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terça-feira, 7 de abril de 2026

Matéria prima



É a caracterísca mais garantida dos Fora-de-Série do "Le Point", a arrumação cuidadosa dos assuntos. Por outro lado, as Citações são a temática mais frequente do Arpose (531 postes). Assim justificava-se amplamente que eu adquirisse este número da revista francesa, para que me não faltasse inspiração...

sábado, 16 de agosto de 2025

Do que fui lendo por aí... 70

 

Transcrevendo, parcialmente, o início da crónica:

" Uma das apostas de Verão de algumas televisões, como a NOW e a CMTV, ambas do mesmo grupo, é a transmissão em directo dos incêndios florestais. O dramatismo do relato assemelha-se, por vezes, ao das transmissões dos jogos de futebol, com a contínua e vergonhosa repetição das mesmas imagens, muitas de horas e dias diferentes. Só lhes falta gritar «gooolo!»."

Pedro Garcias, in Fugas, do jornal Público (16/8/25).


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Do que fui lendo por aí...67



É um livro maciço (1.060 páginas, incluindo as notas finais) que terminei há pouco de ler, sem no entanto, ao longo do percurso, ter feito batota na leitura ou me ter desinteressado, porque Pierre Assouline (1953) fez um bom trabalho sobre a vida e obra de Georges Simenon (1903-1989).
Pelo caminho, fui tomando os meus apontamentoss com citações da obra, de que retenho duas mais interessantes, que traduzi:

- Simenon é desde há pouco o autor mais roubado nas bibliotecas municipais da cidade de Paris. (pg. 559)

- "É tempo de me passar para o clã dos velhotes", ou ainda: "Envelhecer é uma sucessão de últimas vezes." (pg. 912)

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Curiosidades 107



Eu diria que há um ler a tempo, um ler na idade certa, mas também um ler fora de tempo (tarde na idade) ou ainda antes de saber apreciar e compreender convenientemente o que se lê.
Achei por isso curioso que Françoise Sagan (1935-2004) tenha situado três das suas leituras mais importantes, da e na juventude, assim:

- Les Nourritures terrestres, de André Gide, aos 13 anos.
- L'Homme révolté, de Albert Camus, com 14 anos.
- Les Illuminations, de Arthur Rimbaud, aos 16 anos.

Leituras precoces, no meu entender. Mas que cada um faça o seu juízo, ou avive a sua experiência pessoal...

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Do que fui lendo por aí... 66

 


Venade, Casa da Ramada,
Sábado, 15 de Abril de 1995

O grande acontecimento do dia de hoje, sábado, foi o aparecimento de uma poupa, com a crista que o Aquilino,  por sistema, compara ao pente das sevilhanas, a esgravatar na terra do campo da vizinha Glória.

Mário Cláudio (1941), in Diário Incontínuo (pg. 150).

sábado, 7 de setembro de 2024

Do que fui lendo por aí... 65



Com a habitual franqueza crua e desapiedada escrita, assim se pronuncia, a páginas 43 do Diário Selvagem, Luiz Pacheco (1925-2008) sobre os diários que ia lendo:

"Destes diários que li nas últimas semanas o mais aprazível foi o da BEATRIZ COSTA. Não é uma literata. Decerto não está à espera do prémio Nobel porque não se considera escritora. Mas Sem Papas na Língua tão-pouco revela travões na escrita. Fala de si, da sua vida, dos seus amantes com ALEGRIA.
Não é um engasgado, estilo Vergílio Ferreira. Ou um tipo que parece estar sempre com dores de barriga, enjoadinho, como o Alçada Baptista (terei de reler a Peregrinação Interior II deste, de que gostei muito na altura e ler a I que não me cheirou quando saiu). A Beatrizinha bate-os a todos. É ela. Fez melhor que o Solnado, o qual encarregou uma fulana de escrever. É ela."

sábado, 31 de agosto de 2024

Diálogo de final de Agosto



O patrocínio de Cícero (103-43 a. C.) impunha-se até por questões geriátricas, na conversa. Antes, viera o nome e dois poemas de Eugénio. Ao tribuno romano, seguiu-se, naturalmente, Beauvoir por causa de La Vieillesse, na minha opinião, obra bem mais conseguida na caracterização dessa idade. Lembrei-me também do mau envelhecer de Yeats. No diálogo de amigos, Camilo foi referido, nas leituras recíprocas; do outro lado, Sara, de Olga Gonçalves. E releituras que já íamos fazendo, por este final de Agosto.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Do que fui lendo por aí... 63

 

Nem sempre os números coincidem entre os diversos relatos históricos, mas é sempre importante termos uma ideia do tamanho e proporção das iniciativas. Citando em abstracto Gomes Eanes de Azurara (1410-1474), J. T. Montalvão Machado refere a envergadura da armada para conquista de Ceuta (Agosto de 1415), na sua obra Dom Afonso, primeiro duque de Bragança (1964), a páginas 152, e nestes termos:

"Espectáculo inédito para os lisboetas, devia ser a partida de aquela numerosa e vistosa armada, que contava entre galés, naus,  fustas e pequenas embarcações, nada menos de 242 unidades, segundo dizem alguns historiadores. Azurara não se pronuncia sobre o número de barcos, nem sobre os efectivos que os ocupavam. Já se disse que embarcaram 50.000 homens, mas alguns autores supõem que não deviam ser mais de 20.000 os expedicionários."

