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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Circunstâncias



Em última análise, os livros valem pelo que nos trazem ou pelo prazer que nos dão (ou deram) a ler. Este aparentemente desvalioso livrinho La Casa de Lúculo, de Julio Camba (1884-1962), talentoso gastrónomo galego, controverso acrata e franquista, comprei-o na rua do Alecrim, há cerca de 12 anos. Estava naquilo a que o meu amigo H. N. chamava, por graça, salgadeira, ou seja, a prateleira rente ao chão, onde o Bernardo Trindade punha os livros com preços mais baratos: de 1 ou 2 euros. E deu-me um enorme prazer ao lê-lo.
Pertencera, pelos sinais existentes, ao advogado conimbricense Octaviano Carmo e Sá, que o estimou devidamente e até lhe colou um ex-libris. E eu não tive senão que lhe seguir o exemplo. Não para sublinhar o valor do livro, mas para testemunhar a estima em que o tenho, felizmente, na minha biblioteca.



domingo, 12 de janeiro de 2014

O galego Julio Camba, os caracóis, as rãs e os franceses


"...O primeiro francês que comeu um caracol não era, certamente, um epicuro, mas um esfomeado. Só a fome, com efeito, pode fazer levar à boca esse gastrópode de aspecto imundo, e hoje os caracóis de Borgonha têm na cozinha francesa um tratamento de excelência. E quem fala de gastrópodes fala do batráquio. As rãs não ofereciam ao homem uma aparência mais apetitosa que os caracóis, mas algum músculo deviam ter para darem saltos tão grandes.
- Não poderíamos provar as suas ancas? - pensaram, sem dúvida, os franceses numa época de necessidade, assolados, talvez, por uma das suas guerras frequentes.
E foi assim que começou a história do traga-rãs gaulês. ..."

Julio Camba (1882-1962), in La Casa de Luculo (pg. 49).

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O laboratório e a chaminé

É interessante e, no mínimo, objectiva, a citação do gastrónomo Brillat-Savarin (1755-1826), que Julio Camba, em "La Casa de Lúculo", refere. Aqui vai:
"Estou tentado em acreditar que o olfacto e o gosto não formam mais que um sentido, sendo que a boca é o laboratório e o nariz a chaminé, ou, para o dizer com mais exactidão, em que uma serve a degustação dos corpos tácteis e o outro a degustação dos gases."

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mercearias Finas 9 : Trufas



Desta vez, socorro-me de um livro, para abordar uma delícia comestível. E, mais uma vez, recorro a Julio Camba (1882-1962), esse galego de escrita elegante, de verbo bem disposto, grande conhecedor da gastronomia deste mundo. É um capítulo inteiramente dedicado às trufas, que traduzi do castelhano, e que pertence ao livro de que tenho vindo a falar: "La Casa de Lúculo...". A única actualização que se poderia fazer ao texto de Julio Camba é que, hoje em dia, para além de cães de faro e apetite fidalgos, também se usam suínos treinados, na procura das terrenas e divinais trufas. Orwell que nesta data (25 de Junho) nasceu, em 1903, exclamaria, com propriedade e direitos de autor, é o "triunfo dos porcos"!; mas vamos ao texto de Camba:
Aquele que nunca comeu uma trufa assada em cinzas de carvão de azinheira, ou cozida ao vapor de um vinho respeitável, não sabe o que são trufas. A trufa é o produto mais misterioso e mais prodigioso da terra. Não se pode cultivar nem colher, e há que caçá-la, saindo para o campo, com um cão que cheire o seu rasto. Na realidade, a trufa tem sempre algo de caça e não é só pela maneira de como se apanha, mas também pelo sabor que a caracteriza. Eu estabeleço entre ela e os outros vegetais a mesma relação que há entre um pato selvagem e um pato de galinheiro. Esse aroma poderoso da trufa, esse perfume bravio que as caracteriza, essa sua personalidade única que só se obtém em plena liberdade, longe do homem e da civilização.
Eu imagino que o cão fareja a trufa que jaz debaixo da terra, de igual modo que nós cheiramos a trufa assada, e calculo o que deve sofrer o pobre quando lha tiram da boca. Os cogumelos oferecem-nos o perfume do campo e do bosque, isto é, o perfume da superfície da terra. As trufas, ao contrário, oferecem-nos a essência mais íntima e entranhada. Pegar numa boa trufa, uma dessas trufas de cor de ébano, gordas como um punho, que só, ai!...se produzem em França - as nossas, coitadinhas, criadas na terra, e até os «tartuffi bianchi» italianos, são uma espécie de batatas comparadas com as trufas de Perigord -, equivale a um acto religioso, porque nos dá um novo sentido do mundo e da vida.
Enquanto que dessas trufas de conserva que se utilizam para fazer algumas voláteis e pequenas incrustações de carácter decorativo, mais vale nem falar. Em Lyon costumam lardear as «poulardes" com grandes bocados de trufas frescas, mas em tal quantidade que as «poulardes» assim preparadas se chamam «poulardes demi-deuil» ou de meio luto, e aquilo, sim, é outra coisa. Apesar da sua fúnebre denominação, a «poularde-deuil», impregnada com o gosto da trufa, não tarda em reconciliar com a vida o homem mais desesperado.
É uma ideia muito antiga a de que a trufa desenvolve a nossa capacidade amatória, e isso não me surpreende muito. Não é que eu acredite muito nas vitaminas. Nem em nada de parecido, mas creio sim que nenhuma emoção artística se basta em si mesma, e que o homem precisa de descarregar sempre, pela via sentimental, aquilo que recebe. Daí que não se conceba uma bela paisagem sem um terno idílio; daqui resulta que os recém-casados vão passar a lua-de-mel à Suiça, e daqui, finalmente, a tradição da trufa, manjar que nos enche de desejos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ainda Julio Camba : em louvor do linguado



