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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Divagações 116


É o anoitecer que colhe, o mais das vezes, a preferência do viandante. Seja sobre o Adriático ou sobre o Tejo, essa nostálgica despedida do olhar, que a memória quer trazer por sobre as águas.
Depois, o enquadramento dará algumas pistas sobre quem esteve por trás: o movimento fixado, as coisas, a ordem ou a desarrumação, a quietude que se pretendia para a noite a começar.
Ao amanhecer, não se peça uma opção definida e clara. Em todo o caso, podemos sempre convocar Turner...

sábado, 21 de maio de 2016

Forte de Santiago


A construção amuralhada data de 1657, do reinado do perturbado D. Afonso VI. Um pouco descaracterizada pelos acrescentos espúrios, a fortaleza, na foz do Sado, tem ainda imponência e nobreza arquitectónica. O último aditamento terá sido o Sanatório do Outão, que até tem praia privativa, embora pequena. Para os que gozam de saúde e não necessitam de iodo para os ossos frágeis, o dispositivo geral tem ainda algumas dependências habitáveis que dão pelos saborosos nomes de: Casa das Palmeiras, Casa do Faroleiro e Casa do Médico. Esta última é a mais luminosa. Por cima dela, há uma mansarda com vista admirável e ampla, embora com quarto e sala, exíguos - não se pode ter tudo...
Nos quintais anexos, relaxados no arranjo, há couves, papoilas, nespereiras e rosas. Dois gatos os ocupam ou habitam, um preto, azeviche, outro, malhado. Ambos ariscos.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O cerne do poema


Mais tarde ou mais cedo, uma, ou outra vez, há versos de um poema que vêm ter connosco.
Não falo do "Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela...", dezenas (?) de vezes citado pelos leitores preguiçosos ou críticos rasteiros de Herberto Helder. Para não falar do "...quando a alma não é pequena..." pessoano, abastardado pelos turistas da Poesia, pelos políticos ciosos de serem importantes e fingirem de cultos, e até mesmo pelos basbaques que não sabem dizer nada de seu. Eu queria significar outra coisa. Referir esse encontro íntimo e autêntico que, às vezes, acontece entre nós e um ou mais versos de um poema, de forma, que parece, absolutamente exacto e nosso, na sensibilidade. Por uma iluminação do espaço, ou da experiência, que se torna comum e verdadeira.
O poema "Nocturno de Veneza"*, foi-me recomendado por Eugénio de Andrade, pouco antes de aparecer na Colóquio Letras. Assim diziam os versos:

Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.

Na altura, gostei do poema, mas não muito mais do que tantas outras poesias do Poeta. Estava ainda muito longe de o vir a viver e sentir, verdadeiramente. Passaram entretanto quase cinquenta anos, foi preciso eu defrontar-me com as águas do Sado, no Outão, para integralmente eu perceber essa música de tanto olhar a água. E fazê-la minha por inteiro.

* o poema veio a ser incluído, depois, em Ostinato Rigore, com o título "Nocturno da Água".

Para JQ, no seu Indícios, registando e agradecendo as suas palavras.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Outão


O Sado corre, generoso e incessantemente, para o mar. Num azul mais firme que o do céu.
Duas linhas de areia, paralelas, no horizonte; uma fímbria de verde vem de Tróia, com casas esparsas, ribeirinhas e térreas de brancura lavada. Tremem as primeiras luzes...
Como me vêm, assim naturais, os versos de Eugénio: ".../ música de tanto olhar a água,/..."

domingo, 11 de abril de 2010

Do real ao virtual - ligações metafísicas



De regresso. Por entre safira e verde, houve um castanho-cinzento que se impôs. Um Magritte florido e ligado à terra - não suspenso. À beira de uma espera de ninguém por sobre o mar. E sem mais palavras, senão o voo das aves invisíveis sobre as ondas serenas.