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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Osmose 147

 
Há o estado de espírito e o estado físico, que nem sempre coincidem, embora se influenciem mutuamente. E, depois, há uma espécie de piloto automático, em lugar desconhecido, que nos controla na sombra e de que nós nem sequer sabemos quais são os seus objectivos concretos e a que se destinam.
É por isso que eu, quando ouço falar em liberdade humana, me dá vontade de sorrir.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Osmose 146

 
O Inverno veio a sério, bem como o seu desencanto recolhido. Não merece sequer lembrar Shakespeare. Felizes os que se foram habituando a hibernar, de seu natural,, no tempo certo. 

domingo, 20 de julho de 2025

Osmose 145

 
Compreendo perfeitamente os abusos que se fazem sobre alguns verbos, de natureza afectiva, por parte de uma grande parte da gentinha que polui a blogosfera. Adorar, amar, por exemplo, são usados, indistintamente, por quem não sabe usar a medida e o grau. Volúveis, quando não irracionais, estas criaturas levezinhas de cabeça são capazes de incensar um amigo recente de que muito pouco conhecem, esquecendo, com leviandade, os antigos companheiros. 
Gente pouco fiável, que eu gostaria de lembrar neste vago Dia Internacional da Amizade.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Osmose 144



Foi um homem das arábias, este Frei António das Chagas (1631-1682), cujo nome original era António da Fonseca Soares, nascido na Vidigueira e fundador do convento de Varatojo. Soldado implacável, por alguns anos, no Brasil, por aí foi conhecido como Capitão Bonina. Quem dele, falou com propriedade de investigação literária, foi Mª. de Lourdes Belchior. Nunca foi meu poeta predilecto pelo abuso de barroquismo dos seus versos, mas acabo de sinalizar a compra das suas Cartas Espirituais ( 2ª. edição, de 1701) na Livraria Lumière (Porto).
Não tendo sido barata a aquisição, interessava-me estudar-lhe melhor a obra, para lá do volume da Sá da Costa que tenho na minha bibiblioteca. A ver vamos...



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Osmose 142

 



Tenho vindo a reler, de forma continuada, os textos em prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) que a Modo de Ler editou em Abril de 2011, com um competente e útil prefácio de Luís Miguel Queirós (1962).  A temática ganha muito lida em conjunto e sublinha, indirectamente, a mestria e qualidade da prosa do grande poeta.
Das suas palavras saem nítidos retratos com evocações singulares e comoventes de Pascoaes e Pavia, justas, embora talvez um pouco cruéis, de Botto e Homem de Mello, entre outras figuras que ele conheceu de perto.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Osmose 140

 

Vamos arranjando umas histórias para ilustrar os mistérios que ocorrem no exterior ou nas redondezas geográficas, e que não sabemos explicar. Algumas vezes a realidade vem dar-nos razão. Outras, os erros acabam por ser flagrantes. E o desencontro, total.
Há gente que desaparece para sempre, mas também regressam, raros embora, alguns filhos pródigos inesperados, que sempre foram de nossa estimação. Assim, por vezes, se nos enriquecem os dias.
E até parece que somos felizes, salvo seja...

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Osmose 139

 


É talvez um dos lados obscuros da pequena história. Que eu acompanhei.
Lembro-me do nome de quase toda a equipa: Carmo Vaz, J. Perestrello, Tiago Reis, Dionísio... Era uma altura em que eu achava que a Formação era irrelevante. Estava errado. Embora me apercebesse depois que os profissionais do Modelo, a nível de competências, deixavam muito a desejar; a Nutripol e o A. C. Santos ainda eram piores. Hoje, a preparação profissional, nas grandes superfícies mantém-se uma desgraça... 
A estratégia do Comércio Interno, nessa época do PREC, era pôr tudo sob a tutela e alçada do P. de A., para melhor conseguir manobrar a alimentação e abastecimentos em Portugal, à boa maneira bolchevique, concentracionária e monopolista.
Creio que o executor teórico desse plano teria sido, no governo da altura,  o economista J. M. Brandão de Brito (1947). Um rapaz de modos suaves e urbanos.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Osmose 138

 

As perspectivas de quem vê ou aprecia estão pré-definidas, não no objecto, mas no sujeito.
Seja uma colina, um livro, um quadro, o observador traz já consigo as condicionantes próprias.
Calhou acidentalmente eu ler, com pouco intervalo de tempo, apreciações de duas pessoas sobre o Diário de Miguel Torga (1907-1995). Luiz Pacheco e o embaixador Marcello Mathias, se não têm opiniões opostas, apenas coincidem num certo respeito literário pelo memorialista. Enquanto o diplomata é francamente elogioso ("Porque Torga procura, a cada momento, desvendar a autenticidade que o define, incluindo a sua própria identidade cultural como português no contexto que lhe foi dado viver."), Pacheco prefere desmontar a pose e artifícios de Torga, ainda que usando de alguma complacência simpática de colega das letras.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Osmose 137



