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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Lembrete 70



Já saiu o número 18. O tema dicotómico Cidade/Campo presta-se a interessantes reflexões e promete. Veremos se estará à altura das expectativas do leitor.

P.S.: a escolha para a capa de uma tela de João Hogan (1914-1988), pareceu-me uma bela opção.

domingo, 24 de outubro de 2021

Osmose 122


Nunca, com a extrema nitidez minimalista de ontem, eu lhe tinha notado e sentido os sinais físicos, na pele. Do frio. Quase inconscientemente fui buscar a camisola de caxemira para me agasalhar. Mais tarde, talvez por volta das 18h30, comecei a sentir os pés a arrefecer. Ambos, enquanto me sentara a ver o Dossiê Pelicano (1993), de Alan J. Pakula, com o jovem Denzel Washington e a ainda muito mais nova Julia Roberts. Depois, foram as mãos: primeiro a esquerda; e aí uns vinte minutos a seguir, a mão direita a ficar fria. O Outono tinha marcado presença, pré-anunciando o Inverno que viria a seguir. De forma indesmentível, apesar do Verão de S. Martinho andar  por aí, com o seu solzinho ameno enganador...

domingo, 10 de outubro de 2021

Divagações 174

Hoje, que vou jantar, à sobremesa, um diospiro, de tarde andei a folhear, relendo, O Sal da Língua (1995), que é um bom livro de Eugénio de Andrade (1923-2005) para se ler nesta estação (Se deste outono uma folha,/ apenas uma, se desprendesse...). Mas os espíritos vão ligeiros, com este calorzinho brando que sobe pela tarde e nos pode ainda deixar amodorrados, até chegar a noite fresca. Virão a despropósito, hoje, que aqui queria exarar uns versos, mas aqui as deixo. A duas quadras populares, de que gostei, e que respiguei de um outro livro mais simplório nos seus propósitos:

Entre pedras e pedrinhas
nascem folhinhas de salsa;
mais vale uma feia e firme
do que uma bonita e falsa.

Manuel cachinho d'uvas,
apanhado na parreira,
não sei se te coma agora,
se te guarde para a ceia.

sábado, 24 de outubro de 2020

Natureza caprichosa

 


Diversos sinais, pelas varandas de casa, levam-me a concluir que, do ponto de vista agrícola, a temporada 2019/20 foi extremamente atípica, para não dizer estranha. Várias plantas nem sequer floriram, outras não produziram fruto. Apenas a oliveirinha da varanda a sul manteve a sua fiel rotina, embora a safra (57 azeitonas) tenha sido das menores. Mas o melhor ainda estava para vir: hoje, nessa mesma varanda, deparei-me com o limoeiro, lá existente, com 9 florações bem recentes. Em finais de Outubro!? Não dá para crer...

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Adagiário CCCXVI



Pássaros de arribação tão depressa estão como vão. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Lembrete 70


Já saiu o número 7, do Outono. O dossier temático é sobre os animais, mas creio que a revista Electra não tem parceria nem patrocínio de nenhum partido político, por muito que possa parecer...

sábado, 10 de novembro de 2018

Precauções


Com este mau tempo que se anuncia, a Senhora responsável decidiu reforçar a ucharia cá de casa, abastecendo-a de primores de Outono. As uvas D. Maria, dulcíssimas, já estão quase no fim, porém... O queijo do Fratel, que está no ponto, ainda dá para uns quantos dias, e as castanhas, cozidas, tiveram  apenas a sua estreia, tendo sido aprovadas por maioria, ao jantar. Para amanhã, anuncia-se uma reconfortante favada, ao almoço. Vou pensar, entretanto, no tinto que irei abrir. Por aí, também não vai haver problema...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Osmose (97)


Parece-me que nunca, como hoje, foi tão difícil optar, inteiramente, por um único lado. Olhamos para o que aconteceu em Las Vegas, ou pelo que está acontecendo em Brasília; pelo que ocorreu em Tancos, infantil e inexplicavelmente. Tomar posição, deixa-nos divididos e a tentação é de nos ficarmos pelo conforto de um cinzento neutral que não nos obrigue, claramente, a uma decisão absoluta sobre os factos concretos. Há que ser realista, no entanto: o cinzento tem, ainda, várias tonalidades.
O se e o mas encontram abrigo neste enovelado desarrumo de espírito a que o próprio tempo parece associar-se, em conformidade. Porque se anuncia, para esta semana, chuva e cinzento, com a entrada triunfante do Outono. O estado do mundo dá vontade de hibernarmos, para só virmos a acordar na Primavera. Como se isso fosse possível... E tudo voltasse a ser claro e róseo, lógico e racional, humanamente acertado com as nossas mais íntimas convicções. De justiça e bom senso.

