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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Da leitura 50


Nos Ensaios Recentes 2006--2017, a páginas 167/8, e na recensão a Platero e eu, de Juan Ramón Jiménez (1881-1958), J. M. Coetzee (1940) tece algumas considerações muito originais sobre os olhos de alguns animais, que, parcialmente, passo a transcrever:

"Além do permanente olhar da criança, existe um segundo olhar mais óbvio no livro: o do próprio Platero. Os asnos, para os seres humanos, não são criaturas de uma beleza especial - não são tão belos (para ficarmos só nos herbívoros) quanto as gazelas ou os cavalos -, mas têm a vantagem de possuir lindos olhos: grandes, escuros, líquidos - cheios de alma, como às vezes dizemos e emoldurados por longos cílios. (Os olhos pequenos e avermelhados dos porcos nos parecem bem menos bonitos. Será por isso que não nos é facil amar esses animais inteligentes, amigáveis e engraçados? Quanto aos insetos, seus órgãos de visão são tão diferentes dos nossos que não é fácil encará-los com algum afeto.)" 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

J. R. Jiménez (1881-1958)

 


Biblioteca Mia


Que a obra a si própria não se sinta,

que não entenda sequer

sua formosura! 

                         Nem mesmo o sol se sente,

 e temos dele inveja, o imortal? -

                          Ah! os livros

assim sozinhos, quando vou p'ra longe

- o sol assim fica, lento e cego, a iluminá-los

e nós que os trazemos no olhar!



Juan Ramón Jiménez, in  Poesía (1917-1923).

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Juan Ramón Jiménez (1881-1958)



Estampa de Invierno

                                                              Nieve.

Por onde se terão escondido as cores

neste dia negro e branco?

As folhas no escuro; cinzenta a água; o céu 

e a terra, de um branco e negro pálido;

a cidade dorida como uma  

água forte romântica.

Quem passe, escuro;

negro a medo o pássaro

atravessa o jardim - é uma seta...

Até o silêncio é duro, descolorido.

Cai a tarde. O céu

não se enternece. No poente

um vago amarelo incendiado

quase, que não é. Ao longe os campos

lembram ferro em placas.

                                          Entra a noite, como

um funeral; de luto e frio

quase tudo, sem estrelas, branco 

e negro, tal o dia fora negro e branco.


J. R. Jiménez, in Poemas májicos y dolientes (1909).


terça-feira, 24 de novembro de 2020

Citações CDIL

Não consigo habituar-me a colocar a Idade Média depois da Grécia e de Roma.


 Juan Ramón Jiménez (1881-1958), in Etica y Etica Estetica.

sábado, 7 de novembro de 2020

Últimas aquisições (28)

 


Será esta Patagónia de Bruce Chatwin (1940-1989) mais interessante que a de Luís Sepúlveda? Duvido, e até dizem que há alguma ficção entremeada por Na Patagónia (Quetzal, 2020), o que só corrobora o velho ditado: Quem conta um conto, acrescenta um ponto.



Pouco tempo depois, e para me iniciar na prosa de Antonio Gamoneda (1931), poeta espanhol que muito aprecio, adquiri Um Armário Cheio de Sombra (Almedina, 2020) deste vate nascido em Oviedo. Nem sempre os bons poetas escrevem prosa de qualidade, mas há honrosas excepções: Quevedo, J. Ramón Jiménez, Eugénio de Andrade, por exemplo.

A ver, ou melhor, a ler vamos o que se passa com Gamoneda...

segunda-feira, 23 de março de 2020

De JRJ, sobre Camões


Ler correspondência alheia constitui, uma boa parte das vezes, uma forma daquilo a que eu costumo chamar com ironia: coscuvilhice nobre. Noutros casos, permite saber melhor como foram e pensaram alguns homens célebres, no passado, para o efeito de melhor os conhecermos ou à sua obra.
Esta carta em tom bem humorado, do poeta Juan Ramón Jiménez (1881-1958), dá-nos uma ideia da opinião que ele tinha sobre Camões e, por isso, resolvi traduzi-la para o Arpose.
Segue:

                                                                                                                 Madrid, 13 de Janeiro de 1924

Senhor Dom Juan Guixé, El Liberal.

