22 de setembro de 2019

Divagações 153


É raríssimo, hoje em dia, ter estados de alma frenéticos ou obsessivos que me façam dizer, caprichosamente: tenho que ver este filme ou tenho que comprar este livro. O tempo, o sentido crítico e a experiência permitem -me ver a fugacidade e a vida efémera de tantas obras e tantos autores. Bem como as modas breves de tantos sucessos de "há quinze dias"...
O jornal inglês The Guardian resolveu publicar uma lista dos 100 "melhores" livros de século XXI. Provavelmente, e até ao fim deste século, ainda publicará mais 4..., mas já não estaremos cá para ver.
Consultando a relação geral, concluo que li apenas 3 das obras eleitas, o que nada me preocupa. Refiro as minhas conhecidas e o seu lugar, quanto a importância:
68 - The Constant Gardener (2001) - John Le Carré.
36 - Experience (2000) - Martin Amis.
5 - Austerlitz (2001) - W. G. Sebald.
Da lista, Coetzee não consta, nem sequer George Steiner, o que será no mínimo estranho. Mas quem sabe (?) se as editoras não terão pago ao jornal britânico para os seus autores constarem do rol? Tal como as empresas comerciais pagam às grandes superfícies, para os seus produtos irem ornamentar os topos de gôndola.
Não me admirava nada...

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Mais uma listagem


A escolha é ampla e abrangente, embora o título quase pareça dramático. A tradução do livro (960 páginas) não me pareceu das melhores e a revisão é descuidada. As ilustrações são de qualidade notória. A selecção é inclusiva e contempla até livros policiais, com apenas um senão, para mim:  o nome de Simenon não consta.
De livros portugueses, há 34 entradas que vão de Os Lusíadas, de Camões, até Lídia Jorge (O Vale da Paixão), passando por Camilo, Aquilino, Torga, Agustina, Mário de Carvalho. O autor mais representado é Lobo Antunes, com 5 obras. Seguem-se Saramago (4) e Eça, com 3 livros. Do conjunto nacional, 9 nunca os li.
Podia ser pior. No meio de tantas sumidades, haver cerca de 3,5% de autores portugueses, só prova a liberal generosidade do professor Peter Boxall (1969), da universidade de Sussex (Inglaterra)...

sábado, 13 de abril de 2019

Fotografia e ficção, segundo W. G. Sebald (1944-2001)



São pouco mais de 5 minutos, em que Sebald explica como parte da fotografia para a ficção.
A entrevista, em vídeo, está legendada em castelhano o que facilita a compreensão de quem não entenda o inglês. Na sua simplicidade, é muito elucidativa.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As diferenças de grau e o sentido crítico, ou a eterna infância


Por extremo limite e desatenção flagrante, ou por amável estultícia infantil, é claro que podemos meter no mesmo saco, de Poesia, António Aleixo e Luís de Camões. Em cinema, não fazermos distinção entre  Ed Wood e Kubrick. Umberto Eco e Dan Brown, na ficção histórica. A noção de qualidade é, ou devia ser, uma exigência de quem cresce. A sua ausência denota, também, a inexistência de sentido crítico e a eternidade inocente de algumas infâncias que se perpetuam, para felicidade  pueril e inefável dos seus donos...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

George Steiner : a teoria da omissão

O silêncio, a dúvida e a procura também podem ser um sinal de sabedoria.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Casamentos felizes


Nem sempre cinema e literatura casam bem. E há, por vezes, alguma desproporção entre uma obra literária célebre, que foi adaptada ao cinema, e o filme realizado. Acontece que, normalmente, existe um certo desequilíbrio entre as duas formas de Arte, pese embora a força impressiva das imagens de um filme, em confronto com o poder (menor?) das palavras de um romance, conto ou novela. Para citar Camilo, nem sempre há casamentos felizes. Do que li e vi, não consigo, no balanço de memória, encontrar Doze Casamentos Felizes, como no romance do Escritor. No meu cotejo, dou por fé, no entanto, 9 adaptações primorosas de literatura ao cinema. Cronologicamente, aqui ficam, com referência aos respectivos autores e datas dos filmes:

- "À beira do abismo" (The Big Sleep), de Raymond Chandler - Howard Hawks (1948).
- "O Leopardo", de Giuseppe Tomasi di Lampedusa - Luchino Visconti (1963).
- "O Doutor Jivago",  de Boris Pasternak - David Lean (1965). 
- "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury - François Truffaut (1966).
- "2001 - Odisseia no Espaço", de Arthur C. Clarke - Stanley Kubrick (1968).
- "Morte em Veneza", de Thomas Mann - Luchino Visconti (1971).
- "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco - Manoel de Oliveira (1978).
- "The Dead", de James Joyce - John Huston (1987).
- "The End of the Affair", de Graham Greene - Neil Jordan (1999).

