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domingo, 8 de março de 2026

Mercearias Finas 216

 

Devia ser por esta altura do ano que aparecia, por essa minha cidade de província, e no antigamente, o ciclista de cornetim a anunciar os peixes de rio, que trazia no cesto. Eu não os apreciava por aí além... Tinham pouco sabor e muita espinha. E, tirando a lampreia, pouco dava por eles. Bastou-me, depois, uma muge do Guadiana, que comprei em Mértola, barata é certo mas desenxabida de todo, e que HMJ cozinhou o melhor que pode.
No mercado, ontem, a banca da Ângela não estava no seu melhor, mas não tão pobre como nos dias da tempestade ("... não vás ao mar, Tóino..."). Por desforço profissional, ela quis mostrar-me dois magníficos sáveis do Mondego que deviam estar pejados (rica açorda!), mas custavam 29,80 euros o quilo. Para não vir de mãos a abanar, trouxe uns choquinhos com tinta, que estavam frescos e em conta.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Lembrete 77

 


Acabo de referir ao meu amigo C. S. a genial reflexão do rei D. João II, de que: "há um tempo de coruja e um tempo de milhafre." Assim há de facto, creio que para todos nós, um período de loquacidade, mas também há um espaço que recomenda silêncio e discrição nossa para com os outros, ainda que grandes amigos.
Estamos no tempo de peixes do rio, em que eu dou supremacia à saborosa lampreia. Altura em que C. S. reunia, em sua casa alguns, poucos, amigos para um almoço de um arroz do celebrado ciclóstomo acompanhado por um Sousão de Trás-os-Montes, ou Vinhão minhoto tinto. Aproveitei assim a efeméride, para quebrar esse silêncio de coruja. E falar-lhe.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Mercearias Finas 148


Não vem à colação o excurso pelo almoço, que foram costeletinhas de borrego, bem apaladadas, com esparregado e batatas fritas, acompanhadas por um Chardonnay estreme e francês. Mas porque, ao arrumar uns livros, me deparei, meio escondido, com este maneirinho (12 por 17 cm.) Caderno do Refeitório, editado em 1983, pela Barca Nova Editor e com notas de Luís Filipe Coelho.


A obrinha, com 106 páginas e ilustrações de Luís Ruas, reproduz um livro publicado, em 1887, por António Macedo Mengo e dado à estampa por David Corazzi, em Lisboa, que, por sua vez, salvava da obscuridade e esquecimento, um manuscrito conventual do século XVIII (1743?).
Para imagens e traslado, escolhi matéria prima de que gosto, particularmente.



Muito embora a época da Lampreia já tenha passado - Fevereiro e Março é o seu tempo certo - e as Perdizes, com sabor silvestre e autêntico, só lá para Outubro, com a abertura da caça, é que comecem a apetecer, regadas por um tinto com uns anitos e à maneira.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Educação à mesa


Em redor do ciclóstomo se reuniu, outra vez, a confraria e pela segunda ágape, este ano. Nunca tal eu bisara, no mesmo ano, que o bicho é raro e caro, não convindo abusar da especialidade. Vinha o pão bem torrado e o arroz branco solto, como deve. O Vinhão de Ponte do Lima voltou à mesa, para nosso conforto gustativo, embora também houvesse maduro e duriense, para quem não fosse à bola com o Verde. Alguns o guardaram para depois acompanhar um estrela (queijo) de Mangualde, babão e no ponto, à sobremesa.
Entre especialistas de educação, maioritários à mesa, se falou de ministros, quase naturalmente. Eleito príncipe, foi José Augusto Seabra (1937-2004), surpreendentemente destacado. Ainda que, zoologicamente, Grilo e Carneiro tivessem colhido alguns votos positivos. Como pior, Couto dos Santos venceu o desprimor, por unanimidade absoluta e confirmada. Que era um tosco - diziam, ainda que por outras palavras.
Para aconchego final, e depois do café, veio a fafense bagaceira, velhíssima e macia, que C. S. guarda na frasqueira, com acrisolado e merecido respeito. Mas que dá a provar aos amigos, em circunstâncias muito especiais...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Mercearias Finas 139


Aos setenta começamos a soletrar os anos.
S. trouxera o Vinhão para acompanhar a bichinha retalhada na cabidela. E umas cigarrilhas da Nicarágua, a meu favor, muito aconchegantes, para depois do Pão-de-ló de Alfeizerão. C. S. voltou a reabrir a aguardente fafense, particular e antiga,  a que regressa, em circunstâncias especiais e quando tem boa companhia. Se, para o ano, ainda lá estivermos todos, imagino que a garrafa de Dimple sem rótulo, com o precioso néctar minhoto, há-de abrir-se de novo e espalhar, na sala, os seus nobres eflúvios.


Terei sido eu que comecei? Não, creio que foi o E., sempre um pouco sarcástico, a meter-se com o S., que começou a falar dos filhos e dos pais. E dos anos de vida. Cuja bússola imperfeita, de  números imprevisíveis, poderá ter como projecto de meta a estatística de longevidade familiar, à falta de melhor pitonisa.
Não era mórbida, porém, a ambiência da conversa. Nem o tema nos estragou a digestão da magnífica lampreia, que viera do rio Lima, ou do saboroso Vinhão, com os seus 12º, que, na sua versão cooperativa de 2017, nos deixou as melhores recordações gustativas.
Que para o ano haja mais! E com todos, que é bom sinal de saúde, dos que estiverem presentes.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Oh p'ra ela!...


Que este ano vai ser bem temporã!
Habituado que estava a tê-la à mesa, só lá para Fevereiro ou Março, fiquei surpreendidíssimo com a convocatória, para Janeiro, da amiga Confraria, que costuma amesendar, quase todos os anos, ali para as bandas do Areeiro, celebrando o especioso ciclóstomo.
Assim vai ser, hoje, ao almoço.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mercearias Finas 84


Eu já ia muito em cima da hora, para me dar ao luxo de passar pela ribeira - como costumo fazer - e onde há, quase sempre, aves inesperadas, para além dos quotidianos pardais ou dos patos, que vêm do Palácio, subindo as águas e debicando os limos das margens.
O restaurante, dantes tão ocupado, tinha apenas duas mesas com três clientes espaçados e, por isso, escolhemos lugar à vontade. Convidado, que era, escolhi, na mediania de preço, as pescadinhas fritas (de rabo na boca) com arroz de tomate, que sempre foram uma boa opção, por lá. O branco do Cartaxo, da quinta do sr. Abílio, na sua ligeira acidez citrina, combinou bem.
Mas não resisti a perguntar ao Fernando, se o ciclóstomo de água doce (anunciado, com destaque, na ementa) era à bordaleza ou com arroz de cabidela, malandrinho. "É como quiser!" - respondeu-me ele. Mas a escolha estava feita embora, se fosse eu a pagar, a lampreia tivesse sido a eleita, que já no ano passado me privara dela, ao passar no "Solar dos Presuntos", às Portas de Sto. Antão. E já tinha saudades...
Mas o Fernando é um empregado gentil, que me estima. A meio das pescadinhas, trouxe-me um pratinho dela, com uma posta generosa, em arroz de cabidela. "Gostava que me desse a sua opinião, porque fui eu que a preparei." - acrescentou. Estava óptima, no seu leve avinagrado tintoso, a saber a rio. Que não ribeira...
E foi assim que fiz a minha vernissage, este ano.