Meu querido amigo:

 Recebi esta noite, às sete, a sua amável carta pedindo a minha opinião sobre a ideia de O Liberal enviar a Portugal uma "embaixada" extraordinária de poetas espanhóis, tendo como motivo o centenário de Camões. E solicita-me que eu lhe responda hoje mesmo.
 Há tempos que não leio jornais e, por isso, não posso senão referir-me à sua missiva: um juízo meu sobre Camões "glorificado" não teria qualquer valor, uma vez que só li do poeta luso as suas poesias dispersas e estou certo de que não é por umas belas poesias soltas que um país celebra oficialmente os centenários dos seus vates. O seu poema "nacional", salvo das águas pelo seu braço e seu único olho, nos anos quinhentos, nunca me atraiu excessivamente, apesar de me ter obrigado a folhear as suas páginas húmidas; nem sou capaz de abordar, esta noite, as suas oitavas - somente creio na saborosa crítica espontânea - para improvisar um desses apagados, estranhos, antipáticos, infecundos, ajuntadores circunstanciais - Azorín, dom Ramón Perez de Ayala, dom E. de Ors - que se vão fazendo todos os dias por aí. Tão pouco, enfim, tenho sequer notícia de algum trabalho de dom Ramiro Maeztu sobre poesia épica portuguesa, que fosse bastante eloquente, sem dúvida, como outros seus ensaios, para que cristalizasse em mim, de súbito e definitivamente, uma opinião  contrária.
 Crêem os espanhóis competentes que o desventurado Camões é um grande poeta do trono terrestre, marinho e celestial? Nesse caso, é indubitável fazerem-se as coisas com elevação e respeito, e assim que seja dom Miguel Unamuno a "representar-nos" nessa comemoração, bem como dom Antonio Machado, os mais portugueses dos nossos actuais poetas. Se, pelo contrário, miscelâneas político-jornalista-literárias, como é costume fazer-se, decidam formar-se em amigável consórcio com os seus parceiros, como sejam O Menino de Vallecas e O Bobo de Coria - veja-se o documento inapreciável de dom Juan Echevarria - nosso actual e fulgurante Azorín das Hurdes, perito em tortas e papas; de que eu fujo como se fosse da fogueira.
 Não me é possível mandar-lhe o meu retrato, nem creio que seja necessário, neste caso, publicá-lo.
 Obrigado por tudo, deste seu afectuoso amigo,
                                                                                                                                 Juan Ramón Jiménez

Nota: a carta foi traduzida de JRJ Cartas / Antologia (Espasa Calpe, 1992).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O gosto e a idade


Já gostei muito de Lorca, numa idade em que seria natural tê-lo como referência, em poesia. Depois, o destino trágico e injusto iluminou a sua curta vida do tom próximo de epopeia que fascina a aventura sonhada dos dias da juventude de cada um. Se, e quando, esses sonhos existem.
Mas, lentamente, fui-me, com a idade, afastando dos seus versos. O lugar de eleição foi sendo ocupado primeiro por Jiménez, de quem o Eugénio me falou, e, depois, num outro registo, chegou-me Quevedo, na forma avassaladora do soneto Desde la Torre:

Retirado en la paz de estos desiertos,
con pocos pero doctos libros juntos,
vivo en conversación con los difuntos
y escucho con mis ojos a los muertos.
...

A minha idade madura ia procurando o realismo objectivo da vida, a exigência simples, o mínimo essencial que prescinde de mimos e fantasias do acessório, cultivando, no fundo, uma sobranceria irónica pela tona dos dias e pela ligeireza das ambições excessivas, que são sempre poluentes.
Eu acho que Paco Ibáñez percebeu isso, ao musicar (no vídeo do poste anterior), em tons muito diferentes, as palavras sensuais de Lorca e os versos terrestres de Quevedo. A secura essencial dos trinados aplicados a Quevedo contrasta com os requebros utilizados para os versos de Lorca.
Sabiamente.


sábado, 26 de maio de 2018

Neruda


Quem tiver lido na juventude, ou em idade ainda propícia a arrebatamentos, não se terá esquecido, por certo, das palavras Puedo escribir los versos más tristes esta noche (que Paco Ibáñez, mais tarde, veio a musicar e cantou), que iniciam o penúltimo poema do livro 20 Poemas de Amor y una canción desesperada, do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), que foi prémio Nobel da Literatura, em 1971. 
O tempo, o surgimento do sentido crítico e o convívio com outros poetas fará, no entanto, abrandar o entusiasmo emocional que esses versos nos despertaram. A que acresciam, também, as lendas românticas que envolveram o poeta. Como, por exemplo, o de ter sido envenenado pelos esbirros de Pinochet, quando afinal Neruda morreu em resultado de um prosaico cancro da próstata.
Creio que a melhor síntese sobre a obra do poeta foi feita, em 1939, por Juan Ramón Jiménez: Siempre tuvo a Pablo Neruda por un gran poeta, un gran mal poeta, un gran poeta de la desorganización; el poeta dotado que no acaba de comprender ni emplear sus dotes naturales.



