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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fulgurações


Acabei de ler recentemente "Rencontres avec René Char" (ed. José Corti, 1991) de Jean Pénard. Com imenso agrado. É um livro em que um amigo fala, também, sobre a velhice de outro amigo: as debilidades físicas, o sofrimento pela morte do gato Tigron (que morreu 3 anos antes de Char), o regresso memorial à infância, o amor (já) saudoso pela Natureza, algum desânimo...
Retive algumas ideias de Char (para lá da minha surpresa do Poeta não gostar nada de J. L. Borges), retransmitidas por Pénard. Aqui vai, partilhando, em tradução, um pensamento de René Char:
"Não há poetas sem delírios. Alimentámo-nos deles, dominando-os. O nó do problema é o de saber quem vai ganhar, o poeta ou o delírio. Se o delírio domina temos Hölderlin, Nietzsche, Artaud e tantos outros em pintura, em música, ainda com algumas fulgurações, mas fulgurações enlouquecidas."

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ódios de estimação literários


É curioso constatar que escritores, até reconhecidos pela sua generosidade natural, não deixam, contudo, de ter alguns ódios de estimação centrados em confrades da mesma arte. E que exorcisam esse sentimento, com alguma frequência, em conversas mais íntimas, ou mesmo em escritos. É nítida, por exemplo, a antipatia intelectual que George Steiner consagra a E. M. Cioran. Ou a que Cioran, por sua vez, dedicava a Albert Camus. É conhecida a pouca simpatia que Jorge de Sena tinha por Manuel Bernardes, e que considerava pouco inteligente; ou por António Ferreira, que achava um poeta menor - e, aqui, estou quase de acordo com Sena.
René Char (1907-1988), que dedicava uma enorme estima humana e literária a Albert Camus e Saint-John Perse, desprezava, intelectualmente, Valéry e não apreciava nada Aragon. Li, há pouco tempo, um pequeno episódio, narrado por Jean Pénard ("Rencontres avec René Char", 1971), que passo a citar: "...René Ménard n'a décidément pas de chance. Il compare Rafael Alberti à Federico García Lorca. Emportement imédiat de Char: «Comment pouvez-vous les mettre l'un prés de l'autre? García Lorca avait le chant. Alberti ne l'a jamais eu.» Il prononce ces mots avec violence et gravité. ..."