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quinta-feira, 25 de março de 2010

O absurdo e o mistério



De há um tempo a esta parte, tenho observado que, ou seja pela idade ou pela instabilidade do mundo em que vivemos, uma boa parte das pessoas com quem mais convivo se preocupa, de uma forma mais intensa (lendo, interrogando-se e interrogando), com a religião, a morte, e o depois... Isso fez-me lembrar François Mittérrand (1916-1996) que, pouco antes de morrer, mas já com a morte anunciada, pelo avanço crescente do cancro da próstata, quis e promoveu diversos encontros e diálogos com várias personalidades, sobre o além. Uma das pessoas, com quem falou, foi Jean Guitton (1901-1999), escritor e filósofo francês, católico. Este diálogo deu origem a um livro, editado em 1997, sob o título "L'absurde et le mystére". O então ainda Presidente de França foi, de helicóptero, até à residência do filósofo e começou a conversa do seguinte modo: " Guitton, o senhor que é filósofo e tem fé, tem dez minutos para me dizer qual é o sentido da vida... Aparentemente, tudo é absurdo ou, então, tudo é mistério."

Ficcionalmente, João Guimarães Rosa terá escolhido a segunda. Não era ele que dizia que " as pessoas não morrem, ficam encantadas"? Também no seu magnífico conto "Cara de Bronze" ilustra uma situação afim que, resumidamente, passo a lembrar. Um rico fazendeiro, vendo a morte aproximar-se, encarrega três dos seus melhores vaqueiros a irem pelo mundo descobrir, para depois lhe contarem, qual era a razão da vida. Passa-se algum tempo, e dois deles desistem de procurar. O terceiro prossegue e, mais tarde, regressa à fazenda e, junto ao leito do moribundo, diz-lhe: " A noiva tem os olhos gázeos!" O resto é silêncio.