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Esquecidos (16)

 

Penso que a obra de João Guimarães Rosa (1908-1967), por cá, esteja relativamente esquecida e esgotada, embora já tivesse tido, em tempos, alguns fiéis leitores, daqueles que valorizam a riqueza lexical dos textos de ficção. Quero crer e espero que, no Brasil, o grande escritor de Cordisburgo continue a ser lido e estudado, como merece.



Repeguei, há dias, em Tutaméia (1967), como às vezes faço, pois é dos livros de Rosa de que mais gosto, e fui reler os "Prefácios", donde resolvi transcrever alguns pequenos excertos, para o relembrar, por aqui, e ao seu sentido de humor:

- O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
- O avestruz é uma girafa; só o que tem é um passarinho.
- Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
- Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.
- O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O seu a seu tempo



O tempo acaba por ser uma forma saudável de nos levar ao equilíbrio e à realidade objectiva das coisas, a que a ignorância, o calor do momento ou o excesso juvenil nos pode levar.
Lembro-me bem, ainda, do barulho e da polémica que a estátua do Padre António Vieira (1608-1697), esteticamente de mau gosto e desactualizada em termos de arte, erecta no Largo Trindade Coelho, provocou nos juvenis candidatos à primeira página. Hoje, creio que já pouca gente se lembra disso e os pueris protestantes adormeceram bovinamente sobre o caso, já calmos e serenos...
Ando a ler, com imenso proveito Os Jesuítas no Grão-Pará, de J. Lúcio de Azevedo (1855-1933). Leitura que faria bem à cultura de muita gente e ao conhecimento real da personalidade corajosa do P. António Vieira.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Esquecidos (15)



Intermitentemente, ando a ler, com agrado, Ensaios de Domigo II (Editorial Inova, 1974). O seu autor, Mário Sacramento (1920-1969), médico e político, foi também um ensaísta e crítico literário de mérito original, e, ainda que ideologicamente alinhado, não deixava transparecer os aspectos políticos do seu pensamento, mantendo uma grande isenção nos textos literários que escrevia. 
O livro referido abrange recensões críticas a obras de 48 autores portugueses, anteriormente aparecidas em revistas e jornais, incluindo nove poetas. Dos restantes 39 prosadores cheguei à conclusão, com tolerância e alguma complacência, que 10 dos autores estavam bastante, se não totalmente, esquecidos. Vou nomeá-los: Aleixo Ribeiro, Antunes da Silva, Bento da Cruz, Castro Soromenho, Clara D'Ovar, Faure da Rosa, Manuel Mendes, Mário Braga, Nelson de Matos e Vasco Branco. Nos anos 60/70 eram escritores falados, conhecidos e lidos. Muitos deles, há muito que nem sequer são reeditados.
E será que Mário Sacramento, hoje, ainda será conhecido e lido? Deixem-me duvidar, infelizmente...

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Do que fui lendo por aí... 61

 

" Vespera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: (...) Vem a cerração da noite e a chuva pegada e tão miuda que se colla e amollece o proprio granito. Das ruas que abrem na praça rompem successivos magotes, tambores à frente, n'um clamor d'inferno. (...)  - S. Nicolau! S. Nicolau!...
É, na vespera da festa, o dia das posses, em que desde tempos immemoriaes certas familias estão na obrigação, que a populaça não perdôa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma arvore inteira. Forma-se o cortejo. Já estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce uma rua a passos marciaes, archotes á frente." (pgs. 49/50, A Farça, 1903, Raul Brandão)

Comentário pessoal: não só esta obra, mas uma boa parte dos livros de Raul Brandão (1867-1930) têm por cenário e retratam, muitas vezes, a paisagem e costumes vimaranenses. Neste excerto são invocadas as Festas Nicolinas, dos estudantes, que se iniciam com o Pinheiro, a 29 de Novembro e encerram, a 6 de Dezembro, com o cortejo das Maçãzinhas.

domingo, 5 de novembro de 2023

Variações






Depois de O Retrato de Ricardina (Lisboa, 1868?), o primeiro romance que li de Camilo, ter-se-á seguido, ao que julgo, O Senhor do Paço de Ninães (Porto, 1867). O prefácio, que o romancista titulou Advertencia, na altura, não me despertou nem incomodidade, nem surpresa - estávamos em tempos liberais e mais saudáveis e não, como hoje, aperreados a puritanismos palermas e infantis. De criaturas virgens serôdias, inquisitoriais.
Saboroso e informado, vale a pena transcrever o início deste prólogo camiliano. Reza assim:

"Na edição d'este romance, dada em folhetins do Commercio do Porto, estampou-se uma nota que dizia respeito aos «mulatos» do seculo XVI. O author inadvertidamente entendeu á moderna a palavra como a tinha entendido outro ignorante mais antigo que ementára a lei de D. João III, citada na dita nota com as palavras «Leis respectivas aos escravos». Mulatos, ao menos os alludidos na lei de 1538, não eram homens, eram «machos asneiros, filhos de cavallo e burra». Se eu tivesse consultado frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo antes de annotar o vilipendio dos escravos no seculo XVI, em Portugal, não injuriaria os filhos das burras chamando-lhes filhos de pretas. N'aquelle tempo era melhor ter a primeira linhagem. (...)"

