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sábado, 8 de dezembro de 2018

Cioran e a velhice


A vantagem de envelhecer é de poder observar de perto a lenta e metódica degradação dos órgãos; eles começam a estalar, uns de forma flagrante, outros, de maneira mais discreta. Destacam-se do corpo, como o corpo se vai separando de nós: ele escapa-nos, foge-nos, já não nos pertence mais. É um desertor que nós nem podemos denunciar, uma vez que ele não parte para nenhures, nem se põe, sequer, ao serviço de mais ninguém. (pg. 997)

E. M. Cioran (1911-1995), in Cahiers - 1957/1972 (1997).



Nota pessoal: terminei ontem, cerca das 19h00, a parcimoniosa leitura poupada destes "Cadernos" de Cioran, obra que me levou quase 20 anos a terminar, procurando prolongar o mais possível este diálogo estimulante, que me foi útil e sempre agradável pela diversidade e riqueza das suas reflexões.
Em termos de comparação, poderei dizer que me deu muito mais prazer do que a leitura de "Guerra e Paz", de Tolstoi, que também foi lenta e morosa, mas por outras razões. Porque, bem vistas as coisas, um livro de ficção pode não excluir, também, a reflexão e o pensamento... Embora raramente isso aconteça. Principalmente, nos dias de hoje.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Divagações 123



Li, há dias, em Le Monde, numa crónica (Terre brûlée) de Éric Chevillard, que, desde que o homem apareceu na Terra, não houve mais do que três dias seguidos de paz, no planeta. Fiquei surpreendido.
Se se consultar na internet, ou em qualquer livro dedicado ao tema, os desenvolvimentos de um batalha célebre (Trafalgar ou Borodino, por exemplo), na sua forma esquemática, ficar-se-á com uma ideia arrumada e geométrica da posição e progressão das armadas ou exércitos, gradual e ordenada nas movimentações - mas errada ou, pelo menos, não totalmente rigorosa.
Os posicionamentos e avanços (lentos, ao que parece) das tropas de Ney, em Waterloo (1815), ou a demora na ordem de ataque, retardada por D. Sebastião, em Alcácer Quibir (1578), a que se atribui uma das causas do desastre, não terão sido, por si só, razões fatais. Debaixo de fogo, as reacções humanas são, com frequência, desordenadas, irregulares e caóticas, mesmo que superiormente comandadas.




Stendhal é um bom exemplo, com A Cartuxa de Parma, da forma parcelar e dispersa dos acontecimentos da batalha de Waterloo. Como Tolstoi, em Guerra e Paz, na descrição das guerras napoleónicas, em solo russo. Um conflito bélico é feito, na sua realidade objectiva, de muitas sensações e reacções mistas: instinto de sobrevivência, coragem, mas também cobardia, numa desordem de sentimentos vários.
Por isso, a guerra é um erro em que todos perdem, embora alguns pareçam ganhar. Como a vida, aliás. Que Shakespeare definiu, magistralmente, no seu Macbeth, deste modo metafórico: It is tale/ told by an idiot, full of sound and fury,/ and signifying nothing.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (31)


Considerado, ainda hoje, o pai da foto-reportagem eslava, o prussiano Karl Bulla (1853?-1929), desde cedo naturalizado russo, tinha um faro apurado para o negócio. Profissionalmente, apostou em dois campos: a elite de S. Petersburgo, que fotografou insistentemente, e a utilização das suas obras na iconografia de postais que começavam a ter grande popularidade, e uso, em várias camadas da sociedade. Já em 1875, abriu o seu estúdio fotográfico, em S. Petersburgo, com grande sucesso. E os filhos seguiram-lhe a vocação, com posterior proveito comercial.
Afora o retrato, que encima este poste, podem ver-se: Rasputine e admiradores (admiradoras), e um sugestivo retrato de Tolstoi.

