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domingo, 19 de agosto de 2018

Música e Poesia LXX

Fellini teve a sorte de encontrar, em Nino Rota, o contraponto capaz ao seu génio. Mas, raramente, isto acontece: esse equilíbrio de divina proporção. E, com isso, as imagens acabam por ser obliteradas na memória do filme, pela música. Assim acontece, por exemplo, n'A Missão - filme menor, quanto a mim - largamente ultrapassado pela música de Ennio Morricone, apesar dos bons desempenhos de Robert de Niro e Jeremy Irons. Quantos de nós, provectos, não saberão assobiar, ainda, a marcha de A ponte do rio Kway? Ou atinar com algumas músicas de Bernstein, concebidas, especial e inspiradamente, para West Side Story. Alguém se lembra do nome do realizador do filme? Eu, não.
Kubrick, que era inteligente mas demasiado cauteloso, foi-se aos clássicos, desacertadamente. Se atinou bem - quanto a mim -, em Zaratrusta, banalizou-se, clamorosamente, no Danúbio Azul, que acompanha o movimento da nave, pelo espaço. Os Strauss, como família musical, nem todos eram magníficos. Assim como os Bach. Os genes evoluem, uns para melhor, outros, para pior...

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Leonard Bernstein (1918-1990) : de "West Side Story" ("I feel pretty")


Oficiais do mesmo ofício


Tenho, afortunadamente, cópia de uma carta pessoal de Herberto Helder, enviada a Eugénio de Andrade, em Dezembro de 2000, onde aquele faz observações pertinentíssimas e justas sobre a poesia dos, na altura, seus confrades poetas portugueses. De uma forma sucinta, mas arguta, classifica-os, através das suas qualidades e dos seus defeitos. É um texto precioso para uma melhor compreensão da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.
Saíu, recentemente, na Yale University Press, um volume de 606 páginas, da correspondência entre Leonard Bernstein (1918-1990) e Aaron Copland (1900-1990), intitulado The Leonard Bernstein Letters. As cartas combinam, harmoniosamente, um tom respeitoso com um registo sempre muito afectuoso. Mas que não deixa de lado a reflexão crítica e racional sobre outros compositores da época. Quem sai um pouco "chamuscado", desta correspondência, é George Gershwin (1898-1937), que Bernstein refere como sendo um autor de músicas descosidas (o adjectivo é meu) e sem unidade - em suma, com pontos altos, mas fragmentados e sem consistência de unidade.
Em determinadas áreas - e a Música e a Poesia são, porventura, dos melhores exemplos - não há nada como os próprios oficiais do mesmo ofício, para as avaliarem como deve ser. Ao leigo cabe, apenas, gostar ou não gostar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012