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domingo, 15 de abril de 2012

Mais um soneto (VII) de Jacques Lèbre


Sem que se saiba daquela que parte com passo seguro,
embora eu lhe visse os ombros e sobre os ombros vi...
Mas é preciso deixar adormecer as histórias antigas
ou embalá-las como se faz a uma criança que não dorme.

Aliás é assim que todas as histórias vão adormecendo
até para deixar as conversas mais à solta...
Embora elas possam despertar os mortos, as conversas!
Não é o que elas fazem no dia do enterro?

Não é o que torna imperfeita qualquer necrologia?
É por isso que os mortos nem sempre têm sono,
é por isso que o amor dá voltas no caixão

se os vivos durante a noite se recordam,
porque um vivo pode sentir-se mais morto do que vivo
e da ponte Mirabeau ou da Marie lançar-se para o Sena.

Nota: este soneto (VII) de Jacques Lèbre (1953), tal como o outro (IV), traduzido anteriormente, pertence a um ciclo de 14, publicados na revista "Po&sie" (nº 95, de 2001), com o título "Le coeur, cette pompe", e uma abordagem temática da morte e despedidas. O suicídio, aqui sugerido, é uma referência oblíqua a Paul Celan e a Ghérasim Luca - temas directos do soneto VIII. Neste ciclo, o último verso de um soneto é o primeiro do soneto seguinte. 

sábado, 14 de abril de 2012

Jacques Lèbre (1953)


De Le coeur, cette pompe, o soneto IV

Cada voz é a vaga de um oceano maior,
o poema devia fazer ricochete, até à vertigem,
até ao enjoo que se assemelhasse a este mundo
para que seja sua imagem, reflexo sobre a página.

Mas nenhum poema terá jamais o odor dos matadouros,
nem sequer poderá  receber uma bala no ventre,
e é nisto que é invencível o seu poder
de coisa verbal saída do sopro quente de um corpo

que, em si, como corpo não é invencível,
ameaçado que está por bacilos e priões.
Que o poema não espirre se o poeta tem gripe.

Porque ele não sabe donde vêm estes sonetos,
ele pergunta-se se a poesia não será uma incubação
e se a página não é branca como um leito de hospital.

Jacques Lèbre (2001?).