Os críticos, e mais uma vez os anos, encarregaram-se de desmontar uma boa parte da obra do Poeta chileno nobelizado, atribuindo-lhe influências notórias de Ruben Darío, C. Sabat Ercasty e do indiano Tagore. Não se livrou até de o acusarem de ter plagiado alguns versos do argentino Jorge Enrique Ramponi, no seu poema Alturas de Macchu Picchu. E o crítico inglês C. M. Bowra chegou a escrever que cerca de metade da poesia de Neruda era "very poor stuff indeed".
O penúltimo TLS (nº 6006), pela pena de Ben Bollig, a propósito da saida de duas traduções inglesas de e sobre o poeta chileno, encarrega-se, no entanto, de pôr alguma água fria na fervura e reavaliar, com certo equilíbrio, a obra de Pablo Neruda.






domingo, 30 de julho de 2017

Bibliofilia 155


Das revistas literárias, sabe-se que têm, normalmente, vida breve.
O entusiasmo inicial dos colaboradores e/ou dos editores não resiste muito tempo à escassez das disponibilidades financeiras e à relativa fidelidade dos subscritores e eventuais leitores. Por sua vez, as colecções completas destas publicações são, quase sempre, difíceis de encontrar, hoje em dia, nos alfarrabistas. Desta Sísifo, que se editou em Coimbra (Livraria Atlântida), sairam apenas 3 números, sendo que o do meio era duplo, e tinha uma tiragem de 700 exemplares. Com boas colaborações (Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Júlio Resende...), cada número avulso custava Esc. 7$50. Publicou-se nos anos de 1951-1952.


A colecção completa, que pertencera a Laureano de Barros ( (1921-2008), matemático bibliófilo e anti-fascista, foi vendida, aqui há uns anos atrás, num leilão organizado por Manuel Ferreira, no Porto, por 70 euros. Em 2016, a Frenesi, que não é peca nos preços, tinha à venda outra colecção completa por 150 euros. E Miguel de Carvalho, livreiro-alfarrabista da Figueira da Foz, na sua última lista (Julho 2017, ref. 13886) apresentava, também um conjunto completo, à venda por 70 euros. Incompleta, com falta do fascículo nº 4, adquiri recentemente, em Lisboa, os números 1 e 2-3 (com o número 515, da tiragem), por 10 euros, motivado sobretudo por neles constar uma primeira versão de um poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), que veio a sofrer alterações, até à sua expressão final e ne varietur. Originalmente, assim era:



O poema incluído, mais tarde, no livro As Palavras Interditas, que veio sendo aperfeiçoado pelo Poeta, na sua versão definitiva* (1990, Jornal/Limiar) ficou deste modo:

Post Scriptum

Agora regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
de terra ardente e lua inviolada,
flutuando sem limite na espessura
da noite cheirando a madrugada.

Acordaste na aurora, a boca rumorosa
de um desejo profundo de açucenas;
rosa aberta na brisa ou nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

Estás de pé na orla dos meus versos
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa
- como no tempo em que tinha medo
que tropeçasses numa gota de água.

Por cotejo, as diferenças são substanciais, como pode ver-se, mas julgo que o poema terá chegado à perfeição humana possível, ou de que Eugénio de Andrade seria capaz. Vale a pena lembrar, a propósito, uns versos lapidares de J.R. Jiménez, em pobre tradução minha: "... não lhe toques mais/ que assim é a rosa."

