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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Joaquín Rodrigo / Lope de Vega / Dúo Vianello


Será talvez um registo de qualidade amadora, mas ganha em naturalidade esta execução de um vilancico de Joaquín Rodrigo (1901-1999) sobre versos do poeta espanhol Lope de Vega (1562-1635), a que o Dúo Vianello deu forma, própria e alusiva à quadra natalícia.

domingo, 8 de agosto de 2010

Salão de Recusados XXI : o soneto, em questão



1. Um soneto me manda hacer Violante


Um soneto, que eu faça quer Violante:
nunca me vi na vida em tal espeto.
Catorze versos dizem que é o soneto:
brinca brincando vão já três adiante.

Pensava não achar mais consoante
e na metade estou de outro quarteto;
mas se me vejo dentro de um terceto
não há nestes quartetos que me espante.

No primeiro terceto vou entrando,
e parece que entrei com o pé direito,
pois fim com este verso lhe vou dando.

E já estou no segundo, e até suspeito
que vou uns treze versos acabando.
Contai se são catorze, e eis que está feito.

Lope de Vega (1562-1635), traduzido por Jorge de Sena.


2. Quatorze versos


O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?

Melhor será calar, pois que dizer
nem do sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...

Ó nono verso porque vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...

Alexandre O'Neill (1924-1986).


Nota: Já Guilherme de Aquitânia (1071-1127), poeta, dizia: "Farei um poema do puro nada..." (vide Arpose, Poesia provençal, 14/1/2010). O soneto, como supremo desafio, merece ser desafiado... Ou, como diz o meu amigo poeta, António de Almeida Mattos (1944): "...um rápido pavor em desmanchar / a regra..."

P. S.: para MR, pelo O'Neill, e não só.

domingo, 11 de julho de 2010

Góngora, Quevedo e Lisboa


Luis de Góngora y Argote, nascido a 11 de Julho de 1561, morreu em 1627. Representante máximo da poesia cultista castelhana, é um hábil obreiro de poemas, plenos de alusões mitológicas e eruditas, com segundos sentidos complexos que, hoje, só com um manual anotado dos seus estudiosos, por companhia, se poderão cabalmente compreender. Inimigo declarado de Quevedo (1580-1645) que também não o poupou, sendo que este foi o expoente máximo do que se convencionou chamar poesia conceptista. As polémicas, entre os dois poetas espanhóis, foram ferozes ("...untarei as minhas obras com toucinho,/ para que tu não as mordas, Gongorilha..." disse Quevedo, que também ridicularizou Góngora, pelo seu apêndice nasal excessivo - "Era um homem a um nariz colado,/ era um nariz superlativo..."), mas também houve guerrilha literária entre Góngora e Lope de Vega.
Em 1619, Luis de Góngora visitou Lisboa, então sob o domínio filipino, e desta viagem ficou um soneto em que deprecia D. António, Prior do Crato ("mosquito antoniano"), ridiculariza o vestuário dos portugueses ("Amor com botas, Vénus com baeta"), se queixa da falta de gelo para as bebidas, nesse Verão ("Estrela dispensada...") e estranha a alta construção das casas lisboetas ("...aposento nas gáveas o mais baixo;"). Deste soneto - "En la Jornada de Portugal" -, aqui deixo, traduzidos, a segunda quadra e o primeiro terceto:

"...Salga o outro com lança e com trombeta
mosquito antoniano resoluto
e ainda com pesar por tempo mais enxuto,
Amor com botas, Vénus com baeta;

fresco verão, cravinhos e canela,
de neve mal, de uma Estrela dispensada,
aposento nas gáveas o mais baixo;..."

Nota pessoal: em abono da verdade, devo dizer que prefiro a poesia de Quevedo aos poemas e sonetos de Góngora. Por outro lado, Quevedo deixou um lídimo representante português: Francisco Manuel de Melo; enquanto Luis de Góngora contaminou, fatalmente, os colaboradores portugueses de "A Fénix Renascida"...