Mostrar mensagens com a etiqueta Leonarda Gil da Gama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leonarda Gil da Gama. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Addenda a Bibliofilia 48 ("making of")


É quase inimaginável, hoje, constatar as etapas protocolares por que passou o "Orbe Celeste adornado de brilhantes estrelas e dois ramilhetes..." de Leonarda Gil da Gama, até vir a ser publicado, pouco depois de 5 de Abril de 1742. Talvez pela Autora ser professa e a obra se basear na vida de santos (S. José, S. João, Sta. Ana...), são inúmeros os religiosos a dar parecer e inscrever o "nihil obstat", autorizando a impressão. Cronológicamente:
1. O primeiro texto do livro é a dedicatória de Leonarda Gil da Gama a D. Joana Tereza de Noronha e Nápoles, que tem a data de 3 de Maio de 1740. Bem como o Prólogo ao Leitor.
2. As primeiras licenças do Santo Ofício são de 9 de Maio de 1741.
3. O segundo censor (Fr. Manoel da Anunciação) acaba a leitura da obra, em 25 de Maio de 1741, passando-a a 3 novos leitores, a 30 de Maio do mesmo ano.
4. Pelo Ordinário, mais 2 censores: Fr. José da Madre Deus (22 de Junho) e Gouvea (?) a 30 de Junho de 1741.
5. Do Paço, Fr. Estacio da Santíssima Trindade (a 23 de Junho de 1741), que  acrescenta à obra um grandiloquente Prefácio, remete-a à Mesa que despacha o Livro a 10 de Julho de 1741.
6. Finalmente, a confrontação final, feita por 8 religiosos, entre 3 e 5 de Abril de 1742.
Tinham-se passado quase 2 anos desde o ponto de partida...
Não resisto a deixar do Prefácio de Fr. Estacio da Santíssima Trindade, um pequeno excerto com algumas pérolas desta imponente arquitectura sobre o vazio, que foi o Barroquismo cultista. Seguem:
"...diversidade dos Poemas; em que a Autora tacitamente repreende, e eizemplarmente ensina a muitos poetizantes da moda; que entendem está o altisono do verso no recondito dos conceitos; ou que só no recondito está o profundo, e consiste o sutil: imaginando não póde deixar de ser confuzo o que for laconico; nem póde ser claro o que for grandiloco, que mais certo he; que buscão na obscuridade do estilo valhacoito, em que por ocultos se não conheção dos seus Poemas os defeitos. ..."
Na realidade, e para ser justo, aqui há 50 anos, ainda apareciam, em alguns discursos oficiais, "pérolas" como estas, de grande munificência e muito pouco conteúdo. Contágios...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Bibliofilia 48 : Leonarda Gil da Gama


Leonarda Gil da Gama, anagrama de Maria Madalena Eufémia da Glória, nasceu em Sintra, a 11 de Maio de 1672, e terá morrido por volta de 1750. Entre 1733 e 1749 fez imprimir, pelo menos, 5 obras em que o virtuosismo barroco atinge o seu esplendor, em loas a santos e santas, em louvor da religião, mas não só. A autora tinha professado, com 16 anos incompletos (1688), no Convento da Esperança, segundo Inocêncio.
Os seus livros são raros, ou muito pouco frequentes. As suas obras nunca foram reeditadas, e é pena: dariam um case study singular, sobre o barroco português. Apenas uma antologia (incluindo excertos de obras, também, de Violante do Ceo e Maria do Ceo), organizada por Mendes dos Remédios, em 1914, foi publicada em Coimbra, com prosa e versos de Leonarda Gil da Gama.
Pelo prólogo, em imagem, de "Orbe Celeste..." (1742) se poderá fazer uma pequena ideia do virtuosismo e domínio que a autora possuía sobre as técnicas da escrita barroca. O livro, em presença, custou 45,00 euros, muito recentemente. E, embora haja vários vestígios de traça, nas páginas, o texto nunca é afectado.