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sábado, 18 de março de 2017

Pot-pourri sobre as coisas e o seu tempo


Os autores são inevitavelmente, e como diria La Palice, do seu tempo. As suas obras marcam um gosto, uma necessidade, atavios de moda, preocupações que andam no ar. E, a maior parte das vezes, ficam marcadas, pelos tiques dessa época. Sobrevivem os clássicos, em suma, desta quantidade inúmera que se publica e vai sendo lida, descricionariamente (tijolos ou não), pelos transportes públicos, em substituição do antigo crochet, que se fazia, ou da renda (Talvez mais úteis, quem sabe?...). Isto quanto a senhoras, que alguns cavalheiros, normalmente, iam lendo o seu jornal, até chegar ao emprego.
O livro, com cuja capa (de Manuel Rosa) abri este poste, é talvez a obra de Cesariny mais próxima do temperamente lúdico dos livros de O'Neill (Mais coerentes no seu todo, é certo.), embora muito mais anos cinquenta. E, do meu ponto de vista, não é das melhores do autor-pintor surrealista. Prefiro, de longe, a sua Pena Capital (Contraponto, 1957), mais coesa e séria, tanto quanto pode ser uma obra surrealista dessa época. Às vezes, até penso, malevolamente, que Cesariny fez a opção certa. Bem vistas as coisas, a poesia não dá para viver, mas a pintura, até pela falta de sentido crítico luso, compensa, muitas vezes.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um livro


Há já largos meses (mais de um ano?) que não leio um romance, novela ou um conto que me agrade inteiramente. Uma obra de ficção, em suma.
Será uma verdade, à marechal de La Palice, eu dizer que o que distingue uma obra ficcional, de uma biografia, é sabermos que, nesta última, as personagens que a integram existiram e os factos foram reais. Há, no entanto, em toda a literatura, obras híbridas, em que a ficção e a realidade se entrelaçam, numa harmonia perfeita. Estou a lembrar-me, por exemplo, de "Viagens na minha Terra", de Garrett, ou de "Os cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rilke, para referir apenas dois casos.
É este hibridismo perfeito, segmentado, embora com maior peso biográfico, e que, pela antologia valeriana (ficção, poesia e ensaio) se torna compósito, que caracteriza o livro que ando a ler, com imenso agrado. Intitula-se "Paul Váléry" (Editions Pierre Charron) e foi (bem) escrito e organizado por Pierre Caminade. E que recomendaria, não fora o facto de ter sido publicado em 1972, sendo por isso, decerto, difícil de encontrar.
Para além disso, é um prazer folheá-lo: é uma edição cuidada, tem ilustrações invulgares e bonitas, vendo-se que foi produzido por quem tinha muito bom gosto estético.

terça-feira, 31 de maio de 2011

O refrão e a máscara


Repetimos, porque gostamos. Ou quando gostamos - é uma verdade de La Palice, obviamente. E começa logo na infância. A um dos meus filhos li, vezes sem conta, à noite, a história "Berliques-Berloques", da colecção Joaninha (Contos de Encantar), muito embora ele já a soubesse, quase, de cor. Estava sempre a pedir que eu lha relesse. Mas ria-se, repetidamente, e com vontade natural. Desde os refrãos das cantigas trovadorescas, aos slogans publicitários e às repetitivas palavras-chave das piadas chungas ou das canções mais pimbas, o ouvinte está sempre à espera de "Ó pr'a ele!" ou do "pisca! Pisca!" banal, para bater palmas.
Mas há uma altura da vida em que o passivo auditor se cansa...
Ainda me lembro de Medina Carreira dizer (era ministro das Finanças), nos anos 80, que por aquele andar e gastar, qualquer dia, em vez de andar de automóvel, teríamos de andar de burro. Não chegamos a tanto, felizmente. E lembro-me, de há muito, dos apocalípticos vaticínios de pitonisa de Pulido Valente (aliás, pseudónimo, que o nome é muito mais ruano), "vago" leitor universitário na Inglaterra, espumar fel e vinagre e augurar o Inferno para o futuro português. Ainda hoje, estes profetas vomitam o que foram e disseram. Porque ficaram escravos das máscaras pessoais que criaram. Continuam a ser pitonisas da desgraça apocalipsando o futuro, e espumando fel.
Quando os ouço ou leio já sei o que vão dizer, mudam apenas, ligeiramente, os temas ou pessoas - mas vão dizer mal. Comecei, com a idade, a ficar farto de os ouvir, sempre no mesmo registo e com a mesma máscara puritana, moralista, judaico-cristã. Refrão por refrão, prefiro ir reler o "Berliques-Berloques", rir-me um pouco, desafiar o fatalismo doentio, e adormecer sossegado. Como fazia o meu filho mais novo...