Terei esquecido alguma geminação equilibrada? É possível. E convém acrescentar a limitação das minhas leituras e dos filmes que tive ocasão de ver. Para não falar do gosto pessoal. Sempre subjectivo.

para Maria Franco, e por causa de um seu comentário (ao poste anterior), aqui no Arpose...

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mary McCarthy (1912-1989)


À excepção de John Updike, dos autores norte-americanos, é talvez Mary McCarthy a escritora mais representada na minha biblioteca. Acontece que, em finais dos anos 60, estive para fazer um trabalho universitário sobre a sua obra e só à última da hora optei antes por Updike.
Numa das suas últimas entrevistas, Mary McCarthy, perguntada se posta perante uma escolha de voltar a re-viver, faria tudo na mesma, terá respondido que escreveria mais, mas leria menos.



Mulher de fortes convicções, a escritora teve uma polémica intensa com Simone de Beauvoir, figura que detestava, aliás. A emulação entre as duas é atestada por dois livros que, com diferença de apenas um ano, publicaram. Em 1957, McCarthy editou Memories of a Catholic Girlhood e Beauvoir, no ano seguinte (1958), fez editar Mémoires d'une Fille Rangée. Por outro lado, a norte-americana cultivou, com grande fidelidade, uma forte amizade com a filósofa Hannah Arendt, cuja evidência é testemunhada pela volumosa correspondência, recentemente publicada.
Os direitos cívicos e a guerra do Vietname foram duas das grandes causas em que também se empenhou intensamente.



Depois de alguns anos de relativo apagamento, a obra de Mary McCarthy parece suscitar um renovado interesse revelado pela publicação da sua obra completa (The complete fiction), em dois volumes, pela Library of America. O que não deixa de ser uma boa notícia.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Perguntar


É o homem que faz o tempo, ou a época que faz o homem?
Se "Os Lusíadas" e a "Peregrinação" acompanharam, de algum modo, o dinamismo português do seu tempo, que dizer da obra maior de Pessoa, gerada num período nacional (quase todo ele) baço e parado, restritivo, talvez desinteressante, até?
E agora?

sábado, 28 de novembro de 2015

Insuficiências humanas


A grandeza (de uma obra) tem o condão de fazer esquecer, ou perdoar, os pequenos crimes da personagem criadora, nas suas cumplicidades diversas. É um aspecto estranho e inexplicável, quer em política, quer em literatura. Goethe e Napoleão, Pound e Mussolini, Heidegger e Hitler, Cela e Franco, e até a complacência de Borges para com Pinochet...
Não há nada, aparentemente, que o justifique, do ponto de vista ético e racional. E este perdão tácito só poderá explicar-se por uma dicotomia estanque entre a obra e o homem. E será que ela existe, de facto? Ou somos nós que forçamos a sua existência?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Da importância dos nomes em literatura


Para a grande maioria dos escritores, não são inteiramente indiferentes os nomes que usam, para os protagonistas, nas suas obras de ficção - às vezes, são maduramente pensados, por várias razões. Fixáveis, sonantes, sugestivos.
Henry James costumava coleccionar nomes que apareciam em "The Times", para depois os vir a utilizar nos seus romances. Simenon, quando se hospedava em hotéis estrangeiros, frequentemente folheava as listas telefónicas dessas cidades, anotando nomes que lhe parecessem memoráveis, para futuras obras de ficção. T. S. Eliot era mais original e criativo, ideando nomes exóticos e inexistentes, até aí: Prufrock, Madame Sosotris, Mr. Apollinax...
Por cá, Eça era sucinto, normalmente: "Os Maias", "O Primo Basílio". Quanto a Camilo, atente-se nestes dois títulos de romances:
- "Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado"
- "O carrasco de Víctor Hugo José Alves",
que, apesar de longos, são nomes facilmente fixáveis. E eu quero crer que Camilo não os usou por mero acaso.