Nesta fracção minúscula de vida em que passámos no tempo e universo, e em que mal deixamos sinal, podemos ter a sorte de cruzar pessoas notáveis que nos enriqueceram para sempre, nesse mesmo sempre minimalista que irá desaparecer de todo em nuvens que se evaporam no vácuo. Porque a eternidade é uma utopia dos irrealistas ingénuos e bem intencionados. 
Por cego e ingrato esquecimento omito, sem razão muitas vezes, o nome de Mário Cláudio (1941), por entre os ficcionistas que considero e gosto de ler. Sendo discreto, não salta muito aos olhos, nem se põe em bicos de pés para que demos por ele como escritor. E bem merece ser lembrado, por fundadas razões de boa escrita e capacidade profissional muito acima da mediocridade geral reinante.
Comprei-lhe agora  o Diário Incontínuo (Julho 2024). E sei que me não vou arrepender.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Osmose 135


Há palavras que nos aproximam das origens ou nos abeiram do essencial, ainda que, a princípio, mal demos por isso, entretidos que estamos à tona do supérfluo. Como há também rostos, às vezes pelas ruas, que nos trazem, por semelhança extrema, boas memórias e presenças impossíveis, por desparecidas.
A imaginação latente é quase sempre agressiva para com a realidade.
E a vida, muitas vezes, parece uma fábula sonhada.
Preciso é pensá-la...

domingo, 24 de dezembro de 2023

Osmose 134


Às vezes, as coisas boas de que gostamos vêm ter connosco, inesperadamente. Assim pensava também, a propósito de livros raros, um catedrático português bibliófilo, já falecido.
Pelos vistos, o filme na RTP 2, que apanhei a meio (acabei por o vê-lo todo através do Replay), estaria à minha espera, pois foi um gosto entrar nele. E assim ficar, por lá, deliciado.
Realizado por Claudio Rossi Massimi (1950) e muito bem desempenhado por Remo Girone (1948). O filme ialiano é de 2021 e bem merece ser visto. Aqui fica o conselho.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Osmose 133



Que o mundo anda imensamente desarrumado e agressivo, já eu sabia. 
Que há falta de médicos, camionistas, professores, canalizadores e enfermeiros também tinha conhecimento.
Agora que escasseiam medicamentos, é que eu desconhecia de todo. Em busca desta mezinha (em imagem), que devo tomar semanalmente, fui a 6 farmácias, nos últimos 4 dias para a comprar - debalde! "Que está esgotada!" Seja o original, sejam os genéricos. E as senhoras farmacêuticas nem sequer têm previsão de reposição do ácido alendrónico...
(Ah mundo, ao que chegaste!)
E que dirão, sobre isto, a ANF e o Infarmed, habitualmente tão zelosos e palradores?

sábado, 22 de julho de 2023

Osmose 132

 

Por vezes, contentámo-nos com pouco. Ganhei o dia só porque consegui adquirir na sexta-feira, à tarde, e por apenas 5 euros, o penúltimo livro que me faltava das traduções portuguesas das obras de W. G. Sebald (1944-2001), de quem o colega Javier Marías (1951-2022) dizia que talvez fosse, na altura, o melhor escritor contemporâneo. Depois deste O Caminhante Solitário (Teorema, 2009), fica-me a faltar apenas Os Anéis de Saturno (Quetzal, 2013), dado que Vertigo (1990) tenho e li-o na edição inglesa original.
Escusado seria reafirmar que W. G. Sebald é um dos meus autores de eleição...

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Osmose 131


Nomear é conhecer, de algum modo. Daí a obsessão por um nome esquecido que nos fugiu da memória, e que, de noite e na escuridão, perseguimos incansavelmente pela insónia dentro.
Os números são mais para situar geografias e estados. Contento-me, satisfeito e tranquilo, com aqueles que esta manhã o corpo acusou: 126, 68, 76 sem arritmia. Saúde-se a boa proporção.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Osmose 130


Há tempos e textos que, por vezes, nos encantam. Não serei muito sujeito a fascínios excessivos e inexplicáveis, mas sei reconhecer e admirar a qualidade de um parágrafo, a concisão de um pensamento ou a nitidez de uma descrição, a forma justa, precisa e realista de narrar um acto. De alguma forma, é isto que sinaliza um bom romancista, um poeta, um artista profissional na sua obra. Ou um homem atento à vida, pelo menos.
A página 258 de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, fez-me parar na leitura para pensar melhor estas palavras assim ditas (ou escritas), do escritor brasileiro:

Não iríamos, por fraqueza, responsabilizar o capitão moreno de voz frágil: ele apenas descobrira as nossas tendências, empregara o meio conveniente para transformá-las em acção. Reside nisso talvez o domínio que certos indivíduos exercem sobre a turba; o seu prestígio vem da faculdade quase divinatória de conhecer aspirações e interesses escondidos, juntar grãos de pólvora derramados nos espíritos, chegar-lhes um fósforo em cima. Certo não nos mexeremos à toa: o mais longo discurso incendiário, profuso de razões, não ressoa cá dentro - e permaneceremos calmos, frios; meia dúzia de palavras curtas nos arrastam.

