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terça-feira, 31 de março de 2026

Do que fui lendo por aí... 75

 

Em 1885, dez pintores lisboetas abancaram em volta de uma mesa de cervejaria, enquadrados, já, para a posteridade. Eram jovens de menos ou pouco mais de trinta anos, em princípio de carreira, e em princípio de "escola" também, que começava a ser a naturalista, em descoberta pós-romântica do país - ou romântica ainda, necessária e fatalmente. O quadro destinava-se ao próprio sítio da reunião habitual. Abancados todos, menos um que, de pé, chapéu alto na cabeça e bengala sob o braço, como de propósito sai do quadro que ele próprio pintou, aliás - ou por isso mesmo.

José-Augusto França (1922-2021), in Malhoa & Columbano (pg. 21).

com agradecimentos a H. N.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Filatelia CXIX


Se, hoje em dia, os selos propriamente ditos são em menor parte usados na correspondência, em benefício neutro de etiquetas mudas de imagem ou carimbos inexpressivos, os CTT aumentaram, com o tempo, as suas "rendas" através de mil e um artifícios tentadores sobretudo para os filatelistas. E a exemplo de países estrangeiros, que já os usavam.



Estão neste caso, desde 1986, a emissão dos chamados Livros CTT que, com apuro gráfico, agrupam séries de selos já em circulação, com a mesma temática, acompanhados de textos competentes de especialistas da matéria. O primeiro destes livros foi dedicado aos "5 Séculos de Azulejos Portugueses".



Reproduzimos, em imagem, o volume que foi dedicado à "Pintura Portuguesa do Séc. XX", que tem texto alusivo de José-Augusto França (1922-2021), inserindo selos de Amadeo de Souza-Cardoso até José de Guimarães. Este Livro CTT foi editado em 1990, com estampilhas postais (em blocos) de 1988 a 1990.

domingo, 19 de setembro de 2021

Em sequência, imagens e algumas palavras em volta



Não posso dizer, e ao que observei, que a repercussão à morte de José-Augusto França (1922-2021), na blogosfera, tenha sido muito intensa. Sobretudo se a compararmos com alguns desaparecimentos de outras figuras menos significativas e até em relação a óbitos recentes de figurantes estrangeiros. Embora com extensa bibliografia, o historiador de arte era uma personagem discreta - creio. O que talvez explique o facto.



Para lá da ficção, estudos e memórias, eu gostaria de destacar, da sua obra, a direcção e edição de 5 números de uma revista literária de grande qualidade e de vanguarda que ele editou entre 1951/6, e que por vezes, colectivamente, é apelidada de Córnios. A BNP, em Dezembro de 2006, de forma oportuna fez uma mostra documental e publicou um caderno bastante significativo, que teve a colaboração do próprio José-Augusto França. 



sábado, 18 de setembro de 2021

José-Augusto França (1922-2021)



Nascido em Tomar, José-Augusto França morreu hoje, em Jarzé (França). Era um dos já poucos portugueses sobrevivente e representante singular de multifacetada cultura e artífice de múltiplos saberes.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Filatelia CXLIII



A meio termo entre livro de arte, este número particulamente, e classificador enriquecido e temático, estes volumes dos CTT reuniam com gosto estético e textos de qualidade, séries emitidas anteriormente, com assuntos definidos, tratados por especialistas na matéria. Não creio que tivessem muita procura, porque até na Alemanha, nos Flohmärkte, encontrei à venda alguns e até comprei dois em bom estado. Usados, creio que se podem adquirir, hoje em dia, por entre 20 e 40 euros. 




O livro (Outubro de 1990) contendo, em blocos filatélicos, 18 selos dedicados à pintura portuguesa do século XX (Pomar, Dacosta, Nadir, Guimarães, Vespeira...) é acompanhado por um sucinto mas elucidativo estudo de José-Augusto França (1922) sobre o tema proposto. A obra teve uma tiragem de 15.000 exemplares, numerados.

sábado, 25 de maio de 2019

Memória 131 (de uma Colecção)


Os tempos leveiros de espírito que vamos vivendo, talvez ajudem a explicar a inexistência, que eu saiba ou me lembre, actualmente, de uma colecção de ensaística com a qualidade desta da Ática, em imagem, que se prolongou por quase três décadas, em Portugal.
Mas também a Sá da Costa, a Verbo, a Editora Ulisseia tinham as suas colecções de estudos e ensaios que, não sendo propriamente académicos, ajudavam os leitores a pensar e a desenvolver o sentido estético e crítico.


