Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Emile Blanche. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Emile Blanche. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A par e passo 110


No espírito, a memória, os hábitos, os automatismos de todo o género, representam esta vida profunda e estacionária; mas a variedade infinita de circunstâncias exteriores encontra nele recursos de ordem superior. Em particular, o espírito criou a ordem e criou a desordem, porque o seu objectivo é provocar a mudança. Através dela, ele desenvolve um domínio cada vez mais vasto, a lei fundamental (ou pelo menos aquilo que eu creio ser a lei fundamental), da sensibilidade, que é introduzir no sistema vivo um elemento de surpresa, de instabilidade sempre próximo.
A nossa sensibilidade tem esse efeito de fazer romper, em nós, a cada instante essa espécie de sono que se cola à monotonia profunda das funções da vida. Temos de ser sacudidos, avisados, despertados a cada instante para algumas desigualidades, para alguns acontecimentos do meio, algumas modificações da nossa situação fisiológica; e nós temos orgãos, possuímos todo um sistema especializado que nos atrai inopinadamente e com muita frequência para o novo, que nos pressiona no sentido de encontrar a adaptação que convém à circunstância, à atitude, ao acto, à deslocação ou deformação, que anularão ou acentuarão os efeitos da novidade. Este sistema é o dos nossos sentidos.
O espírito empresta assim à sensibilidade que lhe fornece essas chispas iniciais, o carácter de instabilidade necessária que põe em movimento o seu poder de transformação.

Paul Valéry, in Variété III (pgs. 211/2).

domingo, 10 de agosto de 2014

A par e passo 101


A ordem pesa sempre no indivíduo. A desordem fá-lo desejar a polícia ou a morte. São duas circunstâncias extremas onde a natureza humana não está à vontade. O indivíduo procura uma época que seja agradável, onde se sinta mais livre e mais apoiado. E ele encontra-a a partir do começo do fim de um sistema social.
E, então, entre a ordem e a desordem, reina um momento delicioso. Todo o bem possível que procura conciliar os poderes e os deveres adquiridos é nessa altura que se pode fruir através desse abrandamento do sistema. As instituições ainda se aguentam. São grandes e poderosas. Mas sem que nada ainda se tenha alterado, elas já não apresentam a sua inteira presença; as suas virtudes já não se desenvolvem mais; o seu futuro está misteriosamente esgotado; o seu caracter não mais é sagrado; a crítica e o desprezo vão-nas minando e esvaziando de todo o seu conteudo futuro. O corpo social perde docemente o seu amanhã. É a hora do prazer e da delapidação generalizada.

Paul Valéry, in Variété II (pgs. 60/1).

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A par e passo 38


CV
Dúvida

Eis um belo título para capítulo: da quantidade de coisas que nós ainda não pensamos pôr em dúvida.
Mas a propósito de dúvida, este grave tema de velhos debates um pouco desaparecidos, não houve nenhum filósofo recente que o tenha conseguido pensar mais profundamente do que Descartes, constituindo-o como ideia e presença da diversidade mental. A dúvida regressa então ao sentimento das variações e em particular à admissibilidade de tais postulados.
Ligar a todo o julgamento a sua verdadeira natureza psicológica e, em simultâneo, o grupo inteiro dos possíveis...

Paul Valéry, in Tel Quel II (pg. 228).