Sá de Miranda tem um verso muito sugestivo e amplo para definir momentos difíceis e de incerteza psicológica. Vou citá-lo de cor: "Que farei, quando tudo arde?..."
Em Agosto de 1975, era eu ainda jovem, e Portugal estava ao rubro. Num passado recente, congressistas do CDS, reunidos no Porto, tinham sido cercados e ameaçados por grupos de populares enraivecidos; os deputados, também foram sitiados no Parlamento, em Lisboa, e impedidos de sair, durante várias horas; as sedes do PCP, de Rio Maior para Norte, iam sendo incendiadas, os militantes agredidos, os arquivos, deitados das janelas para a rua.
Ora, quando me falam dos "brandos costumes" dos portugueses, eu lembro-me disto.
Nesse Agosto, duplamente quente, eu fui a Londres, por alguns dias. Só se podiam levar para o estrangeiro apenas Esc. 20.000$00 - que era pouco -, mas eu senti um alívio enorme, nos dias que lá passei. Deixei de me questionar, quotidianamente: "- Que vai ser de Portugal?" E, embora no regresso, tudo voltasse à mesma pressão explosiva, em Novembro, as coisas foram-se modificando.
Agora que vim à Alemanha, embora por razões que nada tem de deleitosas, a incerteza, insegurança e destino, que parece macabro, atenuou-se muito. Foi, outra vez, um alívio. Deixar de ouvir as pitonisas agoirentas, a mediocridade de muitos políticos, o determinismo da desgraça anunciada pelos media. Parei, por algum tempo de pensar: " - Que vai ser do Futuro?"
Embora o meu optimismo seja pequeno, eu diria que as coisas que parecem definitivas, duram apenas o seu tempo. A eternidade serve causas mais nobres.