domingo, 13 de novembro de 2011

Proust e o prazer da leitura


Gostando eu muito de ler, houve por vezes, em mim, o sentimento de culpa por não ter conseguido acabar algumas obras que tinha, e tenho na minha biblioteca. Estão neste caso "A Guerra e Paz" de Tostoi, "A Morte de Vergílio" de Herman Broch, e "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust (1871-1922).
Repeguei, recentemente, num pequeno livro deste escritor francês, a que, em português, deram o título de "O Prazer da Leitura", muito embora, no original se intitule "Journées de Lecture", traduzido para a Teorema, por Magda Bigotte de Figueiredo.
Percebi então porque, de Proust e da sua obra-prima, só tinha sido capaz de ler "Du côté de chez Swann". As descrições são infinitas, barrocas, os detalhes milimétricos e, páginas e páginas decorrem, até que se encontre um momento de acção ou movimento vital. Em Proust quase parece que tudo está parado e imóvel para que o olhar analise cada objecto, cada móvel, cada interior e os descreva, parcimoniosamente, por palavras precisas. Através das sensações que vão despertando.
Mas este texto ("Journées de Lecture") merece ser lido ou, pelo menos, reter dele alguns excertos que nos dão uma exacta descrição pessoal do gosto pela leitura. Aqui vão:
"...E por vezes em casa, na minha cama, muito depois do jantar, as últimas horas do serão abrigavam também a minha leitura, mas isso, apenas nos dias em que tinha chegado aos últimos capítulos de um livro, em que não faltava muito para chegar ao fim. Nessas alturas, arriscando-me a ser castigado se fosse descoberto e à insónia que, terminado o livro, se iria talvez prolongar durante toda a noite, assim que meus pais se deitavam eu voltava a acender a minha vela; (...) Então, era isto? este livro, não passava disto? Aqueles seres a quem havíamos dedicado mais atenção e ternura do que às pessoas da vida, nem sempre ousando confessar a que ponto os amávamos, mesmo quando os nossos pais nos encontravam a ler e pareciam sorrir da nossa emoção, fechando o livro, com uma indiferença simulada ou um aborrecimento fingido; esses seres por quem havíamos tremido e soluçado, não voltaríamos a vê-los nunca mais, não viríamos a saber mais nada deles. ..."

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os livros que temos e os livros que lemos


Há dias, no "Público", Pacheco Pereira cronicou sobre a possibilidade de leitura de um ser humano, ao longo de toda uma vida. Concluía que, um leitor regular e empenhado, no máximo, talvez conseguisse ler, ao todo, 4.000 a 5.000 livros.
É normal, quando alguém conhecido entra, pela primeira vez, nas nossas casas (quando elas estão cheias de livros), perguntar: "Já leu estes livros todos?" Até aqui há uns anos, eu costumava responder: "Só cerca de 80%..."; mas, hoje, a fasquia teria de ser posta mais abaixo. Para ser verdadeiro, teria de dizer: "À volta de 60-70%, apenas..."
E tenho várias pedras no sapato. Nunca consegui ler o "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust, embora já tivesse feito inúmeras tentativas. "A Morte de Virgílio", de Hermann Broch, é outra das minhas faltas. Mas o meu maior remorso é o "Guerra e Paz" de Tolstoi. Em tempos de extrema juventude, consumi a minha Mãe, para que me comprasse os 3 altos ( e caros na altura: 150$00 escudos) e grossos volumes da Editorial Inquérito (1957), com tradução de José Marinho. Minha Mãe, depois de muito instada, lá mos comprou. Pois, infelizmente e até hoje, nunca consegui passar da página 70.
Mas tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Também tinha vários livros de Graham Greene, na biblioteca, desde os meus vinte anos, e nunca os tinha conseguido ler. Uma vez, já depois dos 45 anos, peguei num deles ao calhas e, gradualmente, li-o todo, e todos os outros com enorme agrado. Quase com tanta voracidade como quando, em 24 de Maio de 1971, fiz perto de uma directa, sem dormir, a ler, do princípio ao fim, nessa noite, "O Aprendiz de Feiticeiro" de Carlos de Oliveira.