Mostrar mensagens com a etiqueta Ladislau Batalha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ladislau Batalha. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Da leitura (12)


Em biblioteca alheia, fui metendo a foice, que apenas trouxera comigo, para além do último TLS, as "Curiosidades da História Portuguesa", de Ladislau Batalha, bem interessantes, por sinal, e que acabei de ler. Arredio às prosas (ficção), como ando há já bastante tempo, despertou-me interesse o "16 Castas Portuguesas", de José A. Salvador, que li com extremo proveito, aprendendo coisas novas que não sabia sobre a Jaen, a Encruzado, a Tinta Roriz, a Baga...


Havia que dar, porém, alguma oportunidade à ficção prosaica, até para não lhe perder o jeito... Calhou a Paul Morand o privilégio, diplomata francês, um tanto ou quanto ligado a Vichy, mas que conhecia bem Portugal, embora o Estado Novo o considerasse persona non grata. A sua prosa é luxuriante, mas perpassa, por Lorenzaccio - O Prisioneiro de Sintra, uns resíduos finisseculares de desalento e um iluminado cinismo a que a elegância da escrita dá uma certa consistência e interesse. Não me posso queixar, porque não perdi o meu tempo.


domingo, 1 de maio de 2016

Passado, presente e futuro



Ao princípio, era o Charneco, vinho que já na primeira dinastia se exportava para longes terras. Com a fruta e o sal que eram as nossas únicas, grandes riquezas. Ao contrário do que se possa pensar, esse vinho era produzido na região de Lisboa. Desconhecidas são porém as castas de que era produzido. Até há poucos anos, no entanto, e na zona da capital, pontuavam apenas os vinhos de Colares, com a casta Ramisco, e os de Bucelas, brancos, feitos de Arinto. Mas, segundo notícias recentes, a Casa Santos Lima, produtora conceituada, irá reactivar uma velha quinta, ali para as bandas do Aeroporto. Que, até ao início do séc. XX produzia vinhos de alguma qualidade. Desconheço também que castas virá a utilizar, mas é possível que venha a usar as que constam no quadro da imagem acima.
Ladislau Batalha (1856-1939) que, com Azedo Gneco, fundou o primitivo Partido Socialista português, na sua interessante obra "Curiosidades da História Portuguesa" dá-nos algumas informações importantes, embora já desactualizadas sobre vinhos, e adágios portugueses, que passo a transcrever:

"...Os nossos vinhos eram  abundantes, chegando a ser considerados dos melhores e mais afamados os de Alvôr, Vila Nova de Portimão, Lagos e Évora, especialmente os de Peramanca.
Como povo impulsivo, levámos os excessos de cultura da vinha ao estado de febre intensa:
- «Em cada prado uma vinha e em cada bairro uma tia» - diz-nos o precioso adágio do século XVI.
Na conta dos vinhos finos entravam os brancos de Beja e os palhetos de Alvito, Viana, Vila dos Frades e Alcáçovas.
Os de Alcochete e Caparica destinavam-se á exportação para Flandres e outras partes da Europa, além dos que saíam para abastecimento das armadas e fornecimento para as Indias Orientais, Angola, Mina e Brasil.
Com disvelo dizia o povo envaidecido: - «Queijo do Alentejo e vinho de Lamego.»
Vendia-se então em Lisboa o vinho mau pelo preço do bom. Sobre o assunto havia opinião bem definida: - «Vinho é sangue de Cristo». ..."

E, entretanto, foram-se as coisas modificando. Que o mundo não pára e o homem é irrequieto.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Oito luas fatais fitam o espaço"


O título deste poste tirei-o de um poema que Fernando Pessoa dedicou a António Duarte Gomes Leal (1848-1921), também ele poeta, e a quem, no amplo sentido "verlaineano" do termo, poderíamos apelidar de "maldito". Na idade adulta, vivendo de expedientes ou da colaboração em jornais republicanos, mas também do património que o Pai - morto jovem - deixara, e que sua Mãe, parcimoniosamente, moeda a moeda lhe ia dando, após a morte dela, em pouco tempo, delapidou o que sobrara. Os restantes 11 anos, viveu-os Gomes Leal em decadência gradual até à sua morte, em casa do amigo Ladislau Batalha, na Rua do Telhal. Vagabundeou muito, antes. Pode dizer-se que foi um sem-abrigo, "avant la lettre", e muitas vezes, sem dinheiro para pagar um quarto, adormecia nos bancos do Rossio ou da Avenida da Liberdade. Mas assim como esbanjou dinheiro, também esbanjou talento. Dos seus versos se sente o eco em Cesário e Nobre, e um pouco menos em Pascoaes.
Era consensualmente admirado como poeta. Quando já quase indigente, a República, pelo seu Parlamento, votou-lhe uma tença, no melhor exemplo camoniano - pagavam-na tarde e a más horas... E Aníbal Soares, monárquico convicto, também lhe arranjou um subsídio, provavelmente, do seu próprio bolso. Dele, na literatura e antigas selectas, ficou memória do poema "A Duquesa de Brabante" que Gomes Leal dedicou a Alberto Osório de Castro. Opto pelo soneto "Fantasias" onde se notam "raízes" do que, depois, Cesário Verde viria a fazer com outra elegância e geometria...

Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!...
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.

À Índia, China ou Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.

Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido...
- Embalados num junco de bambu!