O título deste poste devo-o a Jacques Monod (1910-1976) que foi prémio Nobel de Medicina, em 1965. O livro de sua autoria teve larga leitura e divulgação, no início dos anos 70, mesmo em Portugal. Mas a minha preocupação, não é científica. Tenho assistido, nos últimos anos, a pessoas da minha e das gerações vizinhas, a ocuparem-se, com desvelo, em leituras religiosas, outros a encarneirarem, cegamente, em teologias ou interrogações do além-morte que, cada vez mais, me deixam cercado, isolado e perplexo. Será que eu vou resistir com o avançar flébil da velhice?
A Cientologia a que aderiram dois meus conhecidos, deixou-me estarrecido e francamente preocupado. Contrapuseram-me que talvez isso os ajudasse a viver melhor. Não consegui responder. Claro que há outros mundos nas cabeças dos outros, mas, e como dizia o poeta: "...porque lhes dais tanta dor/ porque padecem assim?..." Há depois, também, a dedicação religiosa aos animais domésticos - tenho aqui, bem perto, uma ex-professora outrabandista que já está do "outro lado"; e, quando passeia o seu "lulu" fala, continuamente com ele pela rua: altas filosofias, economia caseira, questões religiosas. Claro que a aturar, anos e anos, criancinhas uivantes, o que é que se poderia esperar?
E, depois, há aquele exemplo nobre de uma ex-primeira dama que se re-converteu, depois de um acidente de aviação, quase mortal, do seu filho - que conseguiu sobreviver. Há que compreender este desespero metafísico, e ser tolerante. Mas eu tenho dificuldade. E até percebo que nos encontramos numa nova Idade Média e que a marcha da Humanidade sempre foi feita de avanços e recuos.
Claro que me posso perguntar como é que o meu coração continua a bater, sem eu fazer nada para isso. Ou o meu aparelho digestivo trabalhe sem eu lhe dar ordens para o fazer. Ou porque é que ainda há monárquicos, nesta altura do mundo. Ou o Pol Pot fez o que fez no Cambodja. Para mim, a resposta é: por acaso ou necessidade. Por vezes, há que procurar, em si, as razões dos outros. Ou rematar com Fernando Pessoa (citado de cor) que dizia que a "metafísica era uma consequência de estar mal disposto". Será?