Ora imagine-se, hoje em dia, um romancista voltar a escrever isto. Caíam-lhe em cima os fiscais todos.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Futuras / próximas leituras




Dois livros que me foram emprestados e cuja leitura encaro com alguma e boa expectativa futura. Dois mundos, porventura muito diferentes. Um da área diplomática que o meu amigo H. N. me sugeriu, o outro de um ex(?)-padre que, da ex-URSS até aos E. U. A., calcorreou experiências várias, e que me foi emprestado por JAD.
Aos amigos que me cederam os volumes, temporariamente, os meus agradecimentos cordiais.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Leituras e realidade



O livro tem um lado acrítico, nacional-porrerista (à MEC), que o faz omitir, por exemplo, os horríveis e mastodônticos paquetes que acostam a Lisboa, todos os dias, despejando milhares de bimbos, ruidosos, de calções e alpergatas pelas ruas da capital, e a fotografar o que quer que seja. Bem como algumas parcialidades pouco isentas que dão à obra um tom laudatório excessivo. Mas vê-se que, por trás do texto, houve trabalho sério, sobretudo do ponto de vista histórico, da autora.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Do que fui lendo por aí... 60

 

Amar um escritor, é querer que ele nunca pare de escrever. Assim, depois da sua morte, antes de nos prepararmos para nunca mais, senão relê-lo, passámos a pente fino dossiês e papéis dispersos, na esperança muitas vezes desiludida de descobrir um inédito maior, um diário íntimo surpreendente, uma correspondência desconhecida. Quando esgotamos todas estas pistas, só nos resta aquilo que os amadores chamam «curiosidades» ou «documentos» - que os contemporâneos se apressam a designar como "fundos de gaveta". É certo que a fronteira entre eles é frágil. Ela passa pela estima que dedicamos ao escritor em questão. E pelo desejo de compreensão tão amplo quanto possível dum percurso literário. Portanto, de uma vida.

Josyane Savigneau (1951), em prefácio a Conte bleau..., de Marguerite Yourcenar (1903-1987).

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Do que fui lendo por aí... 59



A biografia é sempre uma forma de juntar espaços vazios, como num ninho, por razões que a própria obra de W. G. Sebald explora: a falibilidade da memória, a morte ou desaparição de testemunhas, o papel dúbio do narrador. E todas estas razões contribuem para estimular qualquer biógrafo. (...) 

Carole Angier, in Speak, Silence (2021).

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Apontamento 156: Presente e Passado


Há, de facto, coincidências felizes, no encontro do presente com o passado.

Não há melhor que o livro em imagem acima, posto à venda e adquirido na semana passada, para assinalar a importância do conhecimento do passado para interpretar, com propriedade, o presente.

Como espectador meramente exterior da presente jornada do mundo cristão apostólico, de que me afastei por opção de consciência há várias décadas, reconheço-me em olhares críticos como este, tirado do livro acima:



Raul Rêgo, Para um Diálogo com o Sr. Cardeal Patriarca, Lisboa, Edição do Autor, 1968

Recomendo, então, a leitura do livro para saber mais sobre as consequências de uma voz crítica, nos idos de 1968, ou seja, há 55 anos. Tempo de História, embora insignificante, mas de factos iniludíveis.

Post de HMJ, dedicado a MR

sábado, 22 de julho de 2023

Osmose 132

 

Por vezes, contentámo-nos com pouco. Ganhei o dia só porque consegui adquirir na sexta-feira, à tarde, e por apenas 5 euros, o penúltimo livro que me faltava das traduções portuguesas das obras de W. G. Sebald (1944-2001), de quem o colega Javier Marías (1951-2022) dizia que talvez fosse, na altura, o melhor escritor contemporâneo. Depois deste O Caminhante Solitário (Teorema, 2009), fica-me a faltar apenas Os Anéis de Saturno (Quetzal, 2013), dado que Vertigo (1990) tenho e li-o na edição inglesa original.
Escusado seria reafirmar que W. G. Sebald é um dos meus autores de eleição...

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Do que fui lendo por aí... 57



Sobre idiomas:

O inglês é uma língua importante, sem dúvida, mas não pode eliminar o francês, culturalmente insubstituível, nem o italiano e outras línguas nacionais. Os parolos cá da terra é que julgam que se tornarão cultos se fizerem as reuniões em inglês - e até darem aulas nesse idioma. Não seria descabido que a quem assim procede se convidasse a abandonar a nacionalidade portuguesa. Na realidade, o português tornou-se uma mixurunfada de (pseudo) brasileiro e expressões ou palavras inglesas, empregadas em geral sem se lhes conhecer o significado.

Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011),  in Os Problemas de Portugal (2009).