Já aqui falamos de Julio Camba, autor galego de "La Casa de Lúculo o el Arte de Comer (Nueva Fisiología del Gusto)", de 1929. Transcrevemos, traduzindo, uma parte do capítulo que ele dedicou a um dos seus peixes predilectos - o linguado.
"O amor apaixonado pela sardinha, cuja miséria reconheço, bem como a sua grandeza, não bastaria, nem com acrescentos, para me fazer menosprezar o linguado. O linguado é, porventura, o melhor de todos os peixes do mar, mas!, desconfiai das imitações. Não sou eu que compartilhe a opinião de um amigo meu, que sustenta que, na Corunha, há umas máquinas, tipo prensa, com as quais se convertem em linguados todos os peixes. Não. A falsificação faz-se mesmo no fundo do mar, longe dos olhares humanos e é a propria natureza quem os transforma. Devido ao enorme êxito obtido pelo saboroso acantoperígio, uma quantidade de peixes insignificantes adoptaram a forma extra-plana, e quando o pescador lança a sua rede para pescar linguados, não é estranho que os peixes-galos, as solhas, os "rapantes(?)", etc., se metam fraudulentemente nela a ver se passam como clandestinos. Quem não tem imitadores neste mundo, irmão linguado?
O linguado presta-se a preparações esquisitas. Em qualquer livro de cozinha encontrará V., amigo leitor, as receitas do linguado Marguery, do linguado Joinville, do linguado Mornay, etc.; mas, por razões que exponho noutro sítio, não aconselho que experimente alguma delas. Nada disso. Cozinhe antes o seu linguado, um bom linguado de um quilo, cem gramas a mais ou a menos, mas não demasiado menos. Os linguados deste tamanho são os que chegam a Madrid com a carne no seu devido ponto de firmeza. Polvilhe-o com um pouco de farinha - suponho naturalmente que o seu linguado esteja limpo - e frite-o em azeite: bom azeite e muito azeite..."

P. S.: para MR (e JAD), que provavelmente, em breve, provarão um "primo"...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

À mesa


Julio Camba (1882-1962), nascido em Pontevedra, foi um conhecido jornalista, escritor e humorista espanhol. Ligado, na juventade, aos meios anarquistas, veio mais tarde a adoptar posições conservadoras. Era também um amante de boa comida e desde 1949, até à morte, residiu no Hotel Palace, em Madrid - um pouco como a nossa Beatriz Costa fez, no Tivoli. Da sua bibliografia consta o volume "La Casa de Lúculo o el Arte de Comer" (1929) onde aborda, com boa disposição e humor, temas gastronómicos muito diversos que vão desde a cozinha norte-americana aos vinhos franceses, da melhor forma de fritar linguados aos bons modos de comer à mesa, ou as regras do comer e dietas. Deste último capítulo se transcrevem alguns conselhos:

"Deve ter-se sempre um regime alimentar, uma dieta contra a obesidade, contra a arteriosclerose ou contra qualquer outra coisa, para quando nos derem alguma má comida, nos possamos escusar com o nosso regime. É a melhor política."
"Em contrapartida, quando nos oferecerem um comer excelente, o melhor é mandar a dieta dar uma volta. O supremo de qualquer regime é mesmo o prazer de o não cumprir."
"Se não soubermos descascar a fruta de modo elegante, podemos desculpar-nos com a teoria das vitaminas e comê-la com a pele."