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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Anotação das paisagens


Na zona outrabandista, desapareceram-me quase as andorinhas, substituidas, que foram, por pequenos grupos de estorninhos. Que eu nunca por lá tinha visto - valha-me isso!
E, na Avenida D. João V (Lisboa), o cocuruto dos jacarandás já se começa a tingir de lilás: vi-os hoje. Fiéis à sua memória brasílica, embora um pouco mais cedo do que o habitual.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A beleza de nenhures


Sempre que regresso à região outrabandista, há um olhar a que nunca consigo resistir, pouco antes de chegar ao fim da Ponte. Ao fundo, do lado direito, aqui há uns 15 ou 20 anos, reparei que havia uma pequena enseada, no Tejo, de águas calmas, a que as ruinas de uma chaminé, bem alta, e três paredes calcinadas e semi-derruidas (fábrica antiga de conservas?), davam um aspecto e sabor neo-gótico e fantástico.
Pouco a pouco, o vazio em volta foi sendo ocupado. Primeiro, dois ou três barracos toscos e inestéticos - que pensei serem de pescadores ocasionais e bissextos - foram sendo colocados, próximos da pequena linha estreita das areias ribeirinhas. Depois, três ou quatro pequenos barcos rústicos, que fui vendo atracados à baía, num colorido pálido e balouçante. Mais tarde, uns casinhotos foram sendo acrescentados, numa arquitectura desagradável, mas porventura útil, para quem não tinha casa. E os barcos, na pequena angra, foram também aumentando, com o tempo.
Hoje, para além de cerca de dez casinhotos, reparei que havia uma pequena plataforma sobre as águas, aí a uns 3 metros da areia. Uma espécie menor que fazia lembrar, arremedando, aquelas estruturas oceânicas para pesquisa e extracção de petróleo... O espaço, que antes era de nenhures e belo, na paisagem, foi-se descaracterizando com feiura.
"A Natureza é sempre bela" - não sei quem o disse, nem me lembro onde li a frase. Mas a pequena enseada, no Tejo, que eu tanto gostava de contemplar, mesmo que por breves momentos, e cá de cima da Ponte, foi perdendo o seu encanto quase mágico. O Homem consegue quase sempre destruir o que, naturalmente, é mais belo na Natureza. E, contra isso, nada podemos fazer, a maior parte das vezes.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Suburbanidades


Entre as raspadinhas e a "Caras", o coração dos séniores divide-se, na tabacaria onde compro o jornal. Mas há também os indefectíveis do euromilhões, e os já muito raros compradores da lotaria nacional. O jogo e os sonhos róseos fazem sempre parte do cenário das crises e a Santa Casa registou, em 2012, um novo recorde de vendas.
Cá fora já há brotos de mimosas e o amarelo das azedas ultrapassa, em extensão, as flores brancas do frio, a caminho da Primavera. Um dos dois cães vadios, desta zona outrabandista, envelheceu muito, agora que o vejo, desde a última vez. Corpulento, ficou mais desengonçado e trôpego. O outro é pequenino, branco sujo das vadiagens, videirinho e lulu. Tem um andar apressado, como se tivesse sempre qualquer coisa a fazer.
O cão velho parece mais reflectido e minucioso. Qualquer coisa que se levante do chão, merece-lhe cheiro ou faro, talvez para medir e marcar o seu espaço, mas nada conspurca, enquanto o vejo. De olhar piedoso, mas resignado, por três vezes sobe o degrau para o café Avenida, mas não chega a entrar. Abana a cauda, talvez pelo ar aquecido que sente, fareja as portas de metal, e retrocede, cabisbaixo. Só levanta a cabeça, numa esperança mole, para quem entra. E não ladra. Provavelmente, já se habituou à crise e esqueceu, decerto sem rancor, quem o abandonou.