domingo, 23 de setembro de 2018

Divagações 134


Esta linha semi-circular de luzes ribeirinhas, por cima dos telhados defronte, traz-me sempre uma paz muito singular e pessoal, à noite. Depois, há esse triângulo agudo, cavado, por entre os prédios altos  que permite ao meu olhar ver o Tejo e, mais ao longe, a silhueta semi-iluminada do castelo de Palmela. Fernão Lopes acaba por ser convocado à memória. E as almenaras que D. Nuno, em finais do séc. XIV, fez acender da Outra-banda, para dar ânimo ao Mestre, cercado em Lisboa, pelos castelhanos.
Mas, hoje, há Lua Cheia, o rio é um espelho reflectido de luar. E o Verão, preguiçoso em despedir-se, parece augurar, em temperaturas, um S. Martinho à maneira... Ora, tudo isto recusa, liminarmente, essa melancolia dourada de que o Outono gosta, quase sempre, de se acompanhar. E que também nos inunda, quer queiramos ou não, tantas vezes. Ganha-se assim, benevolamente, um compasso de espera, bem-vindo e inesperado. Assim seja!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Imaginário


Eu sempre vi este quebra-nozes, como um leão metálico e quase cubista... Desde infância que o imaginava assim, já com mais de 60 anos na minha memória, na sua pragmática de adereços úteis, na sala de jantar vimaranense. Creio que a minha Mãe o terá comprado numa das suas idas ao Porto.
Ora, a HMJ atribuiu-lhe, e bem, a personificação de um cão, e eu tive de retocar  a ideia que tinha, enraizadíssima nos anos que passaram. Em prol da verdade.
Pois, ontem, comemos as primeiras nozes. Como já me estreei, duas ou três vezes nos diospiros*, que estão óptimos. Faltam as castanhas e as romãs para completar o périplo dos frutos de Outono, cá por casa. Mas ainda vamos a tempo...

* não é gralha, continuo a grafar diospiro, por teimosia e como aprendi.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Osmose 85


O Outono tem destas fraquezas, mescladas de melancolia amarelecida a tender para o silêncio...
A infância é muitas vezes um universo reconstruído, em que parte das personagens se vão afeiçoando à nossa imaginação posterior. Há, por isso, se querermos ser sinceros ou exactos, de usar de algum pudor. Podemos, embora, ter gasto ternura e afecto, com razão bastante, justificadamente, por figuras que se nos colaram à memória; mas são muito raros os vilões que ainda aparecem na fotografia, e surgem apenas para dar credibilidade ou constituir o necessário contraditório da veracidade das histórias que vamos recontando a nós mesmos, no íntimo aposento da melancolia outonal.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Paisagem aérea


Neste recente Outono, pouco marcado, incipiente, o céu tem vindo a arrumar-se, nestes últimos dias, em azuis muito nítidos pontuados por nuvens brancas, esvoaçantes, muito sugestivas nas suas configurações fugazes: flamingos alvos e alongados, duendes fantásticos, ouriços-cacheiros voadores, barbas algodoadas de gigantes inexistentes, eu sei lá!...
Basta a cada um procurar, no recôndito da imaginação, o ponto certo sempre mutante da irrealidade.

domingo, 2 de outubro de 2016

Mais um poema traduzido, de Eduardo Chirinos


Derrota del Otoño


Por estas redondezas, o Outono não é bem-vindo.
                                                              Ninguém o espera
na margem de um qualquer rio melancólico
que esconde nos seus fluxos os segredos do mundo.
Mas o Outono reina em outras latitudes:
lá longe, onde os ciclos se cumprem, obedientes, lá longe
onde envelhecem e se renovam as metáforas.

(O Sol afunda-se num charco esverdeado
onde flutua, solitária, uma folha de loureiro).

Mas hoje de tarde nem sequer choveu. As folhas
fincam-se com força férrea aos seus ramos,
heroicamente lutam contra o vento
e pela noite hão-de celebrar a derrota do Outono.

