Mostrar mensagens com a etiqueta Japão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Japão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Adagiário CCCLXIV



1. Se vives na aldeia, ela é a capital. 

2. Cuidado com uma mulher bonita: é o pimento vermelho.

3. O grito de mil pardais é inferior ao de uma só cegonha.

4. O pensamento do homem e a corrente do rio podem mudar de sentido durante uma noite.


(Referidos como provérbios japoneses, por Wenceslau de Moraes, in Cartas, II, 342-345.)

terça-feira, 26 de março de 2024

Antologia 18



Tenho dúvidas se os livros de Wenceslau de Moraes (1854-1929) serão ainda hoje procurados e lidos. Para quem queira ter uma ideia do Japão antigo, as suas obras serão, no entanto, imprescindíveis. Mas depois dum ressurgimento, merecido, da sua pessoa devido ao diplomata Armando Martins Janeira (1914-1988) e da reimpressão dos seus livros, nos anos 70 do século passado, pela Parceria A. M. Pereira, creio que o escritor terá entrado num certo limbo de apagamento.
Para contrariar um pouco esse esquecimento, vou aqui deixar um pequeno extracto pitoresco repescado duma antologia organizada por A. M. Janeira para a Portugália Editora , em 1971. Segue (pgs. 198/9):




"Eu tenho aqui um galo e três galinhas, de raça anã, vulgar neste país (Japão); quase do tamanho de pombos. Nem eu poderia passar sem ouvir, todas as madrugadas, cantar o galo, em minha casa. Porquê? Difícil de explicar. Um sentimento herdado, presumo. O cantar do galo sugere-me miragens de um mundo de delícias - alacridades campesinas, alegrias de aldeia, vida serena no lar, com esposa e muitos filhos... - Eu devo ter tido algum remoto avô, que nunca viu o Oceano, que nunca sonhou com viagens e em países de exotismo, que viveu feliz na sua aldeia, rodeado de família, entretido na lavoura, escutando o boi de trabalho mugir cerca, os cães de guarda em seus latidos, os galos a cantarem; e dessa orquestra rústica de vida simples, enlevo do velho parente ignorado, ficou-me, talvez, o amor pelo cantar do galo, ao alvorecer."

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

1 haikai japonês

 

Trinco as uvas
bago a bago -
como um cacho de palavras.


Nakamura Kusatao (1901-1983)





segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um poema de F. G.



Das Guerras - III

Falemos acerca das cerejeiras de Kudan, no Japão. 
É uma colina onde estão os corpos dos que morreram.
Nela há muito que crescem as cerejeiras. Todos os anos,
com a passagem das estações, vêmo-las em flor. Talvez
na sua seiva passe o espírito dos que apenas receberam
o silêncio que se segue aos combates. Eram soldados;
tinham por isso de matar. Obedeciam a ordens. A morte
era para eles uma cerimónia e se depois partiram
para Kudan é porque a vida já não lhes pertencia. Outrora
ao amadurecerem as cerejas, principiavam a colhê-las,
mas compreenderam que as iam depois perder. O tempo
passou por ali mais depressa. Agora que idade têm?


Fernando Guimarães (1928), in Das Mesmas Fontes (pg.24).

quinta-feira, 17 de março de 2022

3 haiku japoneses, em versão portuguesa e livre






Noite breve
- a lagartixa retém
as gotas de orvalho.

Yosa Buson
(1716-1783)
...

Perseguido
o pirilampo abriga-se
no rasto do luar.

Ôshima Ryôta
(1718-1787)
...

Queria tanto partir
- penteado pela lua
sob o céu vagabundo!

Tagami Kikusha-ni
(1753-1826) 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Haikai de Kyoroku

 

Ela ondeia as barbatanas
pelo fundo das águas,
sinuosa, a carpa sonhadora...


Kyoroku (1652-1715)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

2 Haiku de Yosa Buson* (1716-1783)


A primavera que se afasta
hesita
por entre as cerejeiras finais.

...

Chuva de primavera -
o tanque e o ribeiro
acabam por se encontrar.



* Yosa Buson foi, simultaneamente, pintor e poeta de renome, ainda hoje reconhecido no Japão.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Haikai



Será  que a vida é curta?
Pareceu-me bem longo
o sonho que tive.


Yokoi Yayu (1702-1783)


para H. N.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

1 haikai, traduzido, de Kobayashi Issa (1763-1827)


Exigindo que eu tome
e lhe traga essa lua do céu,
minha filha não pára de chorar.


com envoi e agradecimentos a H. N..

domingo, 27 de agosto de 2017

Haikai



Do Buda colossal,
pelas narinas, nasce e vem
o nevoeiro matinal.


Kobayashi Issa
(1763-1827)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

2 Haiku de Chiyo-Ni


O rouxinol volta
e volta a cantar - repete-se.
E não se cansa nunca.