* A versão final do poema manteve apenas 7, dos 15, versos exactamente iguais aos da versão inicial.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ressonâncias


A princípio foram os campos de Soria (Machado? Lorca? Jiménez?), pouco depois, o deste sabor de fruta inexistente, que se me perfilou, ostensivo, na corrente do pensamento.
Às vezes, subitamente, e sem que nada o pressentisse ou motivasse, somos suscitados por um verso, ou por uma cantilena. Melhor dizendo, convocados, porque é de voz que se trata.
Talvez por que a similitude do momento ou de uma situação se identifica com outra do passado. E o ritmo do coração é o mesmo, na sua batida sensível e humana.
Mas as palavras exactas muitas vezes se nos escapam e não ocorrem. Mesmo que tenham sido nossas. Temos, então, que ir à estante procurá-las. E recordar a sua perfeita exactidão original.

sábado, 13 de agosto de 2016

Animosidades poéticas


Para além de grande poeta e Nobel da Literatura (1956), Juan Ramón Jiménez (1881-1958) era um homem austero e rigoroso. Que, na sua plenitude humana, não escapava a ter algumas antipatias viscerais. Esses ódios de estimação compreendiam Gongora, falecido há muito, mas também Pablo Neruda, ainda vivo quando o poeta do Moguer compôs este dístico acerbo, matando assim dois coelhos de uma só cajadada:

La antigua juventud gongorica
que tornado se ha nerudataria.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Citações CCLXXIV


A poesia é uma tentativa de aproximação do absoluto, por meio de símbolos.

Juan Ramón Jiménez (1881-1958).

sábado, 16 de maio de 2015

Bibliofilia 120


Não sei quando me terei apercebido de que, arremedando o castelhano, autodidacticamente, podia ser entendido pelos espanhóis. Provavelmente, quando fui pela segunda vez a Santiago de Compostela, teria eu entre treze e catorze anos. E onde comprei uns 4 ou 5 livrinhos, de índole diversa, para ler. O que vim a fazer depois, sem grande dificuldade, entendendo quase tudo.
Mais tarde, quando cheguei à poesia de Neruda, as coisas começaram a complicar-se; ainda um pouco mais tarde, com os versos de J. R. Jiménez, começaram a fiar mais fino, e cheguei à conclusão de que teria de comprar um dicionário de espanhol-português para compreender aquela "música das esferas". Acabei por comprar um modesto volume (Editora LEP/S.A., São Paulo) de bolso, em imagem, editado no Brasil, em 1956, na sua sexta edição, com autoria de H. P. Santos. Custou-me, na altura, Esc. 17$50. Mas era de léxico muito rudimentar e deixou-me frustrado, muitas vezes, pelas constantes omissões.
No anos 80 do século passado, comprei um novo dicionário em dois volumes (espanhol-português e português-espanhol), pelo preço muito acessível de Esc. 300$00. Fora editado pela Garnier, de Paris, por volta de 1920, obra do Visconde de Wildik. E era já bastante mais completo. Mesmo assim, uma e outra vez, deixava-me na ignorância de algumas palavras...
Finalmente, cheguei ao completíssimo e competente dicionário de Manuel do Canto e Castro Mascarenhas Valdez (1820-1886), cidadão nascido no Rio de Janeiro, que faleceu em Lisboa. Em 1864 e na Imprensa Nacional (Lisboa), fez publicar a sua monumental obra, em 3 grossos volumes. É trabalho aturado e precioso, onde nestes últimos 6 anos, fui procurar o significado de palavras espanholas, e sempre encontrei respostas. Os meus exemplares estão belamente encadernados, tendo dado por eles 45,00 euros. Não preciso de mais e por aqui me fico, quanto a dicionários de espanhol.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Bibliofilia 92


Pablo Neruda (1904-1973) foi um dos meus poetas de eleição, na adolescência. Hoje, e apesar do retrato impiedoso, mas certeiro, que dele traçou Juan Ramón Jiménez, ainda há alguns poemas do poeta chileno que eu releio, com gosto.
Os dois livros, em imagem, são primeiras edições e das últimas obras preparadas por Neruda, para publicação, embora Incitación al Nixonicidio..., seja já póstumo e tenha sido editado no México, cerca de dois meses depois do golpe de Pinochet. Plenos Poderes (1962) foi publicado em Buenos Aires (Argentina).
Comprei novas as duas obras, pouco depois de terem saído, e em Lisboa. Plenos Poderes custou-me Esc. 60$00 e o segundo livro, de 1973, foi-me vendido por Esc. 80$00, na Livraria do Apolo 70.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Rosa de Dezembro


Não lhe toques mais
porque assim é a rosa!

Juan Ramón Jiménez


Nota: esta rosa (e como elas são difíceis em Dezembro!...) da varanda a leste, abriu entre Novembro e Dezembro, mas já estava prometida a sua imagem, antecipadamente.
O dístico perfeito de J. R. J., que traduzi, aplica-se objectivamente ao poema findo e completo. Mas também merece a beleza desta rosa perfeita.