Não sabem que as folhas em queda são escritas
e a árvore um calado e seco poema sem estrias.


para quem não aprecia muito o Outono, como a Margarida, no seu "Memórias e Imagens"; e para Maria Franco, que gosta da obra do Poeta. Cordialmente, esta despretenciosa tradução.

sábado, 17 de outubro de 2015

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Adagiário CCXXXII : Outubro (6)


1. Vindima em Outubro, que S. Martinho  to dirá.
2. Logo que o Outono venha, procura lenha.
3. Se queres alho cuzudo, semeia-o no mês de Outubro.
4. Em Outubro não vás ao mar pescar, mas vai ao celeiro e abre o mealheiro.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em prosa (poética?) repentina, ao jeito de Prévert, e sem auto-crítica sequente


O castanho, sobretudo o mais pálido,
acaba por nos ser consensual
na sua amenidade prática e tranquila
de Outono. Mas há também um fogo rubro
nas folhas suicidas que se despem ou despedem
dos seus ramos, para a nudez tosca de Dezembro.

Há mistérios na Natureza que não convém desvendar,
como no amor - pelo seu encanto singular.
Nem os poetas sabem ao certo,
embora suspeitem,
que vão deixar de cantar.
Os números exactos não são o seu forte.

Nem sequer as certezas.



Sb., 23/11/2014.

sábado, 18 de outubro de 2014

Natureza viva, ou desmontando a instalação


Uma fotografia vale um poste? A minha resposta é não, mas há quem assim os faça. Penso, ao contrário, que há que juntar-lhe palavras. Em tempos de retraimento e recolhimento outoniços, porém, elas não surgem com facilidade. Ensaiemos as diversas opções de "legenda":
1. Eu podia falar do Outono.
2. Podia referir e nomear os frutos.
3. Talvez pudesse juntar à foto, uma catadupa de naturezas mortas (Cézanne, Matisse...) para deslumbrar os visitantes desconhecidos, que ficam quase sempre pasmados com a quantidade das imagens e com a pretensa erudição cultural.
4. Não dizendo nada, eu podia falar, até, de outras coisas...
5. Mas, mais concretamente, posso referir os dados acontecidos, com fidelidade real: a fruteira continha 2 maçãs "riscadinhas" e a bela romã, acabada de comprar, na Ribeira, pela HMJ. Lembrei-me que, numa outra fruteira, havia ainda uma laranja junto de três limões. Juntei a laranja para completar o quarteto, como se um verso final para acabar uma quadra. Depois, pedi a HMJ que tirasse uma fotografia, o que ela fez. Em prol da verdade, teria de dizer que, no frigorífico, ainda ficaram 3 diospiros, bem maduros, que não constaram da fotografia.

Será que terei dito, realmente, alguma coisa? De substancial - quero eu dizer...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Divagações 74


As gamboas já chegaram, a semana passada, e a marmelada já está feita - foi quase um dia de trabalho para a HMJ. Agora falta só esperar pelos frutos secos: castanhas, nozes, pinhões. E pelos afogueados diospiros, vermelhos ou translúcidos, de veios amarelados.
As camisas de manga curta são substituídas pelas de manga comprida, os casacos ficam à mão, nos guarda-vestidos; a lã, gradualmente, vai ocupando o lugar do algodão - vamo-nos preparando para enfrentar o Inverno. Mas é pelo Outono, já começado, que a palavra melancolia ou nostalgia se insinua, por causa desses dias de Sol, já extintos, do Verão. A chuva regressou e a luz é quase só penumbra pelo interior das casas.
Por vezes é difícil situar ou datar o nascimento de uma palavra. Não será o caso do neologismo nostalgia, que nasceu no ano já distante de 1688, numa dissertação (Dissertio medica de Nostalgia oder Heimweh) apresentada por Johannes Hofer (1669-1752), na Universidade de Basileia. O então futuro médico, suíço, criou o vocábulo para caracterizar o estado de espírito doentio que dominava os jovens soldados helvéticos que combatiam longe de casa, e tinham saudades.
A palavra é formada por 2 étimos gregos: nóstos (reencontro/ regresso a casa) e álgos (dor, sofrimento), segundo apurei. Só não consegui saber se, a primeira vez que foi escrita e dita, terá sido no Outono desse ano de 1688...

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sem título


9.
Vai sendo tempo de largares o Verão
soltá-lo no caminho mais estreito
à boca do Outono ou numa praia
onde já não passe mais ninguém.

Alberto Soares, in Escrito para a Noite (pg. 37).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Um quadro para o Outono


Autodidacta e descendente de italianos, François Nardi (1861-1936) pintou esta marinha, intitulada "Molhe de Toulon sob o efeito do Mistral", por volta de 1890. O quadro, que pertence ao acervo do Museu da Marinha de Toulon, ilustra bem, quanto a mim, a atmosfera do Outono, pelo encrespado das águas e a ligeira neblina envolvente da atmosfera. Pese embora o facto de o vento Mistral surgir mais no Inverno e começo da Primavera. Seja como for, acho a tela de Nardi muitíssimo interessante. Por isso, aqui fica.