...
Água que se faz cristal,
os pirilampos que se apagam,
pela noite fria nada mais existe.


Chiyo-Ni (1703-1775)


Nota: poetisa precoce, Chiyo-Ni fazia haiku desde a sua meninice, vindo a professar como monja budista, na maioridade.

quinta-feira, 10 de março de 2016

1 haikai de Bashô


Oh, mariposa!
Que sonhas tu quando
agitas as asas?


Matsuo Bashô
(1644-1694)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mais 1 haikai de Inverno


Gelo nocturno:
acordo, que o meu cântaro
de barro estala. E racha.


Matsuo Bashô
(1644-1694)

sábado, 7 de novembro de 2015

Recomendado : cinquenta e nove - Yasujiro Ozu


Hoje, na RTP2, às 22h37, um dos grandes clássicos do cinema japonês : "Viagem a Tóquio" (1953), de Yasujiro Ozu (1903-1963). A não perder, para quem nunca viu. Ou para rever...

domingo, 18 de outubro de 2015

Pseudo-japoneses


Sempre tive alguma dificuldade em aceitar chamar haiku a pequenos poemas sujeitos a regras semelhantes, mas que não fossem escritos por poetas japoneses. Soava-me a falso, a imitação deslavada. Muito embora algumas vezes, poucas aliás, na sua essência e conteúdo, eles tivessem um resultado satisfatório.
No século XX, o haikai tornou-se popular e foi cultivado por vários poetas do Ocidente. No meu entender, porém, a esses poemas faltava sempre qualquer coisa de essencial. Talvez a alma, apesar da ossatura... Mesmo assim, aqui deixo em tradução, que fiz, dois pseudo-haiku de poetas ocidentais conhecidos:

Pavimentos perigosos...
Mas este ano enfrento o gelo
com a bengala de meu pai.

Seamus Heaney (1939-2013).
...
Face que se fez morena
de tanto olhar os gansos
partir para o oeste.

Alec Finlay (1966).

quarta-feira, 1 de julho de 2015

2 haiku de Verão


A lua à meia-noite
como se fora
um disco de frescura.

Yasuhara Teishitsu (1609-1673)
...

O grande Buda -
sua frieza de estátua
desumana.

Masaoka Shiki (1867-1902)

sábado, 21 de março de 2015

2 haiku de Primavera


Prenúncio de Primavera -
o milhafre da planície
chega-se às nuvens.

Ilida Dakotsu
(1885-1962)
...

No tanque das lavagens
a lua de Março -
espero-te.

Mayuzumi Madoka
(1965)

Nota: intencionalmente, estas traduções de poesia para saudar a Primavera e celebrar o Dia Mundial da Poesia, marcado pela Unesco.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

1 haikai de Outono


Lua cheia

O macaco sonha
pela noite longa  -
como vou colher a lua?

Masaoka Shiki
(1867-1902)

domingo, 14 de setembro de 2014

2 haiku de Verão


Sobrevoando um cravo
uma borboleta branca -
ou alma alucinada.

Masaoka Shiki
(1867-1902)
...

A luz que se apaga,
frescas estrelas vão
entrando pl'a janela.

Natsume Sôseki
(1865-1915)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Das aguardentes de arroz


De Sake, já eu sabia que era uma aguardente japonesa (a China também a produz e consome), feita através da fermentação do arroz. Já a provei: pouco interessante, quase sem aroma - associo-o ao adjectivo "fade" francês, de que Simenon usa e abusa, para descrever, de manhã, o odor dos quartos de dormir que foram ocupados, durante a noite, por um casal.
Agora de Rack, aguardente de arroz, inglesa, nunca tinha eu ouvido falar. E um dicionário normal não a regista, nem a Wikipédia que, normalmente, agrega tudo: ouro e detritos. Só "The Concise Oxford..." dá notícia, muito lateralmente: "Draw off (wine, etc.) from..." (pg. 994). Não fala é de arroz. Mas o livrinho (Novo Manual do Destilador e do Perfumista), que já aqui citei (19/6/11), merece-me alguma confiança.
E regista:
"Os Inglezes usão muito do arroz para fabricarem huma especie d'aguardente a que chamão rack. Segundo os meios já indicados para se prepararem os grãos á preparação vinosa, facil he conhecer-se como se proceder com o arroz. Será pois necessário fazelo germinar, seccar-se, reduzir-se a farinha grossa como a cevada, e tratalo pelo methodo inglez. A maceração do arroz exige a mesma temperatura e precauções que a da cevada" (pg. 139).
Pois seja! Os ingleses sempre tiveram pouco jeito para prepararem coisas de boca... E contentam-se com qualquer coisa, mesmo muito dessaborida.