Mais tarde ou mais cedo, uma, ou outra vez, há versos de um poema que vêm ter connosco.
Não falo do "Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela...", dezenas (?) de vezes citado pelos leitores preguiçosos ou críticos rasteiros de Herberto Helder. Para não falar do "...quando a alma não é pequena..." pessoano, abastardado pelos turistas da Poesia, pelos políticos ciosos de serem importantes e fingirem de cultos, e até mesmo pelos basbaques que não sabem dizer nada de seu. Eu queria significar outra coisa. Referir esse encontro íntimo e autêntico que, às vezes, acontece entre nós e um ou mais versos de um poema, de forma, que parece, absolutamente exacto e nosso, na sensibilidade. Por uma iluminação do espaço, ou da experiência, que se torna comum e verdadeira.
O poema "Nocturno de Veneza"*, foi-me recomendado por Eugénio de Andrade, pouco antes de aparecer na Colóquio Letras. Assim diziam os versos:
Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
Na altura, gostei do poema, mas não muito mais do que tantas outras poesias do Poeta. Estava ainda muito longe de o vir a viver e sentir, verdadeiramente. Passaram entretanto quase cinquenta anos, foi preciso eu defrontar-me com as águas do Sado, no Outão, para integralmente eu perceber essa música de tanto olhar a água. E fazê-la minha por inteiro.
* o poema veio a ser incluído, depois, em Ostinato Rigore, com o título "Nocturno da Água".
Para JQ, no seu Indícios, registando e agradecendo as suas palavras.