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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Citações CCCLXXIII


A palavra (nas línguas negro-africanas) é mais do que imagem, é imagem analógica mesmo sem o recurso à metáfora ou à comparação. Basta nomear uma coisa para que surja o sentido sob o símbolo.
Porque tudo é símbolo e sentido para os Negro-Africanos.

Léopold Sédar Senghor (1906-2001), in Posfácio a Épîtres à la Princesse.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Confusão de sentimentos


Por entre sentimentos contraditórios, tomei conhecimento da dispersão, através de leilão, da biblioteca de François Miterrand (1916-1996), recentemente em Paris. As heranças a distribuir, neste caso particular, são o diabo!...
Eu creio que, perante situações destas, um bibliófilo honesto e autêntico, experimenta sensações adversas, no seu íntimo. Projecta o futuro dos seus livros e é atingido por uma nostalgia ontológica; depois, encara o leilão concreto, como uma janela de oportunidades, para enriquecer a sua biblioteca.
Senghor (1906-2001), com Aimé Césaire e José Craveirinha são os poetas da negritude que eu mais estimo, sobretudo, por questões de qualidade do seu ofício.

Por isso, embora vindo de uma biblioteca que se dispersou, por força do destino, eu não quis perder este livro com dedicatória do poeta e político senegalês. Que a endereçou a uma representante de uma família guineense conceituada, que ainda tinha raízes na Serra Leoa. Porque África, por metáfora excessiva, também pode ser considerada uma pequena aldeia... E, também, porque apesar da descolonização, ainda há muita coisa que vem parar à Europa. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um poema de L. S. Senghor (1906-2001)


Tua carta minha carta

Tua carta minha carta, e se fosse impossível
Se Hitler se Mussolini, se a Rodésia a África do Sul, o parente português
Se se e mais se, mas nós temos o telefone branco
Não, o vermelho. Satélites rodando em torno da Terra-Mãe.
Se é que rodam mas que importa? Através dos negros espaços estrelados
Através do muros as cadeias de sangue, através da máscara e da morte
Temos o telefone da aorta: o nosso código é indecifrável.


(Tradução de Luíza Neto Jorge)

sábado, 5 de maio de 2012

Um poema traduzido de Aimé Césaire


Com Léopold Sédar Senghor (Senegal, 1906-2001), que ainda tinha nas suas raízes sangue português, Aimé Césaire (Martinica, 1913-2008) é, talvez, dos menos reconhecíveis poetas da negritude, na língua francesa. Neste aspecto e do meu ponto de vista, muito próximos do moçambicano José Craveirinha (1922-2003), na sua relação poética com a tradição e língua portuguesa. Quero eu dizer, quase não há nas suas obras aquela estridência tropical exclamativa, aquela superficialidade exuberante que caracteriza muita da poesia ultramarina, mesmo que escrita em língua europeia. Dito isto, que será polémico, passemos a traduzir, de Aimé Césaire, o poema:

Percurso

Da minha íntima saliva retive líquido
o sangue
impedindo que ele se perdesse por escamas esquecidas
Cavalguei por entre mares incertos
os golfinhos memoráveis
desatento a tudo excepto
no recensear o recife para marcar o amargo
Por porto seguro tenho deuses
reinventei as palavras
Onde desembarquei trabalhei o baldio
escavei o sulco desenhei as leiras
cá e lá sacrificando limite após limite
Ó Esperança a química humilde
da tua amarga estaca