Eu creio que seria muito difícil conseguir dizer melhor. Este facto bem difícil de descrever: o poder encantatório das palavras ou o timbre contagiante de uma voz.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Osmose 129

 

No sonho, o artista convidado era o Secretário-geral das Nações Unidas, ao vivo, e não na sua estatuária vizelense de acção de graças. Ligeiramente mais novo e elegante, também.
O local era a serra de Sintra, mas com vales mais amplos, em tonalidades que lembravam as pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840). Nos pequenos planaltos intermitentes, acampamentos de ciganos junto dos quais pastavam cavalos baios e brancos.
Mas eu queria era voltar a casa, não sabendo o caminho a tomar. Valeu-me uma senhora, assadeira de castanhas, que se prontificou a guiar-me por entre uns túneis esquisitos e labirínticos.
E lá deixei ficar Guterres para trás, até acordar, finalmente.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Osmose 128



De uma forma lapidar e para sempre (?), C. P. Snow (1905-1980) chamou a atenção, a tempo, para o divórcio entre as duas culturas: Ciências e Humanidades. Mas até mesmo dentro destas duas grandes divisões, entre os seus cultores, há apartados muitas vezes inamovíveis. Não fora, na juventude, o meu convívio amistoso com três colegas, na mesma república estudantil, eu talvez ainda ignorasse nomes importantes de outras áreas das letras. Eduardo Brasão e Orlando Ribeiro, por exemplo. Em troca, eu dei-lhes a conhecer Eugénio de Andrade e Ruy Belo, entre outros. Com isso, viemos a beneficiar e alargar os nossos horizontes culturais.
Lembrei-me disso ao ler um texto muito interessante de Orlando Ribeiro (1911-1997) a descrever a Serra da Estrela. Porque penso que não é nada fácil fazê-lo, do ponto de vista geográfico. Um pequeno excerto,  assim:




" A Serra da Estrela (1.991 m) individualiza-se bem, pela sua massa que avulta por tempo claro e chega a ver-se do Sul do Tejo, pela neve, que, no Inverno, cobre e faz sobressair a parte mais alta, pelas nuvens que até tarde, na Primavera, lhe envolvem e ocultam os cimos. É um dorso enorme, escalvado, monótono e imponente pelo volume, mas sem o fino recorte do Caramulo, por exemplo. O limite SE da serra está numa queda muito brusca de 1.000 m que, vista de longe, figura uma parede quase vertical com as amolgadelas das gargantas ocupadas por antigos glaciares. Aqui acaba o granito, que forma a parte principal e mais elevada da Estrela; para Ocidente, dum e doutro lado  do Zêzere, o xisto é o material de todo o relevo."

Orlando Ribeiro, in Guia de Portugal, III vol. - Beira Baixa.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Osmose 127

 


Olho para as mãos: entrecortadas de sulcos por onde a água já não corre, mas apenas um suor envelhecido.
Uma palavra basta, muitas vezes, para interromper o desastre, a má notícia. Ou abrir à força, irreal mas propícias, alvas novas frescas de outro ano a que chegamos, quase sem dar por isso. O eterno é sempre para adiar, realisticamente, por algum tempo. Mortal, embora.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Osmose 126


Em qualquer viradeira há sempre uns quantos  sujeitos melífluos, aparentemente neutros, que se prestam ou oferecem, como intermediários, para assegurar uma tranquila, pacífica transferência. Uma vez efectuada, afastam-se ou são exonerados. Têm perfil diplomático, politicamente são o que se conhece como centrão. Os cínicos chamam-lhes vira-casacas, quando benevolentes.
A nível de comércio interno (ou grandes superfícies) lembro-me de alguns, depois do PREC: um, baixinho, que se assinava Mathias, de Tomar, e outro, de apelido Almeida e Silva, insinuante de nins, que fez carreira em altos cargos de retalho maior. Com perfil idêntico, eu creio que podemos encontrar criaturas semelhantes em quase todas as áreas profissionais. São pau para toda a colher, em busca de benefícios fáceis...

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Osmose 125



É minha convicção, de há muito, que um (bom) poeta pouco produz de qualidade, na velhice. Haverá raras excepções, como talvez Herberto Helder mas mais pelo registo diferente ou insólito dos poemas dos últimos livros, em relação ao estilo anterior a que estávamos habituados, seguramente.
Ora, em Conta-Corrente 2 (1977-1979), Vergílio Ferreira (1916-1996) vem em meu socorro, corroborando a minha ideia, parcialmente e de algum modo, ao escrever: "...E contei que a Simone de Beauvoir, no seu livro La Vieillesse, e segundo as estatísticas, dá os limites da criatividade em cada sector cultural. Assim o pintor é quem dura mais, pintando praticamente até à idade mais avançada; o matemático e o físico cessam pelos trinta e poucos anos, o romancista acabará aí pelos sessenta mais ou menos." (pg. 18)