Hoje, as editoras estão mais preocupadas e interessadas em promover obras de auto-ajuda, para uma população cada vez mais carecida de competências e infantilizada, biografias pífias de pivots televisivos para consumo bisbilhoteiro do populacho, ou ficções paupérrimas de publicistas que fazem da sua exposição pública o ganha pão da sua actividade mercenária. O ensaio deixou de estar na agenda da edição e também, talvez, do público leitor.


Dos ensaístas aqui representados, apenas José-Augusto França (1922) sobrevive. Mas é sempre um reencontro enriquecedor revisitar Sena, Mourão-Ferreira e Prado Coelho nas páginas memoráveis destes ensaios da Ática.


sábado, 4 de abril de 2015

C. Chaplin / J.-A. França


"...Se o burlesco, o efeito grosseiro de um jogo de bolos de creme está ligado a uma idade infantil do espectador cinematográfico, não se pode ignorar que um ludus infantil é uma condição essencial para a formação e a admissão do «cómico». Lembremo-nos das rasteiras de «Lady Eve», de Sturges ou dos desastres que acontecem ao marido ciumento de «Unfaithfully Yours», de Sturges também, ou das cenas dos filmes de Jacques Tati, ou da batalha dos bolos em «O Ditador», de Charles Chaplin, que reabilitam, de uma maneira irrecusável, a óptica da farsa dos anos 1915-20, «idade infantil do cinema». E a «idade infantil do cinema» - que pode querer dizer, se no cinema vamos procurar a poesia, que é a essência da farsa?..."

José-Augusto França, in Charles Chaplin - O "Self made myth" (Inquérito, 1963).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Citações CCXV


E, porque acabei há pouco as Memórias..., de José-Augusto França, e vou encetar, finalmente, a leitura da biografia da rainha Victoria, de Lytton Strachey, aqui deixo, em jeito de despedida, umas das últimas palavras desse livro:
"...Telefone portátil tem vantagens e desvantagens, como o chapéu de chuva, e se, levados pelas facilidades, agora descobrimos que temos muitas coisas a dizer uns ao outros, pelas ruas fora, sem tempos de repouso, é também porque somos muitos, senão demais. E também porque, em crises civilizacionais de identidade, o portátil dá a muitíssima gente segurança (ou ilusão), de existir. Ter «blogs», enviar «e-mails» ou chilreios («tweets»), pelo menos neste caso permite supor que quem for capaz de redigir uma mensagem de 140 signos não é inteiramente estúpido. ..."

domingo, 4 de janeiro de 2015

A magnólia de José-Augusto França



Eu julgo que qualquer ser humano tem a sua árvore de referência ou eleição. As minhas primeiras árvores de estima foram uma ameixoeira e uma figueira. Esta última parecia retorcer-se até ao céu, no quintal vizinho do meu amigo Fernando. Por ela, tanta e tanta vez, trepámos!... A outra, muito mais maneirinha, florescia e frutificava no meu pequeno quintal minhoto, até que, um dia, secou e deixou de dar essas, para mim, antiquíssimas ameixas vermelhinhas.
No seu lugar, foi plantado e cresceu, dando frutos generosos, um belíssimo limoeiro que passou a ser a minha árvore preferida e emblemática, para sempre. O branco nupcial da floração e, depois, o verde e o amarelo dos limões deram-me para mais do que um poema... E estão lá, no fundo da memória. Mais os outros dois outrabandistas e presentes, quase bonsais, na varanda a leste.
Ora, para lá do cedro do Príncipe Real e de tantas outras árvores do Jardim Botânico de Lisboa, no segundo livro de memórias (Memórias para após 2000, Livros Horizonte, Lisboa, 2013) de José-Augusto França (1922), ergue-se e destaca-se, em Jarzé (França), uma magnólia. Assim:

"A magnólia mesmo, de há meia dúzia de anos para cá, árvore centenária, aclimatada da Índia, e mal reconhecida de reacções biológicas, especialistas a especialistas, remédios a remédios experimentados, uma muleta que se lhe fiz dar, para suportar o peso da ramagem virada a nascente, mais abundante, mas que se rendilha, perdido o lustro verde das longas folhas e só, ainda, brotando, em Junho e Julho, belíssimas, acetinadas e olorosas flores que são, afirmam os pré-historiadores, as mais antigas do mundo, conhecidas em fósseis e que persistem, ano a ano das nossas eras... Até este «Pavillion» onde vejo (com André) falecer a minha árvore de adopção e referência. Qual de nós os dois, pergunto também, se irá primeiro? Abatê-la, aconselham os sabedores, e dentro de vinte anos outra grande árvore, à escolha, no mesmo sítio terá crescido. Vinte anos? Muito obrigado..." (pgs. 148/9).

domingo, 28 de dezembro de 2014

Leituras : passado, presente e futuro


Uma das vantagens do Inverno é que acabamos por ler mais: o inóspito exterior e as longas noites, a isso convidam.
Findo que foi o primeiro livro das Memórias de José-Augusto França (Tomar, 1922), vou já a meio da leitura do segundo volume (em imagem), que se ocupa dos primeiros anos do século XXI, até 2012. Memórias movimentadas, com grande ritmo descritivo, importantes para quem queira conhecer ou se interesse pela vida artística portuguesa de grande parte do século passado. Espera vez, entretanto, a vida da rainha Victoria (1819-1901), levantamento histórico de um longo reinado, levado a cabo por um notável autor inglês de biografias - Lytton Strachey (1880-1932).

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

90 anos


Nascido a 16 de Novembro de 1922 (bem como José Saramago, como o amigo Blogue Prosimetron recordou), José-Augusto França completa, hoje, 90 anos. Crítico e historiador de Arte, a sua faceta de ficcionista é menos conhecida. Por isso aqui deixamos a capa da 2ª edição de "Natureza Morta", com um belo trabalho gráfico de Victor Palla, executado para a Arcádia, em 1961. A obra publicada, inicialmente, em 1949, é um dos poucos romances portugueses, de tom existencialista, tendo por cenário Angola.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dia dos Museus, geminando...


Em boa hora, MR, no seu Prosimetron, antecipadamente lembrou o dia de hoje que é dedicado aos Museus, desafiando a que se manifestassem opções. Aqui vai, portanto, a geminação. 
Mas, antes, quero dizer que tenho um Museu perdido na memória, que nunca mais revisitei. Obstinadamente, eu colocava-o no Ehrenbreitstein, em Coblença, e lá vi um Dürer e um Rubens (não enxundioso), em 1964, muito bonitos. Porém, quando voltei à fortaleza de Coblença, em 1987, ele não estava lá. E nunca mais o encontrei, apesar de o ter procurado, incansavelmente, pelas redondezas. Mas sei que não sonhei. Existe, vi-o, mas esfumou-se-me para sempre, do local de origem, com pequenos vestígios na minha memória.
Por isso hoje, não farei uma escolha óbvia dos grandes museus de que, também, gosto: Janelas Verdes, Gulbenkian, Tate, Louvre... Prefiro chamar a atenção para um museu do centro de Portugal, maneirinho e temático, feito do gosto pessoal e ofertas de amigos, que José-Augusto França doou à sua terra natal - Tomar. Demos por ele por mero acaso, porque está instalado numa pequena vivenda, bonita e arranjada. E tem uma preciosa colecção de arte dos sécs. XIX e XX: Almada, Bernardo Marques, Dacosta, Eduardo Nery, José de Guimarães. Não é grande, vê-se bem e com gosto. E vale muito a pena conhecê-lo. Fica o convite!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Para a história da Pintura portuguesa do séc. XX




Em arrumos dispersos, descobri um velho impresso (1967) da Galeria Quadrante que frequentei, com alguma assiduidade, quer para ver e comprar livros, quer para assistir a exposições, e até mesmo alguns "Happenings", muito em voga na altura.
Este impresso tem a particularidade de conter um texto muito interessante de José-Augusto França, sobre as obras e artistas representados nesta mostra. Anote-se um nome: Paula Figueiroa Rego. Um dos quadros ("Mártires") da Pintora, consegui localizá-lo (em imagem): está hoje na Fundação Calouste Gulbenkian.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um poema "explicado" pelo título


De Um Desagravo Desencantado
No Jornal Por J. A. França,
Logo Recuperado, Como Inventário,
Por Alexandre O'Neill



Os bons portugueses de Alcantarilha.
Silva, modesto empregado de escritório.
As irmãs Albuquerque, aposentadas.
Uma aluna da Universidade de Lisboa.